Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (2 de 5))

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03

O Dr. Sério Fuss foi acordado às cinco da manhã. Da delegacia o informaram que a Rua das Violetas era um caos. Havia um incêndio, um carro dos bombeiros, uma ambulância, uma multidão assustada, uma provável vítima fatal, e uma velhinha histérica exigindo a sua presença e o acusando de tudo que estava acontecendo.

Sério entrou na delegacia pela porta que dava para a Bispo, longe dos olhos de Magda, e Zé Romeu lhe relatou a ocorrência. Lá pelas quatro da madrugada todos foram alertados quando perceberam a crepitação do fogo e o cheiro de fumaça. Foi Zé quem chamou os bombeiros, mas o fogo foi rapidamente alimentado pelos materiais combustíveis do estabelecimento. Não foi possível salvar Calapaentro. Ele costuma beber muito para conseguir dormir. Certamente estava anestesiado pelo álcool. Fumava. Talvez fumasse deitado. Fora uma morte horrível, mas que há de se fazer? Coisas da vida.

Sério quis saber sobre o movimento na rua antes do incêndio. Zé lhe disse que estava tudo normal. O bistrô fechara às dez. Um casal de velhinhos saiu da casa de Gertruda naquela hora. Eles se despediram e foram embora. Magda abriu a janela pelas onze e soltou Lúcifer. As luzes do apartamento de Astrogildo foram as últimas a serem apagadas quando já era quase uma da madrugada. Logo depois um casal de namorados se beijou de forma ousada sob a luz do poste do meio da quadra, quase em frente ao terreno baldio. Zé pigarreou e eles foram embora rindo. E depois tudo ficou calmo até que aconteceu o incêndio.

Sério deu recomendações para que Magda fosse levada pra casa com alguém para lhe fazer companhia. Não pretendia encontrá-la naquele momento. Logo que Magda estivesse fora do caminho queria ser avisado para poder ir até a outra esquina. Ele necessitava conversar com os bombeiros. E assim que o Dr. Ênio chegasse ao consultório queria vê-lo.

Apolíneo pegou a pessoa mais a mão, Gertruda, que de braços cruzados, num longo camisolão vermelho, assistia de longe o trabalho dos bombeiros, e os dois conseguiram arrastar Magda pra casa. Depois avisou Sério, que saiu sorrateiro. Enquanto subia a rua para o norte o Dr. Sério Fuss sentia os olhos de Magda, a espreita, cravados em sua nuca.

O4

Ênio e Sério conversaram no consultório do dentista. O assunto, evidentemente, era qual a relação do sonho de Magda com aquela absurda concretização na noite seguinte. O pragmatismo deles não admitia qualquer justificativa baseada na premonição. Deveria existir uma explicação mais lógica. Foi Ênio quem aventou a hipótese de uma Magda culpada. Será que a velhinha poderia ter provocado o incêndio no armazém? Com o objetivo de fazer valer o alegado aviso que tivera em sonho! Por se sentir desacreditada! Embora fosse difícil imaginar uma senhora octogenária com a habilidade e a capacidade física para levar a cabo tal tarefa. Ela teria contado com a ajuda de alguém? Estavam os dois conjecturando sobre o tema quando Semíramis bateu à porta e pediu que Sério voltasse para a delegacia. Magda estava lá, dando entrevista para a televisão. E tudo que ela dizia era confirmado por Olívio Zino, Apolíneo e Zé Romeu.

Quando Sério entrou na delegacia o mal maior estava feito. Ele sabia que todos os remendos que ele pudesse costurar não seriam suficientes. A mídia recebeu o reforço ávido de dois jornais sensacionalistas. Sério já estava perdendo a compostura quando Ênio tomou para si as atenções ao afirmar que o poder público estava ciente de suas obrigações, mas que não podia pautar suas ações numa premissa esotérica. Aquilo soou bonito. Confuso mas bonito. Tanto que teve a mágica de levar os repórteres a buscarem um fechamento para suas investidas. Os protagonistas presentes ficaram em silêncio absorvendo o significado daquela revelação. O delegado e o dentista trocaram olhares cúmplices. Magda soltou um guincho bufado e foi para casa. E aquilo soou como uma declaração de guerra.

A vida na Rua das Violetas voltou ao normal. É claro que na esquina com a Capaespada ficaram os restos carbonizados do velho armazém. E é claro que a auto-reclusão ressentida de Magda dava um toque destoante ao espírito anteriormente alegre da pequena rua. A aparente tranqüilidade acabou no dia em que Magda atravessou a rua, armada com uma sombrinha, rumo à delegacia.  Semíramis chamou o Dr. Ênio às pressas. Magda voltara a sonhar.

05

Com a porta fechada, com alguns ouvidos grudados nela pelo lado de fora, Sério e Ênio ouviram inquietos o relato em que Magda dava ao seu sonho a pintura de um fato consumado. Desta vez, se ninguém tomasse as devidas providências, aconteceria o suicídio de… (continua aqui)

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4 Comentários em “Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (2 de 5))”

  1. Li Says:

    Andando por aqui…..

  2. Li Says:

    Também sonho,e detesto sonhar.
    Não gosto de saber que alguém vai morrer.
    Todos vão,mas não gosto que me contem antes.
    Quem conta? Não sei.
    Nem sempre os sonhos são apenas sonhos.

  3. Li Says:

    Interessante,mas eu não gostaria de saber do futuro.
    Saber do presente já causa dores de cabeça,rs.


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