(21)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 50 a 54 de 101)

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050

“Mas claro!” Trovejou o Coronel Esius. “Olhe bem pra esse cara! Ele poderia se infiltrar na nave mãe dos marcianos sem ser notado.” E voltou a rir. “Mas eu adoro ele. É muito bom vê-lo em nossa terra meu bom Pierre.”

“Esius, você me deixa constrangido com esses comentários.” Retrucou Pierre. “Eu nunca usei a sua cor para fazer piadas!”

“Bem! Pelo menos eu tenho uma!” E voltou a rir, acompanhado por um sorriso de Hugo e Ida. “Mas o fato, minha gente, é que esse jovem já prestou grandes serviços a esse país… ele e o seu amigo de queixo vermelho. Como vai Aníbal, meu velho?” E apertou a mão de Aníbal que ainda ria do espaço que o Coronel ocupara desde que chegara à casa. “E o senhor… é?…” O negro gigante se aproximou do médico que instintivamente se encolheu contra o ombro da mulher.

“Dr. Hugo é nosso vizinho…” interveio Pierre. “… sua esposa chama-se Ida e esse é o pequeno Adolf.”

Esius beijou a mão de Ida e transformou as bochechas dela em dois tomates. Depois apertou a mão do Dr. Hugo como quem quer esmagar os dedos de um adversário. “Advogado?”

“Não, psiquiatra!” Gemeu Dr. Hugo

“Ah! Médico de birutas!

“Quase isso!”

Esius largou a mão do Dr. Hugo que a abriu e a esfregou contra a própria barriga em busca da circulação perdida. Esius já colocara o braço esquerdo sobre os ombros do psiquiatra enquanto segredava-lhe muito próximo do ouvido: “Admiro a coragem de vocês, médicos de doidinhos, sabe como é que é, o doidinho está ali, consultando, fazendo o seu blá-blá-blá, o médico está atento à conversa, desprotegido, de repente… NHAC!… o doidinho tem um surto e ataca o médico!… precisa ter coragem! Eu sei, eu sei como é que é, doutor.” O Dr. Hugo, sentindo o peso do braço de um urso atrás de seu pescoço, escutava com atenção o comentário daquele homem enorme que sussurrava e descascava o seu medo secreto como o troar da tempestade que se aproxima, e quando parecia que uma revelação definitiva colocaria ordem em todo caos o Coronel gritou para Pierre… “Não acredito que nesta festa não se bebe nada.” Deixando o Dr. Hugo no meio da sala, só e nu como nascera.

051

Pierre foi buscar cerveja e refrigerantes. Aníbal cercou o Dr. Hugo com um papo em alemão sobre indivíduos que quando chegam num ambiente tiram o ar que os outros estavam respirando, mas que no fundo são boas pessoas. Ida depositou acanhadamente uma caixa que parecia ser um livro junto a uma garrafa de vinho que o Coronel deixara na mesa de centro. Adolf sentou na poltrona mais próxima e ligou os seus radares anti-alienígenas.

“Esta é Sofia.” Apresentei minha esposa ao Coronel que gentilmente beijou sua mão. E emendei: “Quando as fotos forem tiradas o seu celular pode ser acionado para a parabenização à distância.”

“Positivo.” Disse o Coronel Esius já recebendo a bebida reclamada das mãos do aniversariante.

Eram 19 e 20. E a campainha voltou a tocar.

“Vou trazer os doces e salgadinhos…” Suspirou Sofia. ”… assim que a tontura passar.”

052

Abri a porta para que a nova leva de convidados entrasse. Era um seleto grupo de octogenários: Tia Iolanda e tio Humberto. E mais um senhor alto exibindo uma vasta cabeleira branca e uma das peles mais transparentes que vi em minha vida, no papel do Professor Tito, uma senhora da mesma idade empoleirada num de seus braços, certamente sua esposa e outra senhora, mais jovem, que deveria ser a filha do casal, possivelmente Ana.

Tia Iolanda me deu um abraço apertado e beijos de tia de verdade. “Michel! Essas crianças não mudam nada, só nós é que mudamos, não é Humberto?” Tio Humberto também me abraçou e sorriu, mas seu sorriso já não lembrava muito de Michel nenhum.

“Entrem, entrem! Venham conhecer os outros convidados.” Apertei a mão do outro idoso. “Professor Tito, presumo!”

“Exatamente! E você deve ser Michel. Esta é Ana, minha esposa e Melissa, nossa filha.” Eu havia trocado. As duas cordialmente me cumprimentaram e foram se juntar aos outros. Tito tinha também trazido uma garrafa de vinho e a colocou sobre a mesinha junto ao livro e à outra garrafa. Tia Iolanda havia depositado um presente já encomendado: um velho álbum de fotografias.

Adolf entre as minhas pernas e a do Professor Tito perguntou: “Não vai ver se ele está armado?”

Tito achou graça e afagou a cabeça de Adolf enquanto dizia. “Eu uso uma espada, meu rapaz, mas hoje vim sem ela porque não é educado chegar armado a uma festa.”

“Adolf!” Ralhei. “Você podia respeitar as pessoas de mais idade, pelo menos hoje.”

Ele fungou uma meia careta e voltou para o seu posto de observação.

053

Mon petit, comment allez-vous?” Disse o velho professor, com lágrimas nos olhos e com os braços esticados em direção a Pierre.

Pierre que conversava com Esius naquele instante ficou mudo e com a boca entreaberta. Todos na sala fizeram um silêncio em suspense pelo encontro do velho mestre e do aluno que há anos não se viam. Pierre franziu o queixo como quem se segura para não chorar. Ao mesmo tempo em que eu fiquei impressionado com a performance do alienígena quase entrei em pânico pela possibilidade de que ele vertesse suas lágrimas azuis. Pierre foi até o professor e os dois se abraçaram demoradamente. Iolanda e Ida choraram. Melissa procurou um lencinho em uma bolsa minúscula. Ana se mostrou guerreira e permaneceu impávida ao lado do esposo para acudi-lo se necessário naquele momento de profunda emoção. Aníbal olhava para a ponta do sapato. Hugo estava congelado ao seu lado. Adolf imóvel filmava a cena. O Coronel coçou o canto do olho e se retirou dizendo: “Isto amolece o mais forte soldado.” Sofia entrou com duas bandejas. Pierre e Tito ainda estavam entrelaçados naquele emocionante abraço. E eu tirei uma foto.

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Pierre apresentou Tito e sua família aos outros presentes e foi apresentado a meus tios. Foram comidas as coisinhas que costumam ser comidas nos aniversários. Houve cerveja para os homens e refrigerantes para as mulheres e Adolf. Pierre tomou a água colorida que ele mesmo preparara e comeu doces de mentira que Sofia trazia especialmente para ele.

Num determinado momento Pierre pediu que Sofia lhe ajudasse com algo muito importante que ele quase havia esquecido no quarto. Quando voltaram fizeram todos pagarem o mico de botarem na cabeça, preso sob o queixo por um elástico, um chapéu colorido e pontudo com um pompom brilhante na extremidade. A seguir houve uma rotativa sessão de fotos com todos sorridentes e emocionados, menos Adolf. O telefone do Coronel Esius tocou e ele prontamente atendeu enquanto se desculpava: “Perdoem-me…!”

 Olhou a origem da chamada e exclamou com um largo sorriso. “Ah! Já sei que não é para mim… como vai senhor Ministro?… claro!… por que o senhor não fala diretamente com ele?… isso! Só um momento… Pierre! É para você.” E passou o celular para Pierre. Houve um novo silêncio, agora com cochichos respeitosos espalhados pela sala. Sofia tomou um copo de cerveja.

“Alô!… ora… como está o senhor?… sim… também… é muita gentileza… obrigado… sei, sei… sei que se fosse possível o senhor viria, mas… ó, ó, ó… entendi… quando precisar… claro… lhe mandei por e-mail na semana passada… isso… se eles precisarem de algo sabem como me encontrar!… um abraço… igualmente… lembranças pra Dilma. Até!” E desligou. Todos voltaram a respirar. E eu sem uma filmadora para registrar aquele momento único. Sou muito, mas muito primitivo mesmo!

(Continua aqui!)

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4 Comentários em “(21)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 50 a 54 de 101)”

  1. Li Says:

    Minha novela….rs.

    Posso fazer um pedido… se possível?

    Uma aquarela do Pierre.

    Imagino como seja ele,mas gostaria de ter certeza,rs.


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