(22)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 55 a 57 de 101)

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055

Eram 20 e 30 quando Sofia trouxe o bolo e disse: “Vamos todos cantar parabéns para Pierre? E, por favor, coloquem seus chapéus. Quem não estiver com o chapéu pontudo não ganhará bolo!” A cerveja havia lhe feito muito bem.

Foram cantados os parabéns. Pierre assoprou as velinhas. Sofia cortou o bolo e serviu. Eu tirei fotos. Hugo e Ida bateram palmas freneticamente junto com Tito, Esius, meus tios, Aníbal e o resto da trupe. E Adolf comeu bolo.

Aníbal contou para Hugo como Pierre salvou sua vida derrubando com um pedaço de cano quatro assaltantes armados com revólveres em 1996 na pequena cidade de Mérens-les-Vals, quase em Andorra, nos Pirineus franceses. “Eram dois.” Corrigiu Pierre.

“Eram quatro!” Insistiu Aníbal.

“Eram dois, meu amigo, você é que estava vendo tudo dobrado.” Brincou Pierre.

“Eram dois.” Troou Esius. “Foi quando conheci vocês. Aníbal estava muito bêbado, e só está aqui hoje graças a Pierre.”

“Mesmo assim foi um ato de bravura.” Tomou partido o Dr. Hugo sob os olhares atentos de Adolf entre os joelhos dos adultos.

“De loucura.” Retrucou Pierre. “E tive sorte de num único movimento bater na mão de um e no joelho do outro.”

“Ele parecia um ninja.” Exagerou Aníbal.

“Bem! Quando eu cheguei vi dois caras fugindo estrada afora e então encontrei você totalmente de porre e o herói aí, que só se deu bem por que também havia bebido e estava cheio de coragem.” Depôs Esius.

“Será que eu tinha bebido tanto assim?” Perguntou Aníbal.

“Eu não me lembro de ter bebido!” Disse Pierre. “Será que eu bebi?”

“O que a gente faz quando se é jovem!” Disse Hugo sonhadoramente.

“A gente conquista o mundo! Doutor.” Arrematou o experiente Coronel Esius. 

056

“Iolanda!” Disse Humberto para Sofia. “Como você está velha!”

“Eu não sou Iolanda, lembra?” Ajudou Sofia. “Eu sou a Sofia, casada com Michel, seu sobrinho. Aquele ali que está conversando com o professor de Pierre.”

“Ah!” Disse Humberto e veio falar comigo. “Michel, por que você casou com aquela velha que diz que não é a Iolanda.”

“Aquela não é a Iolanda, tio, é Sofia, minha esposa.” E chamei. “Tia Iolanda! Preciso que a senhora ajude o tio Humberto.”

Iolanda se aproximou, mas Humberto foi em direção a Pierre que conversava com os outros convidados. “Você não é daqui!” Sentenciou tio Humberto.

“Não, não sou!” Concordou Pierre.

“Eu sei de onde você é!” Afirmou Humberto.

“Que bom!” Disse Pierre.

“É de muito longe! Mas muito longe mesmo!” Continuou o tio Humberto naquele tom caduco que repentinamente ganha rasgos de lucidez e resolve revelar o que só ele sabe.

Eu disse baixinho no ouvido da Tia Iolanda: “Tia, ele está desorientado e importunando essas pessoas que são importantes para Pierre, por favor, me ajude.”

Iolanda se colocou ao lado de Humberto e confirmou: “É claro que ele vem de muito longe, querido! Você tem idéia de onde fica a França?”

“O que eu quero dizer…”

“Você lembra que a Marta, a mãe de Pierre casou com aquele francês e foi morar em Paris?”

“Sim, eu sei, mas o…”

“E que eles mandavam fotos do Pierre e nós achávamos que ele era anêmico, mas ele era branquinho desde pequeno… lembra?”

“É!… da Marta?”

“Isso, a minha prima em segundo grau. Então Pierre é primo do Michel em… quarto grau! Só que eles se conheceram faz pouco.”

“A Marta…!!” Tio Humberto abriu os olhos enfim achando um fio na meada que interessava a todos nós. “A Marta não era aquela que um dia…”

“Querido, diga ui!” Disse tia Iolanda sorridente, mas de uma forma imperativa.

Humberto arregalou bem os olhos e disse: “Ui.” E foi buscar um salgadinho. 

057

Enquanto a conversa foi quicando de um assunto pra outro e estava agora centrada nas línguas que se usa em outros países, para poder se comunicar com outras pessoas, que não falam a nossa, ao mesmo tempo que nós não falamos a deles, Sofia me perguntou.

“Marta é real?”

“É.”

“E o ui? O que foi aquilo?”

“Ah! É um código!”

“Seja mais específico, por favor, que a noite não foi fácil e ainda não acabou.”

Expliquei que tia Iolanda e tio Humberto haviam criado aquele código como uma simplificação de um processo que com os anos de convívio havia se demonstrado ser cansativo e doloroso. Quando Humberto dava um fora Iolanda pisava com o salto do sapato numa unha do pé de Humberto que era defeituosa e lhe doía cronicamente. Dessa forma a pisada conseguia chamar a atenção dele para o fato de que havia cometido uma gafe. Com o tempo o código evoluíra para aquela chamada: “Querido, diga ui.” O reflexo condicionado acionava nele o mecanismo que levava à lembrança da dor da pisada na unha. Era uma manobra preventiva. Ele dizia “ui”, mas não sentia a dor, e como era mais sintético, e rápido, evitava a gafe e suas conseqüências. “Entendeu?” Perguntei para Sofia.

“Perfeitamente.” Ela disse. E depois completou: “Querido, diga ui!”

“Como?” Perguntei e levei um forte beliscão no braço. “Ai! Isto dói Sofia.”

“Também serve!” 

(Continua aqui!)

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3 Comentários em “(22)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 55 a 57 de 101)”

  1. Li Says:

    Acabei de add o fantástico código dos “tios” a minha listinha de coisas “importantes demais” para serem esquecidas,rs.

  2. Li Says:

    rsrsrsrsrsrsrsrs


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