(13)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 34 a 35 de 101)

(Para saber como começou clique aqui!)

034

Num dos passeios, que ocasionalmente fazíamos, ficamos algum tempo estacionados perto de uma escola infantil naquela hora em que as mães aflitas buscam os filhos e querem voltar para casa às pressas porque o almoço ainda não está pronto. As crianças, por outro lado, ainda têm uma última palavra com algum coleguinha, ou um fim de uma brincadeira que nunca termina, ou ouvir uma recomendação de uma professora preocupada, ou dar um soco em outra criança por uma provocação iniciada na hora do recreio.

“O que realmente é ensinado para elas nesses estabelecimentos?” Quis saber Pierre.

Respondi: “O básico. Ler, escrever, calcular, conhecer alguns fatos primários da história e das ciências, localizar-se no espaço e se relacionar umas com as outras.”

“E quanto tempo leva esse processo?” Continuou Pierre.

“Uns três anos.”

Pierre se voltou para mim com sua expressão de espanto.

“Mas é muito tempo para quem vive tão pouco!”

“É por que nós somos muito primitivos.” Eu o imitei.

Ele pareceu não perceber e continuou: “É. Eu sei. Mas mesmo isso não é uma justificativa… Quanto tempo vocês levam para formar um especialista em uma área qualquer?”

“Uns dezoito anos… acredito.”

Pierre ficou mudo por um instante e depois exclamou: “Inacreditável!” E depois expôs seu raciocínio. “Como o processo se inicia aos 7 anos, um ser humano completa seus estudos aos 25, e fica pronto para trabalhar nas pesquisas de ponta aos 30, digamos! Depois ele deixa de trabalhar em média aos 70 ou 75 anos, dependendo de sua saúde. E nesses 45 anos ele dorme 15 anos. Ficam 30. Por dia ele gasta mais 8 horas se vestindo e se despindo, comendo e defecando, bebendo e urinando, descansando, se deslocando pra lá e pra cá, assistindo TV e jogando conversa fora… são mais 15 anos. Sobram 15. Ele não trabalha sábados a tarde e domingos, e em alguns dias em que vocês comemoram coisas relativas à sua cultura, e ainda têm aquilo que chamam de férias de 30 dias porque estão cansados, e esses dias somam… arredondando, em média, 110 dias por ano, ou 4,5 anos dos 15 que sobraram. Então o homem é capaz de produzir para a sua civilização durante dez anos e meio durante toda sua vida…! Inacreditável!”

“Tanto desperdício?” Arrisquei.

“Nããão! O paradoxo de ter chegado até aqui com tanta ineficiência!”

035

“Pierre!” Perguntei enquanto voltávamos para casa. “Pelo que entendi, embora nossos métodos sejam altamente pouco producentes nós estamos evoluindo de uma forma mais rápida do que vocês?”

Ele me olhou surpreso e respondeu: “Não foi isso que eu disse! Nem hoje e nem no outro dia.”

Contrariado resmunguei: “Então explique ao macaco!”

“O que eu disse é que vocês estão atingindo níveis de conhecimento numa velocidade mais rápida do que os Vêes!”

“Vêes?” Exclamei.

“Desculpe-me não ter esclarecido. Nossa espécie se auto-denomina Vêe, assim como você se chama de humano, ou Homo sapiens!”

“Interessante! Foram necessários 14… 15 meses para saber o nome da espécie do alienígena que mora na minha casa. Com quem você mora ultimamente? Com um Vêe! Ah, legal, lembranças pro Vêe!”

“Já disse, desculpe-me… não achei relevante!”

“OK! Deixa pra lá! Volte para o papo entre produtividade e evolução que não ficou muito claro!”

“O que eu dizia é que os humanos estão compreendendo rapidamente a mecânica do universo embora seu tempo útil seja tão curto.”

“E isso é bom!”

Pierre enrugou o rosto numa expressão que eu ainda não tinha notado: “Não exatamente!”

“Adoro quando você me faz cair da escada!”

Ele elevou os canos da boca num sorriso, mas eu fui brusco: “Não é uma piada, é irritação!” E o sorriso dele murchou.

“Afinal! Senhor Pierre Le Vêe, aprender rápido é ou não é algo bom no contexto da moral cósmica?”

“É claro que aprender numa velocidade superior é bom para uma espécie em particular, mas se essa espécie não estiver evoluindo na mesma medida isso pode não ser bom para as demais espécies inteligentes do setor.”

“Evoluir significando melhorar a índole…?” Arrisquei.

“Exatamente! Nós já conversamos sobre isso sob uma ótica um pouco diferente. Um padrão ético equilibrado evoluindo junto com um conhecimento superior tornaria os possíveis contatos futuros mais harmônicos.”

Estacionei o carro na garagem e soltei: “Soluções!”

“A mais drástica seria encurtar o tempo de vida da espécie de vocês assim permitindo que as trocas gênicas tenham tempo para encontrar uma saída menos traumática…” Como eu torci o nariz  ele rapidamente arrematou: “… ou talvez isto seja muuuito traumático… a outra seria encurtar o intervalo de mil anos entre as visitas para reavaliação dos progressos de vocês para, digamos, uns duzentos anos.”

(Para saber como continua clique aqui!)

Anúncios
Explore posts in the same categories: Contos, Pierre, o alien.

Tags: , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

6 Comentários em “(13)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 34 a 35 de 101)”

  1. Li Says:

    Meu GURU não computou o tempo que perdemos na hora do rush,sendo preconceituosos,descriminadores,idiotas,homofóbicos,intolerantes,elitistas…….e por aí vai,rs.

    • romacof Says:

      Muitos não acham que este seja um tempo perdido!! Afinal, está incorporado às outras coisas que fazemos. É um ruído da máquina da civilização. A intolerância, que ganha todas as outras nuances, dependendo contra quem é direcionada, é fruto da capacidade humana de descartar o desprezível, seja ele uma dízima periódica, ou a terceira casa depois da vírgula, ou o troco em centavos, ou o gene torto no último cromossoma, ou os indivíduos que têm um cheiro diferente, ou a tribo que não paga imposto, ou o país que não consome, ou a raça da cor que não apita, ou a idéia que choca o conceito pré-estabelecido. Segundo a ponta da flecha isto são as penas que ficam lá atrás!

  2. camargo Says:

    pode não parecer (devido a essa loucura de fim de ano, onde as pessoas se comportam como se fossem elas que vão acabar e não o ano), mas estou por aqui…

    • romacof Says:

      Sei e conto com isto! Feliz stress de fim de ano!

      • camargo Says:

        -Sr Romacof, poderia me mandar seu endereço por mail?
        -endereço? Como assim, endereço?
        -é, endereço de correio… não o eletrônico, aquele antigo, da ECT… lembra?
        – ah, sim… vou mandar… por mail…
        – ok, combinado, fico no aguardo.

        (estou no aguardo mesmo…mas não se preocupe, é só pra mandar uma correspondência)

        • romacof Says:

          Confesso que o comentário me deixou confuso! Como assim e-mail que não é endereço? Como assim endereço que não é e-mail? Depois li num livro de história que antigamente as pessoas recebiam missivas trazidas por carteiros e entendi o que você queria dizer. Se estou certo é: Ronaldo de Campos Fernandes, Rua Francisco Hipólito Rolim, nº 581, Centro, Três Cachoeiras, RS, BR, CEP 95580-000 (consultório médico), para cartas, presentes e pacotes-bombas. Para mísseis é 29º27’33,73″S/49º55’17,55″O. Para e-mails continua sendo romacof@hotmail.com e para comentários de qualquer calibre é https://romacof.wordpress.com .


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: