(14)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 36 a 37 de 101)

(Para saber como começou clique aqui!)

036

“Não gostei nem um pouco de sermos considerados os bandidos em potencial da galáxia!” Disse para Pierre.

“Ah! Mas de longe não são!”

“Revelação interessante! Quem é o top dos piratas cósmicos?”

“Acredito que você queira se referir à galáxia em que estamos inseridos!”

“É. Vamos ficar pelo quintal da casa.”

“Mesmo por que o que acontece em outras galáxias não deve interessar a vocês por um longo tempo. Nessa que vocês chamam de Via Láctea só duas espécies conseguem fazer o salto para as galáxias próximas, nós e outra mais velha, os Aastas. Mas nós não nos encontramos há uns 15 mil de seus anos. Os Vêes e os Aastas já iniciaram sua evolução como espécies isoladas há mais de um bilhão de anos. Atualmente existem, nesse grupo em que vocês em breve estarão incluídos, mais 8 espécies de vida curta que viajam no espaço, mas apenas duas desenvolveram a tecnologia que permite uma viagem inter-estelar. Essas duas se equiparam embora nunca tenham se encontrado. Não são exatamente más, apenas seus padrões éticos são diferentes dos nossos. Como você pode perceber, mesmo conhecendo as nossas diferenças, um humano e um Vêe podem ter uma conversa amigável e concordam em basicamente tudo que interessa para um convívio pacífico. Já com os Tarcas e os Visxuns isto seria impossível. Eles consideram as espécies inferiores ou como escravos ou como alimento.”

“Mas você disse que entre os viajantes superiores só há gente boa!” Retruquei.

“A tecnologia necessária para pequenas viagens até as estrelas mais próximas não é um atributo exclusivo dos mais evoluídos. Haveria risco se eles desenvolvessem um transporte para fora do espaço convencional, ou seja, acima da velocidade da luz, mas isso só costuma ocorrer bem mais tarde…”

“Claro, claro! E essas coisinhas queridas moram bem longe daqui, espero.”

“Os Tarcas moram do outro lado da Via Láctea, mas os Visxuns estão a 300 anos luz daqui”

“Vizinhos!”

“É. Praticamente.”

“E nós mandando para o espaço uma alaúza radiofônica e televisiva, sem falar das monstruosas instalações que gritam sem parar: Estamos aqui!”

“É.”

“Então isto tem que parar!” Quase gritei repentinamente assustado com a possibilidade do encontro com os hipotéticos Visxus, armados de garfos e facas, babando, viajando ao encontro do nosso indefeso planeta.

Pierre sorriu com seu jeito peculiar e procurou me interar das diferenças de tempo e espaço que nos separavam dos canibais espaciais.

“Vocês não precisam se preocupar com essa possibilidade, pelo menos de imediato; os Visxus só encontrariam vocês, nesse instante, por um astronômico acaso. O rádio e a televisão só começaram a mandar mensagens entre 1916 e 1935. Faltam ainda uns 220 anos para que eles captem as transmissões de vocês. Eles levarão mais uns 10 anos para rastreá-los e se equiparem para uma viajem tão longa. Já temos 230 anos. Mesmo que os métodos deles tenham melhorado significativamente nesse período eles ainda estão longe de desenvolverem mecanismos de dobra, o que equivale dizer que estão presos ao limite da velocidade da luz. Então, na pior das hipóteses, eles só chegarão aqui em 530 anos. Além do mais de nada adiantaria suspender todas as emissões. Agora é tarde.”

“Não na pior! Na melhor das hipóteses para nós… você quis dizer!”

“Isso.”

037

“Somos então a 11º espécie a ter a pretensão de viajar pelo espaço na Via Láctea?” Perguntei a Pierre.

“Atualmente sim! Já encontramos indícios de outras espécies que conseguiram essa façanha em tempos anteriores a nós, mas desapareceram ou partiram para outras galáxias em tempos imemoráveis.”

Houve um longo silêncio. Eu fitava um programa sem graça na TV sem realmente perceber do que se tratava. Minha esposa tinha participado pouco daquela conversa e depois saíra exclamando: “Isto me dá tonturas!”. Pierre estava estático, talvez aproveitando a pausa na conversa para dormir um pouco. Todas as coisas começaram a ter pouca importância frente à dimensão daquelas notícias ditas de uma forma quase displicente por Pierre, o Vêe. Para mim soavam como a informação de um amigo que chegara do outro lado da cidade e dizia: “A coisa está fedendo lá fora. Tem uns caras armados até os dentes que estão no outro bairro e querem vir até aqui pra comer o nosso fígado. Tem gente boa também. Mas eles ficam na deles, tirando fotos, fazendo entrevistas, e não estão nem aí pro fedor.”

E as guerra, e as doenças, e a fome, e as mesquinharias ideológicas, e o racismo, e as segregações, e a maldade, e a irracionalidade, e as verdades absolutas sobre a relação do homem com o seu criador. Todas as coisas faziam um novelo doentio em minha mente. Num determinado momento refleti em voz alta: “Precisamos urgentemente começar a pensar como espécie”.

Pierre abriu um olho e exclamou: “É verdade!”.

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3 Comentários em “(14)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 36 a 37 de 101)”

  1. Li Says:

    Caro amigo,andei “afastada” por força das circunstâncias.

    Pierre,meu guru,há uma coisa pior do que ser fatiada por canibais interestelares…..a monstruosidade com que tratamos a nós mesmos.

    • romacof Says:

      Um dia Sofia perguntou a Pierre se havia fundamento na minha preocupação com os tais Visxus. Depois de pensar um pouco ele respondeu: “Agora que conheço vocês um pouco melhor daqui a quinhentos e poucos anos eu estaria mais preocupado com a segurança dos Visxus.”

  2. Li Says:

    rsrsrsrsrs…sempre desconfiei disso.


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