Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (1 de 5))

01

Todas as histórias necessitam de um cenário. Esta é uma tragicomédia surreal e não foge à regra. Então, primeiro, vou pintar o cenário:

Magna Pitareta e seu gato Lúcifer moravam na pequena Rua das Violetas. Magda era uma senhora pequenina e simpática, com mais de oitenta anos. Lúcifer trazia no pescoço uma coleira com esse nome. Um dia apareceu por lá e foi adotado por Magda. Ela tentou rebatizá-lo de forma mais católica, mas o gato só atendia pelo nome da coleira e assim ficou.

A Rua das Violetas tinha uma quadra só. Era limitada ao norte pela Avenida Comendador Capaespada e ao sul pela Rua Bispo Escalaverde. No lado oeste a esquina com a Bispo era ocupada pela delegacia de um bairro tranqüilo. Um bom lugar para se aposentar, no pensamento do delegado Sério Fuss. Ao lado da delegacia, indo pro norte, já no meio da quadra, ficava a clínica odontológica do Dr. Enio Canino, e depois, na esquina com a Capaespada, um bistrô, que nas estações quentes estendia suas mesas pela calçada. Do outro lado da rua, na esquina em frente ao bistrô, erguia-se o Armazém Crespo, do gordo Calapaentro Crespo. Ao lado do armazém, agora voltando pro sul, havia um estreito terreno vazio e depois dois pequenos prédios de quatro andares. No primeiro prédio, no apartamento térreo da frente, moravam Magda e Lúcifer.

O nome na rua era outro; o que agora não vem ao caso; mas ela ficou conhecida como Rua das Violetas por que Magda e Gertruda Hans, sua vizinha da esquina com a Bispo, ano após ano, tinham como hábito uma saudável e ritual competição expondo as suas preferidas nas quatro janelas e distribuindo vasinhos por toda a rua.

Naquela rua só transitavam carros do serviço público e bicicletas. Olívio Zino, o eterno guarda da rua, fiscalizava a circulação das crianças, de um eventual pipoqueiro e do jornaleiro. O único personagem estranho, um baixinho chamado Astrogildo Gisto, morava no quarto andar do prédio de Magda.

Era um período de floração e havia uma farta distribuição de violetas para as recepcionistas do dentista e da delegacia. O bistrô recebia sua cota extra. Só Calapaentro não era simpático com as violeteiras. Um velho azedo. E assim ficou pronto o cenário para a nossa história.

02

Numa manhã tranqüila Canino emergia de um molar quando viu, pela janela do consultório, Magda aos prantos, com os braços erguidos, atravessando a rua quase correndo em direção à delegacia. Semíramis, a menina da recepção foi solícita e procurou acalmar a velhinha que permanecia inconsolável. Os seus soluços e a conversa na recepção atraíram o Dr. Sério. Num instante Magda estava rodeada pela recepcionista, pelo delegado, pelo dentista, por Zino e os outros dois policiais da delegacia, Apolíneo e Zé Romeu. Todos, aos poucos, conseguiram que ela explicasse o motivo do seu desconsolo. Lúcifer não morrera.  Suas violetas não haviam secado. Magda sonhara que o Armazém de Calapaentro tinha sido consumido por um incêndio com Calapaentro dentro. E descrevia aquilo com tanta dramaticidade que todos foram até a porta da delegacia e olharam para o norte. E lá na esquina, Calapaentro Crespo, como todos os dias, atendia os seus fregueses baixando com o dedão o prato da balança enquanto ruminava um mau humor crônico. Fora isso parecia tão saudável quanto sua obesidade permitia e alheio aos sonhos de Magda.

Enio e Sério levaram Magda para o escritório do delegado, explicaram que o dono do Armazém estava bem, que tudo não passara de um sonho, que ela deveria se acalmar, voltar para casa e cuidar de seus afazeres, pois nada de trágico havia acontecido. Magda, aos poucos, foi se deixando convencer, mas pediu que o delegado tomasse todas as providências para proteger Calapaentro, pois o sonho fora por demais real para não ser considerado um aviso. O Dr. Sério Fuss deu a sua palavra de que todas as medidas seriam tomadas e aquele sonho ruim não se concretizaria. Por fim Semíramis e Zino acompanharam Magda até o seu apartamento e só saíram de lá quando ela, mais tranqüila, se acomodou em sua cadeira preferida com Lúcifer ao colo.

Naquele dia Magda não veio entregar o lixo como um pacote de presentes como fazia nos dias em que o caminhão passava. O coletor perguntou pro Zino se ela estava bem e quando soube a razão de seu recolhimento achou graça. Aparentemente Magda tivera uma das crises de caduquice tão comuns em sua idade.

Mas naquela noite um incêndio queimou o Armazém Crespo poupando só as pedras do alicerce. E o gordo e infeliz dono do Armazém morreu torrado entre batatas e carretéis.

03

O Dr. Sério Fuss foi acordado às cinco da manhã. Da delegacia o informaram que a Rua das Violetas era um caos. Havia… (continua aqui)

Anúncios
Explore posts in the same categories: Contos, Magda

Tags: , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

3 Comentários em “Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (1 de 5))”

  1. Li Says:

    Lendo atentamente………


  2. […]  (Para saber o começo desta história clique aqui!) […]


  3. […]  (Para saber o começo desta história clique aqui!) […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: