Há realmente controle nos medicamentos?

Não há milagre econômico! Não dá pra fazer com 5 reais um bolo que custa 50 e impunemente chamar os amiguinhos de seu filho pra uma festa de aniversário! Em outras palavras: vai dar ca-ga-nei-ra! Vai dar ca-ca-ca! Encrenca! Entendeu?

A partir de 28 de novembro a venda de 93 substâncias de ação antimicrobiana obedece às novas regras determinadas pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A resolução (RDC/44 de 26/10/2010) é encontrada na íntegra no portal da anvisa, assim como a lista dos princípios ativos que passam a ser controlados. Encontrei a notícia mais esclarecedora para os leigos na página da G1-Brasil. Quem estiver curioso é só clicar nos dois links acima e se interar.

A automedicação com antibióticos é um velho problema de saúde pública. O indivíduo que se automedica com qualquer outra droga pode até se matar! Mas esta morte, em princípio, atinge somente aquele indivíduo. Já quem faz uso indiscriminado de antibióticos está fomentando o desenvolvimento de microorganismos cada vez mais resistentes. E, um dia, cepas que não são sensíveis a nenhuma droga conhecida matarão um grande número de pessoas. Se ficarmos esperando vai acontecer! Em escala menor, mas preocupante, a medicina já enfrenta em território nacional a KPC, uma  Klebsiella pneumoniae, mas outras super-bactérias estão espalhadas pelo planeta a espera de uma massa crítica ideal e de condições sanitárias que as favoreçam. Portanto a resolução é muito bem vinda. Palmas para a ANVISA.

(Os profissionais da saúde foram informados pela mídia. Não houve nenhum comunicado sobre a norma técnica. Talvez não tenha havido tempo! Afinal, os esforços direcionados para esta ação tomaram pé apenas agora, no ano passado, e a constatação do problema só acontece há 25 ou 30 anos! Paradoxos na era da internet.)

A existência de um conjunto de regras não significa que o problema esteja definitivamente resolvido. Mesmo que todos os profissionais da saúde prescrevam antibióticos corretamente. Mesmo que todos os produtos éticos gerados pela indústria obedeçam à determinação da ANVISA. Mesmo que todas as farmácias façam o registro de suas vendas. Mesmo que todos os pacientes entendam qual é o sentido disto tudo. E mesmo que o governo complemente o seu papel regrador exercendo uma continuidade fiscalizadora.

Vou contar uma história! Em 2001 fui secretário da saúde do meu município. Os médicos do serviço público começaram a reclamar que os pequenos pacientes tratados com amoxicilina fornecida pela rede, sistematicamente, não mostravam melhora alguma. Fucei em outros setores da administração e encontrei o seguinte: Na época um vidro de amoxicilina de referência custava 18 reais. A melhor opção genérica 12. A FURP de Campinas nos oferecia o mesmo medicamento, sem os adereços publicitários, por 5,40. E a empresa que ganhou a licitação nos vendeu o produto por 1,88. Um real e oitenta e oito centavos por um vidro de antibiótico para o seu filho! Licitação ganha e mercadoria recebida de acordo com as regras laicas. Regras nem um pouco interessada se a mercadoria era ou não um antibiótico e no filho de quem seria usada! Lacrei uma caixa e pedi uma análise para a Faculdade de Farmácia da UFRGS. Fui informado de que realmente era uma amoxicilina! E que a dosagem encontrada se aproximava bastante da apregoada, mas que as análises subseqüentes, feitas após a diluição, mostravam concentrações rapidamente decrescentes. No mesmo laudo a faculdade se desculpava pela impossibilidade de efetuar os métodos utilizados pela ANVISA que quantificam a fixação da droga nas proteínas plasmáticas, ou a bioequivalência do produto.  Muito gentis. Como se eu pudesse pagá-los! Um teste de bioequivalência custa hoje cerca de 250 mil reais. Traduzindo: enquanto as primeiras tomadas correspondiam às de um medicamento de referência, as posteriores, gradativamente, se mostravam inócuas para o fim a que se destinavam. Um perfume francês “meide-in-assuncion” extremamente adequado para os objetivos de uma bactéria: criar todas as resistências possíveis.

A indignação pedia uma ação concreta contra o que, na minha ótica, se configurava um crime. O meu esperneio foi insuficiente e teve um alcance proporcional ao peso de minha conta bancária no financiamento daquela cruzada inglória. Descobri que este tipo de ação não interessa nem aos que fabricam medicamentos éticos (e não me perguntem o porquê). Os órgãos públicos não fizeram eco aos meus pedidos de esclarecimento. Nunca soube se os julgaram irrelevantes ou improcedentes. Mas nós sabemos que esta informação interessa aos que pagam uma quantia faz-de-conta, por um medicamento faz-de-conta, para tratar uma infecção que não faz-de-conta, pois não há como fazer de conta que a infecção foi banida. Nós sabemos que o resultado se traduz num gasto dobrado, com prejuízos para a saúde e para o bolso! Como nos jogos de máfia não é inteligente enfartar duas vezes a opção foi mudar o foco e interar o usuário da realidade. Um trabalho de formiga. “Minha senhora! Não há milagre econômico! Não dá pra fazer com 5 reais um bolo que custa 50 e impunemente chamar os amiguinhos de seu filho pra uma festa de aniversário! Em outras palavras: vai dar ca-ga-nei-ra! Vai dar ca-ca-ca! Encrenca! Entendeu? Compre o remédio certo! Se o cara da farmácia disser que aquele outro é a mesma coisa, diga pra ele que a senhora vai comprar na outra farmácia – o que também não deixa de ser a mesma coisa! Dê nos dedos de quem quiser lhe lograr! Seja esperta!” E por aí vai, entre outras.

Deboches a parte fica a questão em aberto. No Brasil, com menos de 400 substâncias, são feitos quase 15 mil medicamentos. A ANVISA poderia, trabalhando sem trégua, analisar cada um deles de 80 em 80 anos num voto de confiança praticamente vitalício.  É impossível determinar o volume da pirataria que chega às farmácias e ganha licitações nos mais de 5 mil pequenos municípios de nosso país. Falo de todo e qualquer medicamento. Inclusive os usados na hipertensão e na diabetes. Neste momento milhares de brasileiros estão lendo a bula de um trocinho comprado na esquina e que será engolido em 2 minutos. Como são medicamentos que na prática não existem eles não ganham o status de fiscalizáveis. Neste caso, quando a droga é um antibiótico, se diz que ele está descontrolado. É o mundo do faz-de-conta, onde os microorganismos fazem as contas! Afinal! Quantas almas valem uma bonificação irreal?

Durma-se com um barulho desses!

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4 Comentários em “Há realmente controle nos medicamentos?”

  1. Li Says:

    Tens toda razão.Felizes são os ignorantes.


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