O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (18 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 18 de 22 (15 de janeiro)

O contra-ataque deixa brechas na defesa, mas dizem que a melhor defesa é o ataque!

Alvin acordou desorientado. Aos poucos todo o peso do mundo voltou a cair sobre sua memória. Quando se levantou viu que Breno já estava acordado e de pé a seu lado. Dormira em algum anexo da catedral. “Como está padre Alvin?”

“Achando que a loucura é uma bênção, padre Breno.” Respondeu Alvin.

“Não me chame de padre. Sou um funcionário da diocese, um policial… de uma equipe especial. A batina é um disfarce. Assim como aquela barba e a tarefa de fotógrafo. Às vezes minha função me obriga a ações que não ficariam bem nas mãos de um padre. Eu e Accioli somos dois dos braços longos de Marco.” Disse Breno. “Nós vamos precisar agir juntos para terminarmos de forma correta esta confusão. Sua cabeça está fria?”

“Fria?”

“Sabe perfeitamente do que estou falando. Fria, falsa, dissimulada, capaz de engolir sapos, mentir, de levar esta tratativa com Lúcio até o fim sem arrancar as tripas dele ao primeiro deboche, que certamente será a tônica da conversa de vocês.” Esclareceu Breno.

“Sou capaz!” Respondeu Alvin sem muita convicção.

“Saiba que Accioli seguiu Lúcio na tarde de ontem. Ele entrou num conjunto de blocos de apartamentos. Desses populares que se transformaram em labirintos. Não foi possível achar o lugar exato em que Lúcio guarda o backup das fotos, mas limitou bastante o perímetro para uma busca futura. O fato é que nós temos duas etapas a cumprir. Primeiro saber o que Lúcio quer, e esta é a sua parte. Depois vamos levar as informações que obtivermos ao conhecimento do chefe para que ele estabeleça qual vai ser o nosso modo de agir.”

“Por que nós simplesmente não acionamos a polícia, prendemos este cara, e terminamos com esta história?” Perguntou Alvin.

“Nesses casos o backup sempre tem uma dupla finalidade. A primeira é não guardar todos os ovos na mesma cesta, e a segunda, se ele for ameaçado realmente pela polícia, ou fisicamente, deixar o guardião do backup encarregado de jogar toda a merda no ventilador, na internet, na mídia, nestes meios sedentos por um escândalo. Não podemos arriscar.”

“Compreendo!” Disse Alvin, aparentemente ganhando lucidez conforme Breno fazia sua explanação simples e direta se uma vida e de um mundo que Alvin não sabia que existia.

“E Eloá?” Perguntou Alvin.

“Eloá pode ser considerada uma vítima, mas ela poderia, em vários momentos ter procurado apoio em pessoas confiáveis e interessadas nela, como em você, por exemplo, mas não o fez. Não é possível saber até que ponto sua formação torta a induziu a compactuar com o que estava sendo armado. Veja o caso do próprio filho! Nós, mesmo sendo homens, ou padres, e não envolvidos diretamente com a maternidade,  ficamos chocados com a tranquilidade com que ela representou aquele teatro de doença, morte e enterro, quando sabia que o filho estava sendo presumivelmente vendido. Isto não é uma reação mentalmente normal, há traços nítidos de psicopatia nas atitudes de Eloá, embora não seja uma usuária de drogas pesadas, como aventou Lúcio. Esta menina é digna de pena. Ela é uma das filhas de nossa sociedade sem ética e sem valores. Dignidade e humanidade não fazer parte de seu vocabulário. O que podemos fazer? O que você pode fazer? De homem para homem eu compreendo de que forma você foi fisgado pela beleza da garota. Ela é lindíssima. Sensual. Mas a palavra dela não é uma moeda estável. É um caso psiquiátrico, e… sinceramente não vejo uma solução. Tenho duas filhas quase da idade dela e fico entristecido com o que acontece com Eloá. Mas esse é o fato, Alvin. Desista. Organize a sua vida. Tome tudo isto como lições duríssimas. Largue a batina se a sua consciência mandar. Dê uma olhada no mundo com os seus novos olhos. Metabolize este pesadelo recente e o transforme em sua armadura pessoal. Você é um homem bom, sincero, honesto e capaz. Não desperdice os seus talentos numa terra infrutífera.”

“Você faz um sermão como um padre.” Conseguiu brincar Alvin.

“Mas não queira estar na minha pele, amigo! Vamos lá que Marco está nos esperando.”

***

Na sala de Marco, ele e outro homem, que deveria ser  Accioli, e que Alvin agora sabia ser do staff paramilitar da diocese, examinavam alguns mapas sobre a mesa. Accioli fazia círculos sobre o mapa e dizia: “Aqui ele entrou por um corredor no terceiro andar e não o vi mais. Não percebeu que estava sendo seguido. A área onde está o equipamento se resume a estes dois andares… 20 apartamentos pequenos, talvez alguns se comuniquem entre si…”

“Já é um começo.” Disse Marco. “E o escritório provisório?”

Accioli olhou para Alvin e nitidamente sonegou informações. “Mobiliado.”

“Veículo?” Insistiu Marco.

“Um Megani preto com os vidros escuros.”

“Produto?” Quis saber Marco.

“De qualidade e suficiente. Acessórios instalados.” Alvin ouvia aquela conversa cifrada e por instantes duvidou se estava na cúria diocesana ou num QG de um serviço de espionagem qualquer.

Marco mudou imediatamente o rumo da conversa e se dirigiu para Alvin: “Alvin, volte para casa! Helena o espera com um lauto quebra-jejum. Não se esqueça que sua pressão subiu e necessitou ser medicado. Fica entre nós o fato de que a pressão foi exercida por nós, e de que você, na verdade, foi dopado. Espero que Breno tenha sido mais útil do que eu ao lhe dar as instruções de como agir. Breno vai ficar lá por perto e em contato com Helena para quaisquer imprevistos. Não bote os pés pelas mãos. Há um gravador sob a mesa. Acione-o. Há também um microfone sob a mesa para que possamos monitorá-lo. Quem tem dois ouvidos tem um. Não olhe para a casa onde está Eloá. Hoje ela não existe, embora você tenha todas as perguntas do mundo para fazer pra ela, estas perguntas só poderão ser feitas amanhã. Hoje você é um soldado. Há uma guerra. Um filho do diabo quer nos preparar um golpe. Vamos descobrir o que é. Vamos à luta!” E se levantou dando por encerrada a preleção.

***

“Viu? não o envenenei com o chá.” “Realmente, e foi um dos melhores que já tomei.” “Quais são os ingredientes? será sua próxima pergunta…” “Adivinhou!” “Bem… espere! as peças não estavam nesta posição!” “Eu estava lá com você… não está insinuando de que eu esteja roubando, afinal esta é uma invenção sua!” “Mas como?” “Ora as peças seguiram seus impulsos conforme o livre arbítrio.” “Isto não faz parte do jogo! vamos voltar os lances.” “De forma alguma… o livre arbítrio ainda é uma prerrogativa de nossos joguetes.” “Maldição!”

Marco não é apenas um bispo. Demonstrou que pode agir como um general quando necessário. Será que realmente tudo foi previsto? O Padre Alvin conseguirá fazer a sua parte? Continua no próximo capítulo.

 (Se você curte histórias que apresentam pontos de vista polêmicos e fazem pensar, visite Pongo)

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4 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (18 de 22))”

  1. camargo Says:

    quantos peões, cavalos e torres existem ao redor desse bispo?

    • romacof Says:

      O bispo é uma peça valiosa, mas com uma limitação: só pode correr pelas diagonais de uma cor. Ele precisa de peões que possam ir às casas da cor oposta à das diagonais a que ele tem acesso! E a vida imita o xadrez!

  2. camargo Says:

    a torre guarda toda a lateral do castelo real; o cavalo é usado para saltar os obstáculos do esporte/caça real; o bispo anda na diagonal, na tangência, olhando cautelosamente e sorrateiramente todo o castelo; a raínha vai a todos os lugares, todas as direções, com poder e trama; o rei tem direito a todas as direções, mas só pode dar um passo de cada vez…
    é, realmente, uma grande imitação da vida.

    mas, mudando de assunto dentro do assunto… to na espera do fim…

    • romacof Says:

      Gostei do desenvolvimento enxadrístico da parábola. É por aí. Estou freando a minha ansiedade e postando regularmente, enquanto a outra está no prelo, e faço um estudo das estatísticas de visitas.

      A título de curiosidade útil (ou de utilidade curiosa!): o pré-título “O Avesso da Pedofilia” aumentou a audiência, mas a colocação de link para o primeiro capítulo, se o leitor quer saber como foi o início, e de um link para o capítulo seguinte, deu um resultado muito melhor. Considerei que afinal as pessoas não tem preguiça de ler e sim de procurar. Estando ao alcance de um clique facilita a viajem.


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