(12)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 30 a 34 de 101)

(Para saber como começou clique aqui!) 

030

Pierre tinha um pequeno quarto onde podia repousar quando tivesse vontade. Lá guardava suas roupas, pilhas de revistas, algum livro que resolvesse ler durante a noite, um bebedouro de água mineral, e um computador com acesso a internet.

Em uma noite mal dormida eu levantei várias vezes e circulei pela casa. Observei que em todas às vezes Pierre ou estava lendo, ou bebendo água, ou folhando uma revista, ou sentado ao computador.

No dia seguinte perguntei para ele: “Você sofre de insônia? Pierre.”

“Não. Durmo muito bem.” Respondeu ele. “Tenho dormido cerca de 6 horas durante os seus dias de 24 horas.”

“Mas nessa noite você não dormiu nenhuma hora completa.”

“Ah! Eu encontrei umas observações muito interessantes sobre física quântica que prometem grandes avanços na compreensão da dinâmica multidimensional nos próximos dois séculos… pena que vocês vivam tão pouco! As descobertas de alguns só terão continuidade em duas a três gerações. Embora devamos entender que esses curtos períodos de vida sejam necessários para depurar os defeitos éticos da sociedade.”

“Você conseguiu elevar a minha moral de humano e aniquilá-la numa única frase.”

“Vocês humanos são muito sensíveis!”

031

“Como você recupera as noite mal dormidas?” Perguntei a Pierre.

“Nos intervalos.” Ele me respondeu.

“Como, nos intervalos?” Quis que ele fosse mais objetivo.

“Nos intervalos comerciais e nos intervalos políticos da TV, nas novelas, e em alguns programas que vocês consideram humorísticos.”

“E dá para recuperar?”

“Faça a conta.”

032

“Pierre! Explique-me melhor essa questão do tempo de vida! Por que nós humanos vivemos tão pouco e vocês vivem eternamente?”

“Nós não vivemos eternamente! Nunca fiz essa afirmativa! O que eu disse é que eu não saberia dizer a minha idade com exatidão para que fosse entendida segundo os padrões de vocês. Mas, respondendo à sua pergunta, e essa é uma resposta aproximada porque não é sobre um campo que eu domine tecnicamente, acredito que a explicação esteja na durabilidade dos telômeros.”

“Muito esclarecedor!”

Pierre fez uma pausa, mas não ficou muito convencido sobre o meu real nível de compreensão. “É uma piada?”

“É.”

Pierre ergueu o canto dos lábios, inclinou a cabeça para trás e ainda teve o atrevimento de emitir um sonoro “ó, ó, ó”. Imitei a sua careta de surpresa arregalando os olhos e diminuindo a boca. E ele “riu” novamente.

Pierre continuou: “Os telômeros sãos estruturas microscópicas que fecham as extremidades das cadeias de DNA para que elas não se desfiem com as repetidas duplicações. Com o tempo os telômeros vão ficando gastos, mais curtos, e perdem a capacidade de manter íntegras as pontas das moléculas de DNA. Essas moléculas acabam perdendo pedaços e a sua capacidade de transmitir informações inteiras fica prejudicada. Assim os cromossomas começam a envelhecer e com o tempo o processo fica irreversível, se repetindo, como numa somatória em cascata, para todo o organismo”

“E isso não acontece com vocês?” Conclui.

“Acontece. Mas de forma muito mais lenta.”

“E esse processo que torna o envelhecimento muito mais lento não pode ser aplicado a nós por que nós somos muito primitivos. Acertei?”

“Exatamente!”

033

“As vidas curtas levam à necessidade de uma maior freqüência na procriação.” Continuou Pierre. “Assim há uma maior recombinação gênica. E disso depende a aleatoriedade da natureza para encontrar uma forma evoluída mais próxima do ideal. Essa forma, um dia, será capaz de compreender a sua posição dentro de uma mente que não necessite mais de um suporte orgânico. Quando digo que vocês são primitivos não estou querendo ofender seus esforços intelectuais. Refiro-me ao estágio de trocadores de genes em busca de um corpo mais duradouro, de um entendimento maior, e de uma participação mais abrangente na vida como ela realmente é.”

“E os ratos?” Retruquei.

“O que tem os ratos, Michel?”

“Me dê um casal de ratos e em um ano eu consigo uma recombinação genética maior do que a espécie humana é capaz de fazer em mil anos.”

“Ah! Mas foi assim! No momento vocês são a melhor chance do rato; você está esquecendo que evoluíram dele ou de roedores muito semelhantes a ele, que conseguiram se esconder nas frestas das rochas no fim do cretáceo para escapar dos dinossauros quando eles ainda estavam por aqui. Você deveria ter dito: me dê um casal de ratos e 65 milhões de anos e eu boto um rato na lua. Hoje o pequeno rato da atualidade chegou a um beco evolutivo. O cérebro necessita de um espaço mínimo para desenvolver sua capacidade. O invólucro, digamos assim, é importante. Se os humanos forem extintos pelo caminho talvez o rato ainda venha a ter uma nova chance!”

(Para saber como continua clique aqui!)

Anúncios
Explore posts in the same categories: Contos, Pierre, o alien.

Tags: , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

2 Comentários em “(12)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 30 a 34 de 101)”

  1. Li Says:

    Eu não iria querer viver muito.
    Viver pouco nos poupa de muitos estragos.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: