(16)Pierre, meu alienígena de estimação (parte 39 de 101)

(Para saber como começou clique aqui!)

039

Depois daquela conversa com a Igreja na berlinda, como uma criação de homens imperfeitos, que falavam em nome de um criador perfeito e faziam, inclusive, cagadas planetárias em nome dele, surgiu uma inevitável questão. Eu estava curioso para saber a opinião de Pierre. Ele estava lendo uma revista e eu o interrompi. “Nesta questão da divindade, você sabe, um Deus todo poderoso que tudo sabe e tudo vê, e que criou tudo que existe, e que está em todos os lugares e nos observa e julga – os Vêes, e a patota dos galácticos, que já circulam por aí há tanto tempo e enfiaram o nariz em tudo – como vocês vêem essa questão?”

“Nós não nos aprofundamos na avaliação desse quesito a não ser quando entramos em contato com outras espécies em que a idéia de um ser superior é fundamentalmente relevante!”

Pierre aparentemente continuava lendo e o tom da resposta teve o nítido colorido das respostas que ele dava quando queria fugir do assunto. Mas eu estava disposto a incomodá-lo um pouco. “Não se esquive, Pierre! Mate minha curiosidade, por favor! Você está falando com um lêmure a quem foi demonstrado, desde a toca, que Deus nos ama, protege, e nos amassa com seu dedão divino no caso de nós não nos comportarmos como lêmures bem treinados.”

Pierre me olhou e disse: “Não sei se você compreende o princípio do dualismo.”

Como eu permanecesse calado Pierre continuou: “Se a entropia mede o nível de degradação da energia e a tendência à morte do universo por estagnação todos os nossos esforços evolutivos e geradores de vida são síntrópicos e opostos.”

“Ficou confuso!” Eu disse.

“Percebi.” Arrematou Pierre.

Pierre permaneceu calado olhando para o nada, mas depois continuou: “Então vou teorizar sobre algumas questões básicas, traçando um paralelo entre aquilo que você chama instinto de sobrevivência e a lógica! Está bem?”

“Manda que eu aparo!” Respondi.

“Como?” Pierre arregalou os olhos.

“Teorize.” Traduzi.

“Ah! É gíria! Entendi! Então apara aí que eu mando daqui. Primeiro vamos partir da premissa que exista um Deus superior, um poder construtivo, e que personifique um ideal de bondade e altruísmo. A crença no bem supremo se justificando como oposição ao mal supremo. Vamos então supor, para criar o contraponto dualista, que esse Deus superior seja o oposto de uma hipotética força destrutiva, má e egoísta, que exista nos confins do universo a espera que cheguemos lá para nos destruir. Posto isso, nós, seres conscientes, evolutivos e construtivos, que queremos o bem para os nossos semelhantes e nos auto-definimos como seres bons, por uma questão instintiva, devemos nos aproximar do ápice da bondade superior para um dia estarmos ombro a ombro com aquele ser que é o nosso ideal. Desta forma teremos forças para lutar contra o possível mal supremo. Então, instintivamente, devemos ser bons…”

E continuou. “Agora vamos partir de outra premissa: o Deus superior ideal de bondade não existe. Mas nós, seres evoluídos, não podemos ser destrutivos para não contrariar a lógica evolutiva. Na evolução, para manter a prole viva e permitir um futuro para os próprios genes, um dia foi experimentado o processo construtivo e o resultado obtido foi considerado bom. A prole tem mais chances de sobreviver numa comunidade que agrega princípios de bondade e altruísmo. Assim nós criamos a necessidade do bem, sintrópico, num contraponto dualista, ao mal, entrópico. A entropia não é um mal, é uma tendência à acomodação e ao repouso. É uma queda natural e irreversível por todos os meios conhecidos, assim como a morte, mas é natural que nós nos esforcemos para vencê-la. O confronto final será entre aquilo que a consciência puder produzir em seus esforços em busca do ideal sintrópico e a morte entrópica do universo. O que nos resta? Evoluir em busca de nosso hipotético ideal de bondade, pois, se ele não existe, é possível que um dia tenha a necessidade de existir. Porque o momento do confronto com o nosso destino virá. Então, logicamente, devemos ser bons…”

E arrematou: “Logo, a existência de Deus é irrelevante! Sua presença ou não entre nós não muda o nosso dever de sermos bons, altruístas, e construtivos. O que nos faz manter a luz acesa é a possibilidade de que um dia ela possa apagar!”

Depois de algum tempo eu disse: “Entendi!”

E Pierre, sem me olhar, disse enquanto voltava a folhar a revista: “Hã, hã!”

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3 Comentários em “(16)Pierre, meu alienígena de estimação (parte 39 de 101)”

  1. Li Says:

    Fiquei chocada quando descobri que nada no planeta existia para o “meu prazer”.

    Nesse dia mudei o nome de Deus.Hoje ele se chama VIDA.

    E a vida é um mistério,eu sou um mistério.
    Vi que bem e mal não existiam,que ambos podiam ser qualquer coisa.
    Nesse dia optei por acreditar na Vida e em mim mesma.

    Sou um mistério bom,belo,feliz,luminoso…..depende de mim.

  2. Li Says:

    É….estou aprendendo,rs.


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