E ele estava só.

Ele estava nu. Percebeu que estava num universo úmido, macio e agradavelmente quente. De algum lugar a sua volta vinha um som ritmado, assoprado, constante, calmante, que o acariciava. Os meios pelos quais era alimentado não faziam parte de sua compreensão ou interesse. O universo era todo seu e ele o tocava em todas as partes. Ele próprio, segundo a sua ótica, era infinito e preenchia todos os espaços. Vivia na escuridão total. Toda a sua vida fora assim. Ocasionalmente outros sons, estes caóticos e estranhos, chegavam abafados aos seus ouvidos. Mas a origem deles era um mistério. Ele era o único ser que estava ali. E ele estava só.

Um dia o universo dele foi rasgado e desabou. A vida que ele conhecia acabou. Foi jogado num lugar seco e duro. Uma luz cegante lhe atravessou as pálpebras. Seus ouvidos foram assaltados por uma infinidade de sons aterrorizantes. Uma dor imensa lhe esmagou o peito. Teve que inspirar desesperadamente uma substância rarefeita e gritar para não morrer asfixiado. Seres gigantescos esfregaram coisas ásperas em seu corpo. Estendeu os braços, mas os limites daquela nova dimensão fugiam. Ele percebeu que era pequeno e fraco. Sentia muito medo. Estava perdido. Aquele lugar era muito frio. Mas aos poucos, de olhos fechados, envolto naquelas coisas grosseiras que lhe machucavam a pele, se sentiu aquecido. Os seres daquele lugar o depositaram numa estrutura incompreensível e foram embora. Houve silêncio. Tudo estava mergulhado numa penumbra. E ele estava só.

Uma dor o acordou. Uma dor num ponto na frente e no meio do seu corpo. Aquilo era fome, mas isto estava fora do seu entendimento. Abriu os olhos e estendeu a mão para tocar as paredes do seu universo, mas elas não estavam lá. Lembrou que o universo acabara. Lembrou que ele próprio deveria ter morrido. A dor aumentou. Ouviu um som agudo e persistente que parecia se originar em sua própria respiração.  Aquele som saia de sua boca. Ele chorava. Repentinamente teve o corpo deslocado. Um ser daquele lugar o levou numa viajem alucinada enquanto ele chorava. Colocaram sua boca contra uma parte do corpo de um daqueles seres e ele percebeu que ela se encheu de um líquido que entrava nele e ia gradativamente aliviando a dor que sentia. Aquilo era bom. E surpreso percebeu que de algum lugar naquele ser ele podia ouvir o mesmo som ritmado que acalentara a sua vida antes de vir parar ali. E assim ele dormiu. Quando acordou estava sem dor. E ele estava só.

Ele cresceu naquele novo universo. Cresceu tanto que ficou do tamanho dos seres que já estavam ali antes dele chegar. Ele aprendeu a utilizar o conhecimento deles e um dia foi considerado um deles. Trabalhou como um deles. Viveu como um deles. Ele próprio se uniu a uma das criaturas que se assemelhava com aquela que no início saciou a sua fome e com ela gerou outras menores que se assemelhavam com ele próprio no dia que perdera o seu universo original. Ele se comunicava com todos os outros emitindo os mesmos sons que eles emitiam para transmitir suas idéias. Mas quando ficava imerso em seus próprios pensamentos percebia que estava desconectado de todas aquelas individualidades. Quando ele fechava os olhos o mundo era um abismo. Ele estava na beira daquele abismo. O abismo começava no fim do seu braço e se estendia até o não fim daquele lugar. E ele estava só.

O tempo o arrastou. Ele deixou de correr quando notou que estava perdendo a paisagem. Deixou de procurar quando se deu conta de que o ponto de chegada não ficava em nenhum lugar. Deixou de se preocupar com o mundo quando percebeu que o mundo não se preocupava com nada. E também deixou de fazer perguntas… não por que elas não existissem, mas por que se convenceu de que ninguém teria as respostas. Ele, unicamente, se deixou ficar… a espera de que aquele universo, num determinado momento, também acabasse. Ele permaneceu  na expectativa de que haveria  um outro lugar! Ele era um viajante. E ele estava só.

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9 Comentários em “E ele estava só.”

  1. Franci23 Says:

    E no fim todos iremos ficar sós também.

    • romacof Says:

      Neste ponto há controvérsias. Não cheguei exatamente lá! Como não posso provar o sim e não posso provar o não deixo as elaborações para os convictos. Pongo diz que se o cara seguir o caminho como se não houvesse uma chegada tem menos chances de se decepcionar. Se houver uma festa será uma agradabilíssima surpresa, e um chute no saco de nossa não-fé. Se houver o nada, já era o esperado.

  2. Marcos V. Says:

    Um forasteiro num mundo hostil…quanta heresia, nos ensinaram errado – que éramos os dominadores da terra. Conquistamos tanto, mas no final estamos sós.
    MAs essa busca, tanto material ou metafísica parece que nos proporcionou recursos para que chegássemos aqui e evoluíssemos. Sem isso não aguentaríamos. Uns versos de Stephen Crane, escritor americano (1871/1900) retratam um pouco isso: (a tradução é minha)

    “Eu vi um homem”

    Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
    Em voltas e voltas ele corria.
    Eu fiquei incomodado com isso;
    eu me aproximei do homem,
    “É inútil”, eu disse,
    “Você nunca conseguirá –
    “Você mente”, ele gritou,
    E correu.

    • romacof Says:

      Salve Dom Marcos! Grato pela visita. Faço uma pergunta: sofre mais quem corre atrás do horizonte e ignora a inutilidade de sua sina, ou quem sabe da inutilidade de sua sina e não corre?

      • Marcos V. Says:

        Romacof,

        Os dois, porém eu acredito que quem corre e sabe da inutilidade da sua sina (terceira alternativa)é feliz. Isso porque quem o faz é louco e a loucura nos faz sair da mediocridade e da nossa pretensa importância.
        Abraço.

        • romacof Says:

          Pois acho que há uma quarta alternativa nos arranjos: aquele que nem corre e nem sabe da inutilidade da sina, que é ignorante total, este recebeu a bênção e é totalmente feliz. Também é inútil, mas esta já é outra história. Aquele que corre e sabe da inutilidade, a quem você chama de feliz, segundo a minha ótica é duplamente infeliz. Concordo que entre estes estão os loucos, os visionários conscientes, os artistas inconseqüentes e os profissionais idealistas. A loucura não permite a felicidade, só permite ter a noção de que o momento é único, é agora, e o salto não tem destino. O horizonte do louco nem pode ser compartilhado. É solitário. Ninguém mais o vê a não ser o louco. E ele corre sabedor que sua meta não é alcançável. E ele é triste porque sabe que se ele não correr o mundo acaba.

  3. ( Li ) Says:

    Estamos sós….e somos uma multidão.

    A vida não é o começo nem o fim…é uma estação…na viagem que fazemos pelos planetas.

    Na viagem de reconhecimento que fazemos dentro de nós mesmos.

    A maioria é um ser estranho para si mesmo e também para os outros.

    A maioria não acredita em nada…..nem em si mesmo.

    Essa vida é um momento mágico,fantástico,fabuloso.

  4. ( Li ) Says:

    Sou louca,meu amigo,porque acredito nisso,rs.


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