(34)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 97 a 101 de 101)

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Descobrimos Portbou, o mar, as montanhas, o espanhol e o francês. A fronteira com a França, saindo da esquina de casa, ficava apenas a dois quilômetros ao norte, por uma estrada sinuosa na encosta dos Pirineus. Barcelona estava a 140 quilômetros ao sul.

Na pele de Diego Fernandez mandei o meu novo endereço para Aníbal e depois de algum tempo começaram a chegar algumas peças estranhas. Um par de tênis cujo solado de borracha deveria ser derretido. Um conjunto de bilros para serem quebrados. Uma linda estátua de argila, representando um casal num abraço sensual, que Sofia relutou em quebrar para recuperar as pedras. E assim por diante.

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No fim do 6º mês em que estávamos e Portbou, quando já nos comunicávamos fluentemente com nossa vizinhança e tínhamos um círculo de amigos locais, Sofia, com 32 anos, descobriu que estava grávida. Ficamos muito felizes, pois parecia que aquele evento não faria parte de nossa vida.

Socorro fez toda a cidade saber que Dom Pierre Cervera seria bisavô.

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E o tempo passou. Nós éramos moradores de Portbou há 19 anos. Conhecíamos a Europa. Acabamos sendo escritores bilíngües. Nosso filho Piero estava namorando uma francesinha ruiva e de olhos verdes de 17 anos. O nome dela coincidentemente era Sophie. Nós quatro, num dia ensolarado, resolvemos caminhar sob as copas das árvores que criavam um ambiente de frescor e sombra na Rambla de Catalunha, a duas quadras de onde morávamos. A extremidade leste da alameda dava para o Mediterrâneo e, como aquela ponta recebia todo o sol do fim da manhã, olhando pra lá as nossa retinas acomodadas à sombra só percebiam os vultos envoltos em luz.

De uma forma mágica eu e Sofia ficamos observando um homem magro e alto que se aproximava vindo daquela luminosidade. No início ele era apenas um risco com contornos indefinidos, mas conforme caminhava em nossa direção ganhava contornos e seu andar ou algo nele nos atraia.

Era Pierre. Nós não nos mexemos. Esperamos onde estávamos. Sorrindo. Piero e Sophie perceberam que algo mágico nos ligava aquele homem, mas ficaram quietos, abraçados, observando a aproximação dele.

Pierre olhou para Sofia e para os dois jovens, mas se aproximou de mim e nos abraçamos demoradamente sem dizer nenhuma palavra. Depois ele abraçou Sofia que chorava e sorria. Eu estava com 60 anos e Sofia com 51. Ambos grisalhos. Pierre era a mesma pessoa que nós conhecíamos. Mas, embora tivesse a pele clara, era de um tom normal para um humano. Ele tinha cílios, sobrancelhas e um cabelo bem curto. Vestia-se elegantemente, mas sem afetação. Por fim disse: “Meus amigos. Enfim aprendi o significado da saudade. Mas não se preocupem! Já registrei.”

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“Não vim pra ficar. Serei obrigado a fazer uma viajem mais longa, mas queria dar um abraço em vocês e saber se estão confortáveis… e esses jovens?”

“Pierre, este cara é Piero, nosso filho, e aquela menina linda é Sophie, a namorada dele.”

Piero, a moda dos jovens, cumprimentou Pierre e deu seu recado. “Não sei quem você é, mas sei que vocês três já devem ter aprontado. Tanto que o meu nome é a tradução do seu… e, por acaso ou não, é o mesmo do meu bisavô.”

“É verdade!” Concordou Pierre. “E sua namorada tem o mesmo nome de uma jovem que eu conheci, também muito bonita…” Dizendo isto colocou a mão na cabeça de Sophie e fez um carinho em sua nuca. “Espero que vocês sejam felizes… e saibam o que estão fazendo!”

E voltando para mim completou: “Meu tempo é muito curto… vejam só! Nunca pensei que um dia teria que dizer isso! Realmente vim pra me despedir. Foi um prazer Piero… prazer Sophie…” Depois deu um beijo no rosto de Sofia, que ainda tinha os olhos úmidos, e segurou com força a mão dela enquanto dizia: “Mirian, vou roubar um pouco o seu marido.”

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Eu e Pierre saímos caminhando lentamente em direção à boca de sol da alameda, ambos com as mãos às costas.

“Você guardou o meu álbum?” Ele perguntou.

Eu descolei de meu cinto a pequena elipse transparente e a colei em seu peito, num gesto que passaria por uma batida amigável. Disse: “Está aí dentro!”

“Ah! o cinto que salvou a minha vida. Obrigado por tê-lo guardado pra mim.”

“Pierre, voltaremos a nos ver?” Perguntei.

“Não! Você sabe que os nossos tempos são diferentes.” Disse Pierre e eu sabia que ele estava triste com isso. Repentinamente ele parou, me olhou, sorriu e completou: “Mas eu tenho três notícias que podem ser boas, dependendo, é claro, da forma como você vai interpretá-las.”

“Não! Pierre! Não me venha com seus joguinhos. Vá direto ao assunto.”

“Então que assim seja: a primeira é que Sophie, a namorada de seu filho, é uma vêe-humana! possivelmente de segunda geração.” Eu fiquei estático processando aquela informação e a associando com as histórias contadas há quase 20 anos. “A segunda:” Continuou Pierre não me dando tempo para um questionamento mais aprofundado. “É que ela está grávida.”

“Isso quer dizer…” Comecei eu.

“Isto quer dizer que seu neto será um vêe-humano, vovô Michel!”

Eu permaneci sem palavras e Pierre perguntou: “Você não vai querer saber qual é a terceira?”

“Isso! A terceira…” Eu estava tonto.

“A terceira – um dia nós falamos sobre isto – é que seu neto pode ser aquele que vai dar o passo para o próximo salto evolutivo… seguindo o caminho! lembra?”

Nós nos abraçamos e nos olhamos nos olhos.

Pierre sumiu na luz e eu fiquei ali.

FIM

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11 Comentários em “(34)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 97 a 101 de 101)”

  1. Li Says:

    Linda história !

    Tive imenso prazer em acompanha-la.

    Aguardo outras….já que este endereço se fixou
    no caminho que costumo usar, como um vizinho
    novo……que cuida bem de seu jardim,de um jardim que dá prazer ao nosso olhar.

  2. Li Says:

    Obrigado,boas férias para você também.

    Eu vivo num eterno verão,sol,calor,praia….365 dias.

    Sou uma sortuda,porque tenho consciência disso,rs.

    Hasta luego,amigo!

  3. Franci23 Says:

    Ferias?!
    Vou sentir saudades por esse período, mas espero que volte com energias renovadas para podermos ler ótimas historias como a de Pierre.

  4. camargo Says:

    O autor e seu ultraleve

    Pierre tem um íntimo simbolismo mágico. É um transporte de utopias infantis, mas um transporte na cadência do tempo, amadurecendo com o adulto, no seu ritmo. Por isso, a maneira como ele entra na vida, não apenas dos personagens da história, mas na nossa vida, é natural. E é natural porque Pierre, como tantos outros símbolos das nossas fugas da realidade, pertence ao mundo da grande maioria das pessoas (vamos descartar os não imaginativos, os excessivamente pragmáticos). A capacidade do ficcionista em fazer o leitor transpor as evidências do irreal, é a marca literária de “Pierre, meu alienígena favorito”. Tanto que, muitas vezes, a ficção e a realidade fantástica se misturam.
    Porém, o texto vai muito além disso. Com a mesma naturalidade e leveza que insere um alienígena no nosso café da manhã, o autor mergulha de ultraleve em profundos abismos do comportamento humano. Com os ventos das mazelas sociais ele sobe e desce, vai e volta, se diverte, nos diverte, nos prende, nos ensina. A impressão que fica ao final da leitura é que o autor, em cada um dos seus voos mais altos, descobre (e revela), grandes possibilidades para a evolução do gênero humano, sem esquecer de destacar pequenas e imprescindíveis sutilezas para o convívio pacífico entre as pessoas.
    Agregar numa obra ficcional informação, formação e entretenimento, é o grande mérito do nosso desassossegado autor, que nos leva em seu voo com tamanha eficiência, que nem nos damos conta da altura que estamos voando.

    • romacof Says:

      Pôxa! Vou mandar isto pro Pierre! Ele certamente vai gostar. Além do mais vai entender muito mais do que eu e diferenciar as sutilezas elogiosas dos respingos críticos. Se um dia virar papel vou adotar este comentário como prefácio. Obrigado Dom Mário.

  5. camargo Says:

    caramba… escrevi meu alienígena favorito… desculpa a falha…

  6. camargo Says:

    eu escrevi o comentário tecnicamente por dois motivos: treinar e me insinuar… por isso já saiu na forma de prefácio, mas sem nenhum compromisso, obviamente.

    Acho que é uma história fascinante e que merece o romantismo da folha impressa… mas talvez, a princípio, ficaria muito melhor se impressa em algum periódico, jornal, revista… ele tem esse tipo cativante de novela (e não entenda o que a tv fez com esse termo) moderna, que caberia muito bem numa coluna de domingo.


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