(10)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 24 a 26 de 101)

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024

“Vamos por partes.” Eu disse a Pierre. “Nem tenho a mínima pretensão de entender como funciona aquele… aquela… bolacha. Nesse momento estou mais interessado em saber de onde você tirou aquilo, já que, pelo que me consta, chegou pelado a esta casa, as roupas que você está usando não são mágicas, pois fui eu mesmo que as comprei, e, no entanto, não há como negar que você sacou da cintura aquela coisa que fotografou o que eu estava pensando e ainda imprimiu o meu pensamento em detalhes que eu próprio não seria capaz de me lembrar.” Eu estava humilhado, ofendido e irritado, mas procurei apenas parecer enfático.

“Tirei do meu cinto.” Respondeu Pierre, como uma criança pega numa travessura.

“Que cinto, ô alienígena do capeta! Eu estou e estive com meus olhos bem abertos nos últimos 12 meses e sei perfeitamente que não há porra de cinto nenhum na sua cintura!” Pierre já aprendera que quando nós humanos nos expressamos com palavras de baixo calão é porque as emoções ficaram mais a flor da pele. E, aos poucos achou por bem, muito diplomaticamente, contar um dos seus segredos.

“Na verdade ele não está aqui… por isso você não o vê!”

“Você, afinal, tem ou não tem um cinto na porra da cintura?”

“A resposta mais correta é sim e não!” Pierre estava assustado.

“Desisto!” Capitulei e sentei quieto no sofá da sala. 

025

Depois de alguns minutos Pierre sentou ao meu lado e disse, timidamente: “Permite que eu explique?” Seus olhos estavam bem abertos e sua boca quase sumira. Era o seu misto de receio com surpresa.

“Vá em frente!” Eu disse.

“Bem!” Começou Pierre. “O fato é que os de nossa espécie conseguem perceber outras dimensões além das quatro com que vocês definem os sólidos de vocês…”

“Três!” Corrigi.

“Você está esquecendo o tempo!” Lembrou Pierre.

“Ah!” Disse o orangotango.

“Como dizia…” Continuou Pierre. “… numa dessas outras dimensões nós podemos guardar objetos que, se tivéssemos que carregar, seriam muito volumosos, pesados, ou desconfortáveis…”

“Num universo paralelo?” Ainda me intrometi.

“Não!” Continuou Pierre de uma forma muito paciente e didática. “Isto já é outra história. Estou falando de dimensões que existem em seu universo, mas que vocês ainda não perceberam! Posso continuar?”

“Mate-me! Por favor!”

“Devo considerar uma piada?”

“É sarcasmo!”

Pierre levantou as comissuras labiais e jogou a cabeça para trás duas vezes. Depois me demonstrou como dois pequenos nódulos transparentes se completavam como se cada um fossem a metade de uma elipse de 3 cm em seu eixo maior. A elipse ficava colada a seu flanco direito. Quando ele pressionava estas pequenas peças e afastava os dedos elas criavam um espaço entre elas onde uma zona enevoada surgia. Pierre enfiou a mão ali e ela aparentemente sumiu dentro de sua barriga. Ele tirou dali e me mostrou o aparelho que usara anteriormente e voltou a recolocá-lo naquele lugar absurdo. Em seguida aproximou as duas meias elipses até que elas se encostaram e a única coisa que se via era um adereço sem cor que aparentemente fazia parte de sua própria pele.

026

Pierre disse: “Então esse cinto, que você não percebe, está aqui para mim, mas na verdade eu não preciso carregá-lo, pois ele não pertence às dimensões Euclidianas ou às variáveis temporais. Dele eu tirei o transdutor. No cinto eu guardo os suplementos alimentares que eu preciso, e, como você costuma dizer: por aí vai…”

“Transdutor é o nome da coisa?” Perguntei.

“É.”

“Neste cinto cabe uma porrada de coisas, inclusive toda a comida que você pode precisar durante o tempo que está aqui?” Ainda perguntei enquanto uma outra idéia nascia em minha mente.

“É”

“Até os possíveis medicamentos para uma eventual infecção, ou algum mal estar que você viesse a sentir estando longe dos avançados recursos médicos de seu planeta?”

“É”

“E também medicamentos para vômitos e desidratação?

Xeque mate. Pierre fez seu biquinho de “oui”, mas ficou calado.

“Então o alienígena, filho da puta, que mora aqui há um ano, quase nos matou do coração naquela vez da vomitadeira e não foi capaz de dizer que podia acabar com aquilo na hora que quisesse?”

“É… é diferente.”

“Como é que é diferente, ô porra? Você chama isso de amizade? Sabe quanto eu e minha esposa sofremos de preocupação por você, ô merda? Merda! Merda!”

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3 Comentários em “(10)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 24 a 26 de 101)”

  1. Li Says:

    Meus deus! as mulheres ficariam loucas com um cinto desses.
    Imagine nunca mais carregar tantas malas,e carregar toda tralha que(aparentemente) precisamos,rs.


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