(28)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 73 a 76 de 101)

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073

“Michel!” Disse Pierre tentando uma aproximação.

“Fale monstro alienígena estuprador de mulheres.”

“Eu não concordo com esses métodos, Michel, mas numa espécie tão diversificada como a nossa é claro que houve diretrizes seguidas por alguns grupos que nem sempre comungaram dos mesmos princípios éticos.”

“Acredito que devam existir entre vocês aqueles que se sentam na mesma mesa dos Visxuns para saborearem uma boa e tenra carne humana…”

“Nããão!” Quase gritou Pierre. “Você está sendo muito injusto comigo, principalmente quando sabe, como indivíduo, que não pode representar a própria espécie. E não desconhece que existem todos os tipos de aberrações e maldades entre os humanos. Se aquilo aconteceu, agora já não acontece mais porque nós dispomos de um Conselho de Ética eficaz. Mas não é possível voltar atrás e mudar as ações dos indivíduos que julgaram a espécie de vocês como inferior e passível de ser submetida a experimentos científicos. Como vocês fazem com os primatas inferiores. E o argumento que permaneceu como Ressalva de Defesa no Conselho é de que só o tempo poderá dizer se esses experimentos foram nocivos para a sua espécie. Portanto, eles estão sob observação. Veja o caso dos pipilis! se fossem mantidos presos no interior das naves sem oportunidade de acasalar com os társios a realidade hoje seria outra, o processo evolutivo outro, os humanos seriam outros, ou talvez não existissem.”

“OK! Pierre.” Enfim suspirei. “Mas você concorda que nossa vulnerabilidade aos caprichos de outras espécies nos deixa uma sensação de impotência difícil de engolir?”

“É claro, amigo Michel. Compreendo perfeitamente. Mas quem sabe esse seja realmente o caminho?”

“Que caminho?” Quis saber.

“Sei lá! Ontem uma cuspida indiferente de um ancestral comum, depois um macaquinho foge do dono e reacende uma possibilidade evolutiva, agora uma abdução cria uma ponte entre duas espécies, e amanhã o seu neto dá um salto evolutivo para fora da matéria…”

“E esse é o fim do caminho?” Indaguei.

“Há quem diga, há um milhão de anos, que é o único!”

074

Um dia, na gráfica, Anibal me deu um envelope. Eu o abri rapidamente e me surpreendi com o que vi lá dentro. “Por que isto, Anibal? Você acha que podemos vir a precisar disto?”

“Estou só entregando uma encomenda feita por Pierre. Não me envolva nisso.” E fazendo uma continência foi cuidar de seus afazeres. Eu guardei o envelope e resolvi não contar nada pra Sofia.

Com exceção desse pequeno mistério o verão de 2004 foi tranqüilo. O nosso pequeno alemão caçador de aliens aparentava ter se desinteressado pelo assunto. Pierre ganhou maior mobilidade e foi apresentado a outras pessoas. Ele ia às compras comigo ou com Sofia. Ele visitou o meu local de trabalho e se surpreendeu com o primitivismo do funcionamento de uma gráfica. Teceu comentários extremamente críticos sobre o uso que nós fazíamos do papel, das árvores, da natureza, e enfim de nosso futuro como espécie no planeta. Visitamos vários pontos “turísticos” que ele necessitava registrar para seus estudos de antropologia. Assim estivemos em hospitais, plantações de cenouras, igrejas, mercados-públicos, aeroportos, rodoviárias, universidades e cemitérios. O itinerário contou inclusive com num show de striptease, visitas a abrigos de idosos e a moradores de ruas que vivem sob pontes e viadutos, e assistimos a várias apresentações da orquestra sinfônica.

Para Pierre não fazia diferença entre uma missa, um doente em estado terminal ou uma striper nua. Tudo era avaliado com um academicismo atento e analítico. “Impressionante!” Era a sua expressão preferida após cada evento. Ao fim do Bolero de Maurice Ravel ele disse: “Realmente impressionante!”

075

Era um dia normal e eu estava no trabalho. Sofia, após o banho, fora ao closet anexo ao quarto. Caía uma morna chuva de verão. Pela pequena janela do closet ela observou que Adolf confabulava na calçada com dois jovens em uma moto. Sofia ouviu Pierre dizer do interior da casa: “Sofia! Eu vou até a frente da casa para sentir a chuva!” Era um simples aviso para justificar o que ia fazer. Havia um acordo com Pierre de que qualquer mudança de rumo deveria ser comunicado. E sentir a chuva não era exatamente uma mudança. Pierre já fizera aquilo inúmeras vezes. Mas Sofia achou prudente dizer: “Vá! Mas tome cuidado!” Depois, recapitulando, ela própria achou estranho ter dito aquilo. Parecia que um sexto sentido estava lhe antecipando algo.

Pela janela ela observou Pierre caminhar calmamente pelo gramado da frente da casa e ir até a calçada para ver o movimento e sentir a chuva no rosto. Percebeu que Adolf entrou em casa e os jovens da moto foram embora para a direita. Sofia havia vestido um roupão e voltou a olhar pela janela. Foi quando viu a moto reaparecer, vinda da esquerda, e concluiu que os motoqueiros haviam feito a volta na quadra. Pierre estava na calçada, próximo ao poste, de costas para a direção de onde vinha a moto, que subiu na calçada e se aproximou velozmente de Pierre pelas costas. O motoqueiro que estava na garupa ergueu o pé direito e quando passou por Pierre o atingiu com violência no meio das costas com o pé erguido. Pierre, pego de surpresa e desequilibrado, foi jogado contra o poste e bateu com força a cabeça contra a estrutura de concreto. Como um boneco de pano se chocou contra o poste e caiu no chão.

Sofia soltou um grito. Apertou o roupão contra o corpo. Pegou o celular e saiu correndo descalça, tentando discar para mim enquanto corria para o lugar em que Pierre caíra sem sentidos.

076

Sofia chegou até a calçada, mas Pierre não estava mais ali.

(Continua aqui!)

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8 Comentários em “(28)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 73 a 76 de 101)”

  1. Li Says:

    A maldade se encontra em todo lugar,em santos e profanos.

    Mas em crianças ela me deixa apavorada.

    • romacof Says:

      Um colega que trabalha na Fundação Osvaldo Cruz no Rio, cuja rua tem o apelido de Faixa de Gaza, me diz que, quando se começa a ter medo das crianças que se aproximam, há algo de muito podre neste lugar.

      • Franci23 Says:

        Desculpem pela minha falta de esperança mas hoje em dia as crianças andão muito mais perigosas do que os adultos, causa disso é a falta de infância pois não se ve mais crianças brincando como antigamente, lógico que sempre que alguma criança decidiu ir pelo lado negro da força elas sempre foram muito mais malignas que algum adulto revoltado.

        • romacof Says:

          Conheço pessoas que preferem ter um cachorro a um filho; e argumentam que crianças crescem e se transformam em seres humanos enquanto cachorros continuam cachorros. É uma forma de não se envolver e não se comprometer. Afinal, ter como responsabilidade a tentativa de moldar o futuro de um ser humano é algo apavorante sob muitos aspectos. Continuo tendo esperança nos pequenos, na educação deles, e naquilo que puderem criar a partir do zero. Tenho quatro filhos e fico feliz em dizer que em vários aspectos eles são melhores do que eu. Isto me realiza como pai e professor. A verdade é que se dependêssemos unicamente dos adultos estaríamos todos fodidos e mal pagos.

  2. camargo Says:

    VOLTEI!!!!!!
    acabou a langueira cultural.

    to seguindo a história…

    abraços

    • romacof Says:

      Seja bem vindo, Dom Mauro. Também estou passando pelo período de “langueira”. O Cágado fica semi-salvo pelos assuntos pré-prontos como a história de Pierre. A minha esposa me diz que o vácuo é causado pelo recesso parlamentar. Sendo verdade que a tônica do blog é a crítica à falta de vergonha e ao deboche descarado dos nossos políticos e do sistema que os perpetua – como se toda atividade produtiva do país dependesse desses polutos senhores – tudo indica que este blog morre com a minha morte, pois não acredito numa mudança na consciência deles. Mas isto seria um pensamento extremamente “esperançocida”! Prefiro dizer que a pasmaceira é “côsa-de-verão”! Saudações.

      • camargo Says:

        veja que “poluto” é uma palavra que dá a impressão que degenera tão fácil gramaticamente…

        • romacof Says:

          Daí chegamos à polução! Embora a deles, em nós, não seja tão espontânea – no sentido de praticamente sem querer – ou aí se exterioriza uma interpretação de corrupto, como o que rompe o co de alguém; no caso o nosso!


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