O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (17 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 17 de 22 (ainda janeiro)

A verdade se esconde num emaranhado de mentiras. 

“Isto significa que Dom Marco sabe quais são os planos de Lúcio?” Perguntou Alvin.

“Não totalmente! Vou precisar de uma ajuda sua no fechamento da questão, mas pra isso necessitamos levar esta nossa conversa até o fim.” E Marco tirou um envelope pardo da gaveta e entregou a Alvin. “Dê uma olhada nisso!”

Alvin pegou o envelope e retirou lá de dentro várias fotos feitas numa impressora jato de tinta comum, que o deixaram paralisado. Passou uma por uma, lentamente, não acreditando no que estava vendo. Marco o olhava de forma clínica e pesarosa. Alvin dizia palavras que em qualquer outro contexto não teriam nexo, mas Marco percebeu que elas se referiam às alucinações que Alvin tivera no dia em que fora drogado. “O anjo… a espada de fogo… ele estava lá… ele estava lá… eram flashes! Meu Deus! Como ela permitiu? Como se prestou? Sou um estúpido! Maldito estúpido!” e jogou longe as fotos que provavam que ele e Eloá haviam vivenciado uma tórrida noite de sexo. Alvin enterrou o rosto nas mãos e de lá emitiu um gemido rouco e abafado de um animal mortalmente ferido. Marco colocou a mão gentilmente sobre a cabeça do padre Alvin.

“Isto que você viu…” disse Marco, “… prova que houve um minucioso estudo prévio de sua índole, de seus costumes, de sua vulnerabilidade, e uma arquitetura criminosa em que estas fotos ainda não foram usadas. Podemos dizer que estamos dando um passo à frente. Lúcio ainda pretende usá-las, mas nós não conseguimos chegar ao ponto de entender qual a relação delas com o seu comércio de drogas. Estas fotos estavam sob o colchão do quarto deles. Havia um laptop na casa. Todas estas fotos estavam lá e foram apagadas. Também apagamos filmes com Eloá com os quais Lúcio a chantageava… creia em mim… você não gostaria de vê-los, possivelmente também foram feitos com ela drogada, como você. Você deve saber que antes de serem apagados fizemos uma cópia dos arquivos para fim de… registro, até que todos os nós sejam desatados.”

“Tenho que ir até lá!” Alvin ficou de pé, tonto, desorientado, e caminhou em direção à porta. “Quero olhar nos olhos deles!” Abriu a porta e se confrontou com Breno.

Marco ordenou: “Traga o paciente pra dentro que a cirurgia ainda não acabou.” Alvin se viu arrastado por Breno que o obrigou a voltar para a sala e sentar. Ele parecia ter perdido todas as suas forças.

“Preciso avisar Helena.” Disse Alvin.

“Helena já foi avisada no dia em que foi pra lá. Hoje você vai dormir fora de casa. Se alguém perguntar, Helena vai mentir que você teve uma alteração de pressão e necessitou ser medicado. Mais um pecado em sua conta, embora a explicação seja na verdade uma meia mentira.” Arrematou Marco. “E você, Breno, espere lá fora que a conversa ainda é longa…” Breno serviu água para o bispo e para Alvin e se retirou.

“Desse jeito você não está em condições de me ajudar!” Começou Marco. “Preciso de você orientado, e descansado, nem que seja depois de uma porrada química. Além do mais as dores maiores ainda não foram sentidas…”

“Ainda há mais coisas que eu preciso saber, Dom Marco?” Perguntou Alvin.

“Muitas!” Respondeu Marco

***

Lúcio atirou-se no sofá e encarou Eloá. “Eles mexeram aqui enquanto estávamos envolvidos no bota-fora do júnior.”

“Como você pode ser tão nojento quando fala de nosso filho?” Perguntou Eloá, irritada e andando sem saber o que fazer dentro daquela casa.

Lúcio voltou à carga. “Era! Agora ele está com outras pessoas. Já conversamos sobre isso. Vai ser melhor pra ele. Vida bandida não é saudável pra crianças recém nascidas. Lembra? E o nosso problema imediato agora é outro. O pessoal do padre levou o envelope e apagou os meus arquivos. Está na hora de fazer uma nova cópia para ter a documentação adequada na hora da negociação.”

Eloá ficou quieta. Olhando para a rua. Já era metade da tarde. “Eu vou com você.”

“Você fica aqui. Esperta!” Lúcio lhe deu um beijo na nuca e Eloá se encolheu não escondendo o asco. “Apagaram também as suas fotos, e, se estou certo, estão babando em cima de uma cópia delas a essa hora. Vou no mocó e já recupero o perdido. Se eles voltarem você faz o gênero mãe desesperada e joga o jogo.” E saiu.

***

Helena ligou para Accioli: “Ele está saindo! Ela ficou em casa.” E depois para Marco. “Accioli foi avisado da saída de Lúcio.”

***

Dom Marco atendeu ao telefone e disse: “Obrigado.” Em seguida abriu uma gaveta e tirou de lá uma garrafa de Cointreau. Serviu um cálice e o bebeu em um só gole. “Você não pode! Vai tomar remédio!” Disse para Alvin e guardou a garrafa. “Talvez lhe pareça que eu seja um velho padre insensível que resolveu lhe picotar a alma, mas acredite, embora minha única meta seja dar um fim nesta merda indefinida em que estamos envolvidos com o Sr Lúcio, eu tenho uma profunda simpatia pelo seu estado e gostaria que você não tivesse de passar por isto. Vamos voltar à história. Visitei Jenô. Ela deve ter visto essas fotos. Certamente elas foram mostradas por Lúcio. Isto explica sua fuga desembestada. Deve ter sido ameaçada, ou foi embora com medo de alguma ameaça de escândalo envolvendo você. Breno virou de pernas para o ar o serviço social em busca de uma Brenda depois que Helena telefonou para lá e não a encontrou. Brenda se volatizou, desapareceu, e possivelmente era um nome falso com credenciais falsas. Os exames a que você se submeteu, para descartar a possibilidade de AIDS ou outra doença sexualmente transmissível, incluíam um estudo do seu perfil genético. Este perfil foi comparado com o do recém nascido, colhido quando ele ainda estava no berçário…”

“A criança não chegou a ir para o berçário…”

“Não! Eu quis mesmo dizer berçário, e já chego lá… e não há a mínima possibilidade genética de você ser o pai. E não me interrompa! A criança nasceu sadia, nos nove meses como esperado, entre as 38 e 40 semanas, ou a termo, como os médicos costumam dizer. Os exames durante a gravidez foram realmente feitos, mas a incubadora, a pneumonia, os relatórios de Brenda com todos aqueles detalhes convincentes fizeram parte de um engodo para que você acreditasse numa prematuridade inexistente.”

“Mas… mas nós enterramos uma criança, nós…!”

“Exatamente! Nós enterramos uma criança morta. Mas o filho de Eloá e de Lúcio… veja bem, não o filho de Eloá e de Alvin – esse não existe – o filho que aqueles dois geraram foi adotado ou vendido, e eu peço a Deus para que encontre um lugar digno onde possa se transformar num ser humano. Esse foi um negócio entre Lúcio e Brenda. Eloá foi a parideira sem opções ou, até podemos dizer: sem fazer muito esforço para mudar a situação.”

“Nós choramos, nós velamos…”

“Chega! Mude o disco. Fique indignado, furioso, colérico, e até surpreso se você acha que ainda pode ser surpreendido por essa gente, mas pelo amor de Deus não tenha pena de si próprio.” Completou Marco. “Neste instante tenho alguém na cola de Lúcio, pois não é provável que todas as fotos sejam estas do envelope e as que estavam no laptop com os filmes. Ele deve ter um lugar onde esconde um backup. Estamos tentando desarmá-lo. Se isto não for possível hoje, certamente em breve ele o procurará com uma mostra de seu trabalho fotográfico e vai expor suas condições. Nessa hora você deverá ser uma pedra de gelo. Fingir que esqueceu tudo o que passou. Ser o maior mentiroso sobre a face deste planeta. E saber, afinal, qual é a jogada desse filho da puta, que Deus me perdoe, e me dizer o que ele quer para que eu possa agir.”

***

Naquela noite deram um medicamento para Alvin e ele dormiu num quarto da diocese, como um anestesiado acossado por fantasmas loucos. Marco por via das dúvidas deixou Breno de guarda.

***

“Aceita um tempo, enquanto ele dorme?” “Concordo.” “Proponho um chá.” “Se você provar primeiro!” “Certamente.” “E não se esqueça que eu sei perfeitamente a posição de minhas peças.” “Não duvido disto e nem me passou pela cabeça lográ-lo desta forma.” “Sei, sei!”

 O Padre Alvin foi drogado. Foi vítima de uma simulação que gerou em sua consciência a idéia de que era um pedófilo. Foi fotografado. Sofreu à distância enquanto Eloá gerava uma criança que ele pensava ser o seu filho. Sofreu com a morte da criança. Teve sua alma adulterada, traída, e despedaçada. Ele quer matar Lúcio. Ele quer… ele não sabe o que quer em relação à Eloá. Poderia matá-la também? E agora Marco lhe diz que o jogo não acabou. Que haverá uma provável chantagem. Como pode Alvin participar calmamente dos planos de Marco quando está prestes a explodir? Continua no próximo capítulo.

(Se você curte histórias que apresentam pontos de vista polêmicos e fazem pensar, visite Pongo)

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12 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (17 de 22))”

  1. ( Li ) Says:

    Bravíssimo!!!!

    • romacof Says:

      Li.
      Grato pela audiência (sou do tempo em que só existia o rádio!). Você sabia que as visitas à história de Alvin multiplicaram-se por 10 depois que eu editei o título? (pena que a vida não seja editável!) Antes era “Um jogo com Padre Alvin”, depois passou a ser “O Avesso da Pedofilia.” Coisas curiosas da vida.

      • ( Li ) Says:

        Bom…..eu escutava as novelas de rádio…junto com minha irmã mais velha….que nunca desconfiou que sua irmãzinha soubesse mais da novela do que ela,rs.

        E lia fotonovela…..rs.

        Não lia seu blog antes….por isso não sei do título.

        Na verdade gosto de ler…..papel,de preferência,rs.

        Tenho uns livros …velhos…que não dou,nem empresto.

        Eu também gostaria que a vida fosse uma história onde o final pudesse ser alterado,mas não é.

        Te descobri ….no PENSAR NÃO DÓI….

        • romacof Says:

          Por falar em “Pensar Não Doi” – não sei se você conhece o Arthur – ele pasou na minha casa dia 14.09, rumo à Santa Catarina, postou “Pingar Vodka nos Olhos”, e sumiu. Vinte e três dias sem aparecer no blog é um record para o Arthur. Ficar tanto tempo sem polemizar é algo impensável em se tratando do Arthur. Os que não pingam vodka nos olhos estão ficando preocupados com a sua falta de notícias. (Não pagamos pelas notícias.)

          Também prefiro ler no papel, e gostaria de escrever em papel, mas precisamos nos adaptar ao tempos e aos ventos que sopram.

  2. Franci23 Says:

    É, o Padre Alvin mais uma vez se mostra um pedófilo as avesas. Pedófilo da historia, que o unico ingenuo da saga.

  3. ( Li ) Says:

    Não conheço o Arthur pessoalmente,mas sei quem tem notícias dele.Vou perguntar.

  4. ( Li ) Says:

    Um conhecido me deu notícias do Arthur,fique tranquilo que ele está bem.

    Gratíssima por teres te preocupado com ele….chamo isso de ser …. SER HUMANO (classe “A” )….. o que raramente alguém quer ser.

    Tenhas um ótimo final de semana.


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