(4)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 9 a 11 de 101)

(Para saber como começou clique aqui!)

009

Todos os dias eu precisava sair para trabalhar como gerente de uma gráfica. Sofia era “freelancer” de uma revista de modas, trabalhava em casa e dispunha de mais tempo livre. A presença de Pierre não alterou nossa rotina. No primeiro mês em que viveu conosco Sofia mostrou a Pierre os meus livros na pequena biblioteca doméstica. Logo ele entendeu a simbologia utilizada em que as letras formavam fonemas e esses formavam palavras que representavam um objeto, ou uma qualidade, ou uma ação, e por aí vai. Depois que ele captou que as palavras estavam encadeadas em sentenças que descreviam idéias, e que essas idéias de forma cumulativa contavam a nossa história, enredos de ficção, e textos técnicos os mais variados, ele não saiu da biblioteca por 12 dias, 18 horas e 35 minutos, a não ser por 5 minutos diários em que ia tomar banho, ou fazer aquilo que costumava fazer quando nós achávamos que ele estava tomando banho.

Quando saiu da biblioteca fez o seu diagnóstico:

“Vocês são muito interessantes!”

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Motivado pelo interesse de Pierre nos meios de informação, e sabendo que ele conseguia interpretar perfeitamente os sinais gráficos, trouxe pra ele um laptop e lhe dei as instruções básicas de acesso à internet.

“Esse sistema é bem mais avançado do que os livros de sua biblioteca, embora pudesse, mesmo com os parcos recursos existentes, ser otimizado.” Observou Pierre.

“Esqueça por um instante que você está entre seres de curto alcance intelectual, sábio ser espacial, e aproveite essa pobre ferramenta que só pretende alimentar sua sede de saber.” Era sarcasmo. Afável, mas sarcasmo.

Pierre ergueu os cantos da boca e fez seu balanceio de cabeça no ritual que ficou estabelecido como riso. “Não é uma piada! Eu estou gozando de você.” Eu disse.

“Eu sei!” arrematou Pierre.

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No fim do quarto mês em que descobrira a internet Pierre falava, lia e escrevia fluentemente 15 idiomas: o português, o francês, o inglês, o espanhol, o italiano, o alemão, o polonês, o mandarim, o chinês, o russo, o iídiche, o árabe, o turco, o hindi, e o samoa. E com isso o seu sotaque francês quase desapareceu.

“Por que a língua falada em Samoa?” Perguntei.

“Consegui uma amiga pela internet que mora lá.” Esclareceu Pierre.

(Para saber como continua clique aqui!)

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8 Comentários em “(4)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 9 a 11 de 101)”

  1. Li Says:

    Estou acompanhando,rs.

  2. camargo Says:

    entre as coisas que mais me encantam no que é escrito é a característica individual de construção literária. No meu ponto de vista, um grande fenômeno nesse sentido é o Erico Veríssimo (mesmo sendo reduntante na minha idolatria a ele). Ele faz com que tenhamos a impressão que só a gente está entendendo o que ele quer dizer.
    a sua clareza ao discorrer um tópico, ou um assunto dentro da narrativa e, por momentos, deixar todo o restante da vida que acontece paralelamente aos personagens como se fosse uma coisa totalmente desnecessária ou desinteressante, transforma seu texto numa experiência construtiva muito interessante.
    Num primeiro momento, quem não o conhece, pode ter a impressão de que vc não sabe escrever, ou escreve como uma criança, pq a conjugação dos seus pensamentos quando se derramam num texto tem alguma coisa meio inexplicável de ingenuidade. Porém, quando a materialidade do tema (mesmo que subjetivo) germina, e nos sentimos fisgados, a leitura se torna não só prazerosa, como obrigatória.

    confesso que, embora o enredo esteja muito muito interessante, estou mais encantado, no momento, com a forma que ele está sendo apresentado. Inclusive tentando mentalmente definir quais os melindres dessa sensação de ineditismo na construção.

    aguardo a continuação para breve…

    em tempo: vc sabia que o meu primeiro livro é sobre alienígenas?

    • romacof Says:

      Vou observar… e fiscalizar o que escrevo. Confesso que me senti como na época em que falava com Pierre… mais ou menos elogiado e mais ou menos criticado. No entanto fiquei contente por receber um comentário “quilométrico” de Dom Mauro.
      Qual é o nome do livro em que você escreve sobre aliens?

      • camargo Says:

        relendo o comentário, entendi que tem partes que soam como crítica, mas não é. Por favor, não fiscalize. Quando digo que parece que não sabe escrever, ou que escreve como criança, isso está longe de ser um defeito. É muito mais uma encantadora virtude. Aliás, grandes escritores têm características semelhantes no sentido da aparente ingenuidade, como Arrabal, por exemplo.

        O nome do livro sobre ets é A Ilha de Alor, mas foi uma edição paga que ficou muito mal feita. Creio que logo vai ser reeditado pela minha nova editora. Caso tenha tempo e paciência, posso mandar em arquivo por mail. (eu sou um que tenho dificuldade em ler obra grande na telinha).

        • romacof Says:

          Veja como são as coisas! A minha crítica número um, que mora comigo há 30 anos, sempre disse que minha sinonímia era prolixa e minha sintaxe confusa. Passei os últimos quatro anos tentando reaprender a escrever de forma mais linear e mais compreensível. Quando os rótulos exatamente opostos chegaram fiquei chocado! Eu não estava preparado… e acho que fiquei contente!

          • camargo Says:

            bah! sintaxes confusas podem ser deliciosas. Quer sintaxe mais confusa que a do Saramago? (embora eu não seja fã dele). Mas vamos com calma. Expressei uma opinião particular que o amigo deve colocar como um dos tijolos da calçada (e veja que é calçada, e não parede, onde um tijolo mal colocado pode causar danos maiores). No fundo o que importa é que acho esses textos muito bons. Quem está envolvido com literatura às vezes precisa fazer elogios ou ponderações necessárias, não tem como fugir, quase como uma regra de civilidade. Aprendi isso depois de ter sido muito verdadeiro nalgumas críticas, o que gerou alguns ranços duradouros. No entanto, esse meu elogio vai totalmente espontâneo, não pedido nem induzido. Então fique contente de verdade.


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