O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (19 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 19 de 22 (16 de janeiro)

O confronto sempre é um momento de paz. O que pode acontecer a mais? A morte? Também é um momento de paz…

Alvin entrou em casa e encontrou a mesa posta. Helena se mostrava solícita e respeitosa e Alvin pensou quem seria aquela mulher. Mais um soldado do exército pessoal de Marco? Lúcio não lhe deu tempo para terminar o café. Entrando pela porta de serviço, coisa que nunca fizera nos meses em que morara na casa ao lado, foi direto ao assunto, desconsiderando a presença de Helena: “Temos negócios a tratar, padre Alvin.”

Alvin olhou demoradamente para Lúcio; com uma faca cortava uma fatia do pão; assustou-se com a facilidade com que o pensamento de enterrar a faca naquele homem lhe veio à cabeça sem sentir que fazia algo errado. “Os negócios… podem esperar. Vamos conversar no escritório assim que eu terminar de tomar café.” Disse Alvin, sem gestos, com a faca na mão, sem desviar os olhos do rosto de Lúcio. O outro vacilou por um breve instante, saiu da casa, e, sem dizer uma palavra, foi se sentar no banco que ficava ao lado da porta que ligava a secretaria com a frente da igreja. “Qual surpresa você pode ter para mim, demônio?” Pensou Alvin. E continuou a sua refeição.

***

Alvin, contrariando a ordem de Marco, antes de entrar no escritório olhou demoradamente para a casa onde deveria estar Eloá, mas não a viu. Ligou o gravador sob a mesa, mas não viu o microfone. Abriu a porta da rua e sem dizer uma palavra deixou que Lúcio entrasse e foi se sentar em sua cadeira. Lúcio estava irritado por ter esperado pelo momento determinado pelo padre. Queria dominar todos os lances, mas parecia que Alvin perdera a capacidade de ser surpreendido. Lúcio viu um homem muito quieto e de olhar frio, e isto era algo que ele não gostava. Estava acostumado a ter as pessoas com medo para poder dominá-las. Atirou sobre a mesa um envelope que certamente conteria cópias das fotos que Alvin já vira. “Já conheço o lixo que há aí dentro.” Disse Alvin.

“Também a fotos de Eloá?” Emendou Lúcio. E sentiu uma ponta de prazer porque mesmo não sabendo se o padre tivera acesso às fotos que mantinham Eloá como sua refém, a simples menção delas cravava um espinho na fleuma fingida de Alvin. Se ele vira sabia do que se tratava. Se não vira, a curiosidade, misturada ao ciúme, nesta hora estaria roendo um buraco em sua armadura. Mas Alvin apoiou as mãos nos braços da cadeira, como quem descansa, mas também como quem prepara um bote, e disse: “Diga os termos do seu negócio.”

“Ora, padre. Não deixe um artista frustrado!” Lúcio sorria. “Avalie as coisas por outro ângulo. Isto é arte! E toda arte tem um preço, é claro! Mas desse detalhe vamos tratar depois… o que me interessa agora é saber a opinião dos meus protagonistas, dos que vivenciaram essa experiência única, sem a qual suas vidas permaneceriam aquela chatice piegas de rezar, dormir, rezar, dormir… convenhamos… o barato daquela noite mudou a sua vida… a paixão por Eloá deu um colorido todo especial aos seus hormônios castrados…”

Alvin estava a ponto de saltar sobre Lúcio para estrangulá-lo, mas percebia que o outro, além do crime e de seus objetivos, sentia a necessidade mórbida de saber quais as sensações que seu plano havia desencadeado em suas vítimas. Ele queria o reconhecimento de seu intelecto torto. E optou por deixá-lo falar, fazer perguntas que o induzissem a revelar algo de útil para as intenções de Marco. Procurou demonstrar asco além da medida que já sentia e comentou: “Eu não acredito que você teve a coragem de drogar Eloá para fazer aquelas fotos…!”

“Ah! Ficou interessado! Sim, e com ela foi mais fácil porque ela queria experimentar! Os dois gays são gente fina, de confiança, e colaboraram com todo o prazer que os cruzamentos permitiram. Eles estavam de cara, mas Eloazinha estava chapadona. Um doce. Viu as fotos! não?” Perguntou Lúcio.

“S-sim!” Respondeu Alvin e fixou os olhos nos de Lúcio para não olhar para o envelope que estava sobre a mesa.

“Delícia!” Continuou Lúcio. “O filme completo é uma obra prima e no Youtube faria o maior sucesso, mas no momento aquilo serve para um propósito maior.”

“E por que não fui filmado também?” Alvin perguntou se pondo de pé.

“O equipamento era do Guim… eu naquele momento… eu só tinha uma máquina fotográfica furreca. Foi o que deu. E chega de papo.” Lúcio dera uma escorregada e perdera momentaneamente a autoconfiança, mas Alvin não queria que o outro percebesse que o deslize havia sido registrado.

Alvim fez a volta na mesa e agarrou Lúcio pelo pescoço, que, surpreendido, ficou sem ação: “Apenas me responda, animal, como você consegue se sentir em paz vendendo o próprio filho?” Mas Lúcio, naquele momento, estava impossibilitado de responder. Grunhiu. Levou as mãos ao pescoço enquanto enrugava o rosto num esgar. Alvin percebeu que sua vontade era dar por terminado aquele assunto, mas a razão aos poucos voltou à sua mente e ele soltou o pescoço do outro.

Lúcio tossiu, inspirou fundo, e disse: “É bom que o padre saiba que se alguma coisa me acontecer… todas as pessoas desse planeta de merda… terão a oportunidade de assistir as aventuras sexuais de Eloá e Alvin.”

“Imagino!” Quase gritou Alvin. “E o que você fez com a criança, seu filho da puta.”

“Que feio!” Lúcio ria. “Não se preocupe. Ele está melhor do que qualquer um de nós e ainda rendeu um bom troco pro táta.”

“Demônio!” Rosnou Alvin. “Vá direto ao assunto… o que você quer de mim?”

“De você? Nada! Você é um pé-rapado. Você é até mais duro do que eu, pobre padre Alvin. Eu quero de seus patrões. Da Igreja Católica Apostólica e o caralho.”

“O que a Igreja pode dar pra você…?” Perguntou Alvin.

“Money, dinero, faz-me-rir, grana, em troca de nada. Eu não dou nada. Sem as fotos, sem os pen-drivers, sem a retirada da espada de sobre a cabeça dos santos senhores rezadores. Eu passo a receber a quantia em prestações vitalícias, módicas, mas não tanto. Meu silêncio e minhas não-ações por um cargo de assessor bem remunerado. Isso! Passo a ser um funcionário especial da Igreja. Veja a poesia! Nunca a Igreja terá em seu quadro um especialista tão qualificado quanto eu. Um verdadeiro embaixador do inferno. Como você mesmo diz: um demônio. Aliás, poderia mudar o meu nome de Lúcio para Lúcifer. Seria o cúmulo da ironia nesse contexto de piadas.”

“Você é louco!”

“Talvez! Mas não sou estúpido! Meu plano está arquitetado a um nível que vocês não imaginam. O meu negócio é o pó. Envolve muito capital de giro e isto vocês têm de sobra… É arriscado? Concordo. Posso até morrer. Mas vocês se fodem. A propósito as batinas que meus protagonistas usam na filmagem com Eloá são verdadeiras. O altar é verdadeiro. A montagem ficou estupenda com suas fotos. Dom Marco sorrindo no final, então, é algo sublime.” E Alvin ficou paralisado, pois não sabia desses detalhes. “Tome, leve esse DVD para avaliação de nosso querido bispo. É uma cópia atualizada. Volto à noite para saber a resposta.” E Lúcio saiu deixando Alvin estático no meio de seu escritório.

***

Quando Lúcio saiu, Helena entrou com uma xícara de chá. “Tome padre… vai precisar. Breno logo virá. Também é bom que o senhor saiba que Eloá saiu da casa levando as coisas dela. Acho que ela não volta!” Mas aquela notícia pareceu preocupar Alvin de uma forma muito distante. O céu iria desabar sobre sua cabeça.

***

“Eu diria que a partida está acabada! é só uma questão de tempo!” “Não conte vantagem antes da hora!” “Derrube o seu rei, seria mais digno! e não ofenderia a minha inteligência.” “Logo você vem me falar de dignidade! de inteligência!” “Duvida da minha inteligência?” “Não duvido é de sua maldade.” “Maldade? quem escolheu Alvin?”

Marco, desde o início, tinha razão. Era uma chantagem. Lúcio buscava uma fonte de renda para ampliar o seu negócio de drogas. Continua no próximo capítulo.

(Se você curte histórias que apresentam pontos de vista polêmicos e fazem pensar, visite Pongo)

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