(17)Pierre, meu alienígena de estimação (parte 40 de 101)

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040

O filho pentelho do vizinho nunca deixou inteiramente de espionar os movimentos de Pierre. A propósito, o visinho era um psiquiatra alemão que viera há 15 anos para nossa cidade. Seu nome era Hugo Schwarzeschwanz. A sua esposa se chamava Ida Schwarzeschwanz; uma dona de casa insípida e transparente. O gordinho pentelho era Adolf Schwarzeschwanz.

Eu e Pierre conversávamos na sala quando fomos interrompidos pela campainha da porta, tocada de uma forma impertinente. Sofia olhou pelo olho mágico e disse: “É o Hugo! Pierre, bote os óculos!”

Adolf invadiu a casa. Logo apareceram Hugo e Ida com ares de “Surpreeesa!” A esposa do psiquiatra ostentava um prato com um bolo-presente-entre-vizinhos, o primeiro em 15 anos de vizinhança.

Adolf Schwarzeschwanz estava armado com o Super Canhão de Raios Laser do Capitão Guardião do Espaço Infinito, o Eterno Defensor das Fronteiras Galácticas. De forma sorrateira se aproximou de Pierre e descarregou a arma no peito de nosso indefeso hóspede aos gritos de “Morra! Alien do inferno!”

Pierre imediatamente caiu morto no canto do sofá em que estava sentado. Os braços se contorceram convulsos e depois permaneceram inertes ao lado do corpo, as pernas se esticaram de forma assimétrica, os óculos saltaram sobre o peito, as pálpebras caíram, a boca ficou ligeiramente aberta, e o peito deixou de fazer movimentos respiratórios. Pierre ficou totalmente imóvel numa pantomima tão realística que só os que o conheciam muito bem sabiam que ele estava fingindo. E como tudo que ele experimentava pela primeira vez aquilo poderia durar horas.

Mãe, pai, acho que eu matei o alien!” Dizia o pequeno Adolf hesitante entre o assustado e o radiante.

Como os Schwarzeschwanz haviam ficado mudos resolvi quebrar o gelo dizendo: “Não liguem pro Pierre! Ele não perde uma oportunidade de fazer uma graça.”

Ida sorriu amarelo e colocou o bolo na mesa de centro. Sofia entre sorrisos arrastou Ida e foram buscar pratinhos e talheres. Adolf ficou observando a uma distância segura o corpo de Pierre.

O Dr. Hugo resolveu comentar as atitudes do alienígena morto. “Acho que agora ele já poderia parar com esse teatro.”

Pierre é um palhaço! É capaz de ficar assim até amanhã se a posição não lhe causar dores nas costas.”

Mas essa atitude pode traumatizar o meu menino!”

Não gosto de perder a oportunidade quando me deixam a bola quicando na frente do gol. “Dr. Hugo! perdoe-me uma eventual indelicadeza, mas a morte de Pierre pode se transformar na cura de Adolf, e não traumatizá-lo!”

Como assim?” O médico parecia genuinamente surpreso.

Um dia o seu menino pode crescer e entrar atirando com uma arma de verdade na casa de alguém, matando a pessoa que ele julga ser um alienígena. O choque pela morte de Pierre pode acordá-lo dessa fantasia e prevenir mortes verdadeiras no futuro.”

Hugo e Adolf não tiraram os olhos de Pierre. Um pouco de baba se formara no canto esquerdo de sua boca entreaberta. Não havia movimentos de espécie alguma. Sofia e Ida voltaram tagarelando receitas. O bolo foi partido, distribuído, saboreado, comentado, e elogiado. A visita deve ter durado menos de 30 minutos. Como se o cadáver de Pierre estivesse exalando mau cheiro todos nos levantamos quase no mesmo instante. E vieram as amenidades e os complementos finais para as visitas desse tipo.

Espero que tenham gostado!”

Estava uma delícia.”

Pena que Pierre não o tenha saboreado!”

Ele come muito pouco açúcar, é diabético, sabe como é que é!”

Oh! Coitado, ainda isso!”

Qualquer dia nós vamos retribuir a visita e levaremos um bolo que eu faço! Vocês vão gostar!”

Ah! Eu e Hugo adoramos doces. De que é feito?”

É um bolo de alemães!” Eu disse. Sofia me fuzilou com um olhar que eu conhecia bem.

Ah, sim! Mas de que é feito?

… de alemães!” Levei uma cotovelada de Sofia.

Bem! Então até outro dia!… diga que deixamos um abraço para Pierre.”

Até!” “Foi um prazer” “Estava muito saboroso!” “Apareçam!” E fomos todos, menos o morto e o matador, até a porta para o fechamento do evento.

Às nossas costas o pequeno Adolf se aproximou corajosamente de Pierre e levantou sua pálpebra superior esquerda.

Pierre arregalou os olhos e disse: “BU!”

O menino correu para os pais aos gritos: “Mãe, pai, o alien ainda está vivo!”

Eu sei, meu filho. Agora pare com isso! E o nome dele é Pierre! Ficou claro?”

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2 Comentários em “(17)Pierre, meu alienígena de estimação (parte 40 de 101)”

  1. Li Says:

    Detesto pentelhos…..rsrsrsrsrsr


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