(11)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 27 a 29 de 101)

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027

Depois de mais um silêncio para a acomodação das emoções, Pierre retomou a conversa: “Vou dizer por que era diferente.”

Não fiz eco à sua afirmativa e por um instante ele ficou indeciso se eu queria ou não uma explicação. Mas, pelo sim ou pelo não, continuou: “Eu precisava experimentar aquela emoção para registro e estudo, mesmo correndo algum risco para a minha saúde. Mais tarde… no banho… eu me mediquei!”

“E por que você não contou isto pra nós!?”

“É… é que as reações de vocês faziam parte de outro experimento.”

“Merda!”

028

Ficamos três dias sem conversar. Eu e Sofia resolvemos dar um gelo em Pierre. Ele andava triste pela casa sem saber até quando duraria aquela inusitada falta de diálogos. Cheguei a sentir pena dele, mas resolvi torturá-lo um pouco. Considerei que era uma vingança justa.

Ele que arquivasse também aquela emoção.

Abruptamente, no terceiro dia, chequei bem perto do ouvido de Pierre e disse:

“Registrou?”

Senti uma grande satisfação, com uma pitada de culpa, quando Pierre teve um nítido sobressalto. “Co-como?”

“Registrou os três dias de solidão?”

Ele fez toda a gama de expressões faciais entre a surpresa e o sorriso e por fim exclamou: “Vocês são muito passionais!”

“Ficou alguma dúvida de que nós gostamos de você?” Perguntei.

“Não. Embora considere o método extremamente cruel!” Queixou-se Pierre.

“Bem! Então estamos empatados!” E arrematei. “Devo também dizer que a confiança que temos no senhor ficou seriamente abalada e que devemos ter um papo para esclarecer algumas pendências.” Não pretendia abrir mão imediatamente de minha vantagem posicional.

Pierre ficou quieto a espera do meu próximo lance. 

029

“Você consegue ler os nossos pensamentos? Pierre.”

“Não!” Respondeu. “Nós podemos transmitir informações e até conversarmos mentalmente entre os de nossa espécie. Mas ler os pensamentos no sentido invasivo a que você se refere nós não podemos.”

“Por que não?”

“É um acordo tácito de respeito à privacidade.”

“Então vocês podem, apenas não querem!”

“Assim como querer é poder, não querer é não poder!”

Houve o natural silêncio que ocorria sempre que a nossa conversa esbarrava nos limites da ética, ou da conceituação filosófica, que tornavam nossas espécies diferentes psicologicamente.

“Por que não querer?” Resolvi persistir.

“Nossa evolução é mais longa do que a sua. Houve um momento em que era possível ler os pensamentos sem a permissão do emissor. Nesse tempo antigo nossa espécie correu o risco da extinção. O conhecimento total do que está na mente dos outros, em um estágio primitivo, permite muitas aberrações morais, porque amplia de forma muito perigosa o mal absoluto e o poder absoluto por ele gerado. E considere o fato de que só o indivíduo indiferente ao sofrimento e à maldade dos outros seres consegue entrar nas mentes alheias e sentir prazer com isso. Quando conseguimos passar por esse estágio os da nossa espécie que adquiriram a capacidade de dominar esse instinto foram os que sobreviveram. Hoje nós não podemos porque não queremos, e é assim!”

“Então me transmita alguma coisa.” Provoquei.

“Não seria possível! Eu poderia prejudicar a sua mente.”

“Por que não? Vocês disse antes que isso era possível…”

“Entre os da nossa espécie, e ocasionalmente com outras num nível evolutivo semelhante.” Esclareceu Pierre.

“Já sei!” Suspirei. “É por que nós somos muito primitivos.”

“Exatamente!” Concordou Pierre.

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4 Comentários em “(11)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 27 a 29 de 101)”

  1. Li Says:

    Eu ia adorar ler os pensamentos do meu marido,rsrsrsrsrsrsrsr.

    • romacof Says:

      Seria interessante pensar bem anrtes de ter esta capacidade. Olhe a coisa pelo lado oposto. Todo mundo poderia ler os nossos pensamentos? Ninguém sentiria dor? Ou medo? Ou vergonha? Será que estamos preparados para ler os dos outros e sentir o reflexo desses pensamentos como se as pessoas estivessem gritando o que lhes vai na mente?


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