(23)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 58 a 61 de 101)

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Num momento adequadamente programado Pierre abriu o presente trazido pelos meus tios.“Olhem! Tia Iolanda me trouxe um álbum de fotografias.” Eram ao todo 16 fotos, algumas mais antigas, em preto e branco, e as outras coloridas. Nelas aparecia uma Marta jovem com as vestes de 40 anos atrás, outra Marta com o seu francês andando numa calçada do Rio de Janeiro, ainda ela e o francês, já então, presumivelmente, Sr e Sra. Le Vêe, pais de Pierre, passeando nos Champs-Élysée, o casal sentado numa praça tendo a Torre Eiffel ao fundo de uma perspectiva que parecia que a torre se projetava da cabeça do Sr Le Vêe, Marta com uma criança ao colo, depois mais duas fotos da criança correndo na frente de uma casa, e assim por diante. E, incrivelmente, o filho de Marta e do francês que não sabíamos o nome, aos 10 anos, sentado com os pais, ostentava uma brancura digna de uma alienígena. O álbum de fotografias e Pierre quando criança monopolizou as atenções de todos, especialmente dos Schwarzeschwanz.

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Quase às dez da noite o Professor Tito, conforme o script, disse que já era hora dos velhos recolherem os seus ossos. Melissa argumentou que o pai andara acamado e só estava de pé até tão tarde porque não faltaria ao aniversário de Pierre por nada desse mundo.

Esius concordou com Tito e acrescentou: “E amanhã é dia de salvar o país…”

Houve despedidas emocionadas e agradecimentos. Esius deu mais um abraço de urso em Pierre e disse em tom de coronel que entraria em contato em breve conforme os trabalhos evoluíam, enquanto piscava o olho de forma cúmplice. Pierre era só sorrisos. Meus tios me abraçaram e beijaram e depois fizeram o mesmo com Sofia e com Pierre e disseram que iam aproveitar a debandada geral porque as crianças deviam se deitar cedo. Isto desencadeou o mesmo desejo nos Schwarzeschwanz.

Entreguei a caneta a Esius e a arma espacial para Adolf, que saiu resmungando algo do tipo “… o mundo está louco!”. Pierre agradeceu os presentes e disse que esperava vê-los no ano seguinte. Sofia revirou os olhos. Aníbal caiu sentado numa poltrona. Eu fechei a porta e estourei um balão.

Sofia e Aníbal tiveram um sobressalto e disseram: “Merda!”

Pierre estourou outro balão e disse: “Isto é incrível!” E estourou outro. E outro. E outro. E outro.

Quando Pierre percebeu que estourar balões não era do agrado dos presentes disse pra mim: “Muito simpático sugerir que tia Iolanda me desse de presente aquele álbum de fotografia… Agora, praticamente, eu tenho os registros do meu passado na Terra… do tempo em que eu era criança! Vamos ver os outros presentes… Essas duas garrafas devem ser para você, Michel!”

“É claro! Fui eu que as comprei.”

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“Este aqui parece ser um livro.” Disse Aníbal.

“Foi Ida quem trouxe.” Lembrou Sofia. “Abra, Pierre.”

Pierre rasgou o papel e trouxe à luz um exemplar de Mein Kampf, demonstrando a capacidade dos nossos vizinhos de serem sutis. “Pelo menos Pierre é só um francês de faz de conta e não um judeu.” Tentou ser diplomática, Sofia.

Eu e Aníbal torcemos o nariz, mas Pierre o depositou com carinho junto ao álbum de fotos e exclamou: “Meus primeiros presentes!”

Aníbal, aproveitando o momento, tirou do bolso do casaco um grosso envelope pardo e o entregou a Pierre. “Espero que você goste do meu presente!”

Pierre abriu o envelope e tirou de lá uma série de documentos. Uma carteira de identidade emitida pelo governo francês, um passaporte com visto de permanência no Brasil para fins de estudos, uma identificação profissional como membro da Société Française de Anthropologie e uma carteira de motorista. O aniversariante ficou momentaneamente sem fala e depois se dirigiu timidamente para Aníbal. “Mas como? Só posso agradecer, mas como você conseguiu isto?”

“A resposta para essa pergunta eu sei.” Intrometeu-se Sofia. ”Você não vai querer saber.”

Mas Pierre já sabia daquilo e de muito mais.

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Aníbal se despediu de nossa família. Disse que havia tido um grande prazer em conhecer Pierre, e que aquela fora a dívida mais gratificante que ele havia pago.

Fim de festa. Voltamos a ficar só nós três. Nós e os cacos da festa. Pierre disse: “Vocês podem descansar. Deixem a casa comigo que num instante coloco tudo no lugar.”

“Não vou recusar essa oferta. Feliz aniversário, Pierre.” Sofia deu um beijo na bochecha dele e foi direto pra cama.

“Você tem certeza que não quer uma ajuda?” Ainda perguntei, mas Pierre foi categórico.

“Pode ir, Michel. Você sabe que tudo isso, o aniversário, a encenação, a interação com as outras pessoas, são fatos que necessitam ser assimilados e registrados. Vou me divertir fazendo a limpeza. Esteja certo.”

O abracei e me despedi. “Então uma boa noite, amigo. E que esse seja um registro prazeroso no computador que você tem entre as orelhas.”

Nas duas horas seguintes foi possível perceber os movimentos de Pierre circulando pela casa enquanto acomodava as coisas nos seus devidos lugares. Às vezes estourava um balão e nós ouvíamos um “ó, ó, ó”.

Na quinta vez eu gritei do quarto: “O próximo balão que estourar vai doer em você!” E ele ficou quieto.

(Continua aqui!)

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One Comment em “(23)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 58 a 61 de 101)”

  1. Li Says:

    Adoro estourar balões……rsrsrsrsrs.


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