O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (16 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 16 de 22 (ainda janeiro)

Como é possível que véus tão finos escondam tantas histórias?

Dois dias depois a notícia caiu sobre a cabeça de Alvin como uma bomba. Talvez a coisa mais triste desde o dia em que encontrou sua mãe agonizante. O menino morrera. O seu filho morrera. Aos olhos de Alvin Eloá estava em estado de choque com o rosto virado para a parede. Ela não olhou nem para ele e nem para Lúcio. Não o deixaram ver o pequeno corpo, num pequeno caixão lacrado pelo risco de contaminação. Não o deixaram chorar a sua dor. Não o deixaram tocar com carinho no rosto de Eloá. O pequeno sem nome, que recebera o rótulo de filho de Eloá e Lúcio e se transformara num frio atestado de óbito, teve um velório rápido na capela do hospital e um enterro formal logo a seguir. Alvin voltou para casa onde uma Helena triste o aguardava com um chá insípido que pretendia fazê-lo descansar. Como se aquilo fosse possível. Como se algum dia pudesse se livrar daquele cansaço e daquela dor.

Eloá e Lúcio se recolheram na casa ao lado. Alvin, sem o filho que Eloá esperava, sentia que qualquer acordo que havia feito com Lúcio não fazia mais sentido. A permanência dele ali não se justificava mais. E, infelizmente, nem a dela. “Hoje não! Mas amanhã vamos ter uma conversa definitiva!” Pensou Alvin.

***

Mas, mal a tarde iniciou, Dom Marco telefonou para Alvin e disse: “Venha cá, padre Alvin. Temos muito que conversar.” Alvin chegou a pensar em dizer: “Não, bispo, hoje não! Hoje estou morrendo! Deixe para outro dia, quando eu já tiver juntado meus ossos.” Mas o senso de obediência em Alvin estava entranhado em sua carne e ele foi ao encontro de Marco.

***

Marco mostrou uma indiferença sóbria frente ao sofrimento do padre. Alvin permanecia estático e mudo e não demonstrava a sua dor, suficientemente dedutível  dos fatos pelos quais passara nos últimos dias. E a função de Marco era agravar as feridas. Certamente Alvin sairia dali sangrando um pouco mais, mas vivo e alerta. Depois que Marco terminasse de lhe arrancar alguns pedaços Alvin estaria paradoxalmente mais completo.

Os dois se sentaram na sala de Marco e o bispo foi direto ao assunto, mas de uma maneira preocupada, como um amigo, ou como um pai: “Sei como você deve estar se sentindo, e você vai ter que ser ainda mais forte para entender as coisas que vou lhe dizer.” Aquele tom amigável não combinava com Marco e isto deixou Alvin absolutamente atento.

“Você sabe…” Continuou Marco, fazendo pausas mais demoradas entre as frases para que Alvin assimilasse cada informação: “… que eu botei meus cães de caça na cola dos pombinhos que fizeram ninho ao lado de sua casa… Agora você vai saber o resultado… Eloá é uma adolescente criada na rua e com a educação que a rua dá… seu senso de consciência, altruísmo, fidelidade, pudor, e essas coisas que valorizamos, é distorcido… ela não é uma pessoa má… talvez possamos dizer que ela seja uma criminosa passiva… isso, uma criminosa por omissão, uma cúmplice, que se acomodou a uma situação criada por uma chantagem… descobrimos qual é o teor dessa chantagem, e vou lhe dizer em breve; tinha que ser forte para mantê-la tão amarrada e fiel ao seu parceiro, Lúcio… esse sim! é um elemento perigoso… seu mundo é o das drogas, qualquer uma…”

Alvin tentou articular alguma coisa em sinal de protesto, mas Marco ergueu a mão e as palavras dele entraram num desvio: “Não posso acreditar que essas coisas estivessem se desenvolvendo na minha cara, Dom Marco, eu…”

“Cale a boca e só escute!” Cortou Marco em seu estilo. “Depois de ouvir tudo você pode até chorar, gritar, ou vomitar, mas agora só abra os seus ouvidos e essa cabeça enfeitiçada pelos lindos olhos de Eloá e preste atenção!”

Alvin suspirou e ficou quieto. Marco bateu com força a mão espalmada sobre a mesa de uma forma que assustou Alvin e continuou: “O cara é um traficante. Bota um aviso de vendido num dos carros da loja em que trabalha e esconde qualquer coisa que foi encomendada nesse carro. O dono da loja não sabe… pensamos em preparar um flagrante e deixá-lo cozinhar um pouco, enjaulado… mas, cá entre nós, na jaula o sistema só iria lhe ensinar o que ele ainda não sabe e o transformaria num criminoso mais completo. Logo ele sairia de lá mais perigoso… claro que com um pouco de sorte Lúcio poderia ser apagado na prisão… E não me olhe com essa cara de bassê! Pois eu ainda não lhe disse por que não preparamos uma armadilha para o Sr. Lúcio!”

“Um traficante?” Murmurou Alvin. “Na minha igreja!”

“Na sua igreja, na minha Igreja, na nossa Santa Igreja Católica.” Marco fez uma pausa e se levantou. “Durante a função hospital, doença da criança, e tudo mais, um… um padre esteve na casa em que eles estão e procurou por drogas que comprometessem o lugar… Nada! Confesso que isso me deixou surpreso! Por que tanto trabalho? Qual é a manobra que esta gente pretende contra você ou contra nós? Até aquele momento ainda estava faltando uma peça nesse quebra cabeça!”

“Estava? Não falta mais?”

“Exatamente!”

***

“Xeque!” “Não cante vantagem. O seu bispo necessita de um tempo para estar na posição certa.” “É uma questão de tempo?” “Tempo temos todo! eles é que não tem! e não se esqueça de que posso aprontar surpresas inesperadas com minha formação muito bem posicionada nesse tabuleiro.”

Como reagirá o Padre Alvin depois de saber que Lúcio é um traficante? Alvin se sentirá justificado num possível ataque contra Lúcio? Esta é toda a verdade que Marco tem para contar a Alvin? Continua no próximo capítulo.

(Se você curte histórias que apresentam pontos de vista polêmicos e fazem pensar, visite Pongo)

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3 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (16 de 22))”

  1. Exaustor_X Says:

    No aguardoooo


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