(1)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 1 a 4 de 101)

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Já era noite quando voltamos pra casa no dia 11 de setembro de 2001. O mundo ainda não havia fechado a boca pelo que havia acontecido no World Trader Center. Sou Michel e minha esposa chama-se Sofia. Estacionei o carro do lado de fora da garagem. Nossa atenção foi atraída pela criatura sentada na soleira da porta que chorava entre soluços e suspiros. Suas lágrimas desciam pela face desenhando linhas levemente azuladas. Ele tinha a pele muito clara, ou aquilo talvez não fosse a sua pele. Era absolutamente desprovido de pelos e parecia estar nu, mas não se percebia qualquer apêndice sexual. Seus olhos, discretamente maiores dos que os nossos, eram azuis. As escleróticas de um azul celeste contrastavam de forma suave com o azul profundo da íris. Sua forma era de um humanóide perfeito, porém mais esguio do que a nós. Tratava-se, sem dúvidas, de um ser de outro mundo. Um alienígena. Suas feições eram harmônicas do ponto de vista humano. Passaria por um rapaz bem apessoado. Os dedos das mãos, discretamente mais longos, seriam muito úteis a um pianista.

“O que foi que aconteceu?“Perguntou Sofia, relutante.

“Muito triste… sem sentido… o que aconteceu naqueles prédios…” Gemeu o alienígena.

“Chorando ainda, por quê? A coisa foi de manhã!” Perguntei.

“Eu ainda não parei.” Ele disse. Tinha um bonito timbre de voz, com muitos erres guturais e biquinhos nos is e nos us. Como num sotaque francês.

Abri a porta para que minha esposa entrasse. Eu sentei ao lado dele e esperei que parasse de chorar. Não me pareceu relevante o fato dele ser um alienígena ou de chorar por uma tragédia exclusivamente humana.

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Pierre – eu e minha esposa resolvemos batizá-lo dessa forma por causa do seu sotaque; seu nome verdadeiro era impronunciável – passou a morar lá em casa desde então. Ele comia pouco, mas bebia muita água. Tomava banho todos os dias e nunca percebemos que estivesse fazendo suas necessidades fisiológicas. Talvez esvaziasse o intestino e a bexiga, ou aquilo que ele tinha e que funcionava como essas coisas, durante o banho. Nunca notamos qualquer cheiro em Pierre. Ele era inodoro.

Consegui convencê-lo, enquanto não comprássemos roupas para ele, a usar as minhas pra que um vizinho não o visse num relance e concluísse que andava pelado pela casa. Ele não entendeu as eventuais implicações morais, mas compreendeu perfeitamente quando eu disse que se alguém deduzisse que ele era um alienígena mandaria o governo vir à nossa casa com a finalidade de prendê-lo. Seus olhos ficaram ainda maiores quando eu expliquei que o governo costumava abrir os visitantes de outros planetas para ver como eles funcionavam. Depois disso, por algum tempo, tive um pouco de dificuldade para explicar que durante o banho ele poderia tirar a roupa.

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No princípio Sofia me questionou sobre a permanência de Pierre em nossa casa. Eu argumentei que se tanta gente tinha cunhados em casa por que nós não podíamos ter um alienígena?

Para ela pareceu um argumento convincente.

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Quando alguém perguntava de onde surgira o Pierre eu dizia que era um parente distante. Ele nunca tirava os óculos escuros porque era albino. Ele não tinha cabelos ou cílios ou sobrancelhas porque era portador de alopecia total. Ele falava daquele jeito diferente porque nascera e morara na França até pouco tempo atrás. E por aí vai. As mentiras surgiam de uma forma tão espontânea em minha mente que pareciam tópicos de um histórico já há muito conhecido.  Pierre apenas concordava com a cabeça e fazia um biquinho para dizer “oui”. Ele detestava mentiras, mas nós o convencemos de que elas poderiam ser menos dolorosas do que as possíveis ações do governo. Com o tempo Pierre entendeu perfeitamente que nem sempre uma verdade aguda era melhor do que um conjunto de pequenas mentiras com ângulos suavizados. Lógica de humanos.

Um dia o filho do vizinho, um gordinho pentelho chamado Adolf, deu um chute na canela de Pierre e gritou: “Você é um alien!”

Houve um breve momento gelado em “slow motion”. Então Pierre soltou uma gostosa gargalhada que aos poucos se transformou numa gargalhada sem fim. Eu nunca o havia visto rir. E ri também. E depois o pai e a mãe do pentelho estavam rindo. E eu levei Pierre para dentro e ele riu até a noite. Foi a segunda vez em que eu vi suas lágrimas azuis.

Pierre havia aprendido a mentir.

(Para saber como continua clique aqui!)

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2 Comentários em “(1)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 1 a 4 de 101)”

  1. Li Says:

    Já gosto desta criatura,rs.


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