(9)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 22 a 23 de 101)

(Para saber como começou clique aqui!)

022

Pierre ficava curioso com a mecânica social que nos obrigava a trabalhar tantas horas por dia, um número determinado de dias, para receber uma quantia estabelecida de dinheiro, com o qual podíamos adquirir os bens para sobrevivência e consumo. Ficava especialmente intrigado com a desproporcionalidade entre o mérito do que era feito e a remuneração recebida, e abismava-se com os ganhos de alguns indivíduos que não faziam absolutamente nada e viviam num padrão muito superior ao dos que realmente trabalhavam.

Tentei explicar que a distribuição de renda era extremamente desigual em conseqüência de problemas políticos não resolvidos tais como a ausência de uma consciência social que englobasse uma educação para todos, e oferecesse os meios básicos para que os indivíduos alcançassem os recursos para uma vida saudável e digna como seres humanos.

Ele continuou sem entender como nós não escolhíamos criaturas comprometidas com a consciência social nos nossos processos seletivos para os membros do governo.

Tentei, de forma infeliz, desenhar os jogos eleitorais, as mentiras, os engodos, e as fortunas envolvidas na vida pública. Fui menos feliz ainda tentando explicar por que a maioria dos políticos, uma vez em contato com essas fortunas, se transformava em defensores de interesses ilícitos.

“Mas isso é um ciclo sem solução!” Exclamou Pierre.

“Nossa esperança é educar 20% da juventude a cada geração, ensinando padrões morais mais elevados, e desta forma, numa progressão geométrica decrescente, em 300 anos, minimizar a um nível desprezível, e talvez eliminável, a camada dos de consciência torta.”

“Vocês são tão rápidos para umas coisas, mas em outras são muito lentos! Mas muito, muito lentos, mesmo!”

023

Pierre já havia visto máquinas fotográficas digitais e teve pouco interesse por elas ou pelas maravilhas que podíamos fazer com as edições das fotos no computador.

“São primitivos.” Resumira ele sua opinião sobre o aparelho e o processo.

Um dia eu me empenhava febrilmente em passar para uma folha de papel, com uma caneta a nanquim e aquarela, o esboço de uma imagem que me ocorrera sobre um bando de aves voando contra um nascer do sol no mar. Pierre observou minha tentativa com vívido interesse e depois perguntou: “Por que você não usa uma câmara digital e captura a imagem? Por que tanto trabalho quando há meios mais eficazes?”

Achei que era uma de suas piadas inglesas, mas respondi: “Você sabe que essa imagem não existe na realidade. Estou fazendo um sketch pra uma tela que pretendo pintar.”

“Como não existe…?” Ele demonstrou surpresa genuína e ato contínuo começou a mexer na cintura de onde tirou um objeto que parecia uma bolacha redonda  e branca de uns 8 cm de diâmetro. Encostou aquela bolacha em minha testa onde senti um leve formigamento como aquele que sentimos quando aproximamos os pelos do braço de uma televisão de tubo. Depois ele passou a bolacha sobre uma folha de papel em branco e imediatamente surgiu sobre a folha uma espetacular imagem de um nascer do sol entre o céu e o mar, com todos os reflexos vermelhos e dourados que aquele momento único poderia gerar. Em primeiro plano, aves brancas voavam da esquerda para a direita, como majestosas donas do planeta, indiferentes à humanidade, e, na parte mais baixa da folha junto à areia detalhada em seus incontáveis grãos, a espuma da última onda brilhava como uma infinidade de pequenas bolhas de arco-íris dissociando a luz que vinha do sol.

Tudo foi muito rápido e Pierre concluiu: “… claro que existe!”

Fiquei mudo por quase meia hora olhando para a imagem do meu pensamento e vendo que era mais perfeita do que eu poderia sequer imaginar.

Depois disto passei 12 anos sem voltar a pintar.

(Para saber como continua clique aqui!)

Anúncios
Explore posts in the same categories: Contos, Pierre, o alien.

Tags: , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

7 Comentários em “(9)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 22 a 23 de 101)”

  1. Li Says:

    Sonho com flores brancas….tão lindas!
    Espero que existam em algum lugar do planeta.
    Pena que não sei desenhar.

  2. Franci23 Says:

    E como sempre a tecnologia acaba com toda a mágica da coisa!

  3. camargo Says:

    depois de um período de ausência, estou aqui, batendo o ponto… e lendo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: