(30)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 81 a 84 de 101)

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081

Eu não ficara realmente sentado. Ou sentara em todas as cadeiras da sala. E quando a porta de abriu eu estava muito próximo dela. Um médico novo, de jaleco branco onde no bolso se lia Dr. Douglas, perguntou: “Sr Michel?”

“Sim!”

“Pode me acompanhar, por favor?” E segurou a porta para que eu pudesse passar. Logo depois daquela porta havia outra com os dizeres: “Radio imagem – não ultrapasse.” Mas o médico não se dirigiu pra lá. Entrou num pequeno consultório onde mal cabiam duas cadeiras e uma mesa minúscula. Ele ocupou uma das cadeiras e disse: “Sente-se! Precisamos conversar!”

082

O semblante do médico não transmitia qualquer idéia do estado de saúde de Pierre. Mas, naquela altura, o que eu podia esperar? Depois de terem radiografado e fotografado todas as fatias de Pierre a face do médico poderia demonstrar pasmo, desconcerto, curiosidade, estarrecimento, ou qualquer outra coisa que traduzisse o fato de ter feito a descoberta de sua vida, menos preocupação pela saúde ou pela vida de um ser humano. Enfim quebrei o silêncio: “Doutor! Como está o Pierre?”

“Pierre?… sim! Ele está bem… é o que acreditamos… vou resumir a situação para o senhor… o senhor é primo, correto?”

“Exatamente!” E fiquei surpreso com a minha convicção ao dar aquela resposta, pois não conseguia ver ou sentir o meu amigo como um alienígena. Então me dei conta que aos olhos e ouvidos do médico eu estava me apresentando como um mentiroso, ou um alienado, ou até, quem sabe, um parente real de Pierre! Um outro alienígena! Um indivíduo a ser examinado com muito cuidado! Resolvi rapidamente mudar a estratégia. “Na verdade, Dr. Douglas, acho que precisamos ter uma conversa franca sobre a natureza do seu paciente e meu… primo!”

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“Mas, antes, acredite, quero que o senhor entenda que eu tenho uma grande amizade por Pierre e necessito saber quais são as condições de saúde dele…” E fazendo um esforço para não ser agressivo, completei: “… se isto é algo que está dentro da sua… ou da nossa… capacidade de dar uma resposta.”

“Compreendo o que o senhor quer dizer…! Bem! Pierre está vivo, monitorado, da forma que nossos aparelhos podem monitorar os sinais vitais de um indivíduo, digamos, diferente dos nossos pacientes comuns. Ele respira e há sinais elétricos que demonstram o funcionamento de um sistema cardiovascular, no entanto, ele parece não apresentar uma resposta neurológica adequada…”

Senti uma grande tristeza. “O senhor está me dizendo que Pierre está em coma.”

“Até onde podemos avaliar, sim!”

Eu fiquei em silêncio e suspirei. O médico deve ter percebido que minha preocupação era genuína, embora incompreensível em seu julgamento imediato e continuou: “O senhor já deve ter sabido das circunstâncias do… acidente! Eu vi tudo. Ele foi atropelado, ou antes, agredido propositadamente, por dois indivíduos numa moto. Eu vinha logo atrás. O seu amigo foi jogado pra frente e depois bateu a cabeça contra um poste. Foram dois traumas simultâneos. Houve um deslocamento abrupto na altura onde fica a nossa coluna cervical. Chamamos isto de comoção cerebral. O cérebro dentro da caixa do crânio se movimenta pela inércia pra frente e pra trás em direções opostas às do arcabouço ósseo e há um… desligamento, geralmente temporário… estamos agora num momento de expectativa. Se não houve lesões teremos uma resposta em breve. Eu diria que estamos com muitas esperanças! Seria uma lástima…”

“Compreendo o que o doutor quer dizer com seria uma lástima…”

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“Não entenda mal meu posicionamento, Sr Michel, coloque-se no meu lugar. Como o senhor reagiria frente ao fato de ter em suas mãos um alienígena?”

“Desculpe-me doutor. Sei que o senhor também não pode compreender as razões pelas quais eu possa ter respeito e amizade por esse… alien. Então estamos numa situação de empate. Conceitualmente um pode compreender o outro, mas cada um de nós defenderá suas razões individualmente válidas e opostas.”

O Dr. Douglas pensou por algum tempo e depois disse: “Eu prometo que vamos respeitar a individualidade e a integridade do… de Pierre! Está bem para o senhor?”

“O senhor não pode prometer isso e sabe que estou dizendo a verdade… não haveria um outro modo? Mantendo sigilo… o senhor pode continuar em contato com… sua descoberta, e aprender tudo que tiver vontade. O que lhe peço é que Pierre não seja privado da liberdade… se o meu amigo cair nas mãos do governo vão transformá-lo numa cobaia, num animal que sofrerá o inferno em vida… e nem o senhor poderá ter acesso a ele.”

“Sr Michel, só no setor de radiologia uma meia dúzia de pessoas já sabe do fato, e… o governo já sabe também.”

Afundei na cadeira e percebi que o melhor para o meu amigo seria permanecer desacordado, talvez em coma, numa vida vegetativa permanente… ou morrer.

(Continua aqui!)

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