Os cacófatos do campo.

Cerca, valo.

Lá pros lados de Urubus do Sul é só campo até o fim do mundo; que é onde fica o Uruguai. Por exemplo: pra chegar até a casa da tia Abandono – que ganhara este apelido porque tinha sido abandonada quatro vezes no altar – a gente passava por oito cercas que dividiam os campos dos criadores de gado. Os estancieiros, não felizes com as cercas, faziam um valo fundo de cada lado da cerca. Diziam que era pra drenagem. Eles também diziam que era pro gado não enredar as guampas nos arames e acabar morrendo, mas se a grama das beiradas estivesse verdinha e alta o gado não via o valo e caia. Quando chovia, e o valo ficava a meia de lodo, uma vaca mais desligada se distraia e virava vaca atolada, e acabava morrendo, de qualquer forma, se ninguém fosse puxar o bicho de lá. Nas porteiras os valos eram cobertos por um mata-burro, que servia de ponte para os veículos, mas impedia a passagem do gado. Um dia perguntei pra Abandono porque era mata-burro se ali só tinha gado e ela me respondeu que burro era quem perguntava. A verdade sobre os valos eu soube mais tarde. Quando eles não existiam os espertos mudavam as cercas de lugar e assim aumentavam as suas terras. Uma empurradinha de uns dez metros pra cima de um lindeiro de cinco quilômetros tu já viu! São 5 hectares! Mudar a cerca com os valos realmente ficou mais difícil. Acharam que uma rês perdida aqui e outra ali dava menos prejuízo. Daí vem a cacofonia: “Porque tu chegas sempre atrasado à aula, ô, guri?” “Venho do Urubus do Sul, fessora, é cerca, valo, cerca, valo, que não tem fim!” Coisas do campo.

Toca gado.

Com a tia Abandono morava um mulato grandão e bem escuro. O nome dele era Dirço. Morava no galpão, que a Abandono era virgem. Um dia eu e meu irmão fomos até lá levar uns lençóis de cretone por ordem da minha mãe. Sucede que a Abandono era bamba no bordado vazado que as mulheres gostam nas bainhas dos lençóis. Chamam isto de Richelieu. Eu e o mano passamos pelo último mata-burro e logo depois havia uma cancela que impedia o gado de entrar no azevém. A vara de fora da cancela caiu no barro quando nós a abrimos e como a gente estava com as mãos ocupadas com o tecido branquinho achamos melhor deixar o pau embarrado no chão. Afinal, nós só íamos entregar o cretone e dar no pé. Com a cancela caída surgiu de baixo de um capão umas dez cabeças que eram da Abandono. Até parecia que os bichos haviam adivinhado que a entrada pro azevém estava aberta. Logo atrás veio o Dirço aos berros: “Toca gado, toca gado, toca gado.” Pra quê! Nós dois, moleques, achamos uma graça medonha naquele baita negrão correndo e dizendo que tava cagado. O gado rolou no azevém e a Abandono rolou o marmelo nas nossas pernas. Coisas de guri do campo.

Vez passada.

Um dia a mãe fez umas roscas de aipim e pediu que eu e o mano fôssemos levar pra tia Abandono. Nós, sestrosos, remanchamos o que deu. Lá descansado a mãe fez assoviar no ar uma vara de marmelo e este era o sinal de que a embromação tinha chegado ao fim. Pegamos as roscas e rumamos na direção da casa da Abandono. Entre uma sova e outra a da tia era mais macia. Lá vimos o Dirço cortando cana pra dar pro gado. Nós entregamos o presente da mãe e já íamos embora quando a Abandono nos convidou pra almoçar. O feijão dela era uma fábula. Nisso o Dirço entrou na casa, colocou umas canas descascadas sobre a mesa e largou no ar, sem ser pra ninguém em especial, a dúvida de por que os dois guaipecas haviam rido dele no outro dia. Nós, os estudados, explicamos que ele havia dito um cacófato na vez passada, quando gritara: “Toca gado, toca gado…”. O Dirço fez um “Ah!” de quem entendia, deu uma gargalhada e foi lavar as mãos pra almoçar. Quando voltou fez questão de nos servir e sentamos a mesa. Lá pelas tantas eu quis saber o que era aquilo crocante que havia no feijão, e o Dirço prontamente respondeu: “Cacófato assado”. Coisas da gente do campo.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Contos, Piadas

Tags: , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

3 Comentários em “Os cacófatos do campo.”

  1. ( Li ) Says:

    Linda gente campesina…..da qual faço parte.
    Eu….um bichinho perdido na cidade grande,rs.

    Sou gaúcha dos pampas….carrego o campo no olhar,o gosto da fruta no pé e a liberdade no andar,rs.

  2. ( Li ) Says:

    Nem acredito que escrevi isso….rsrsrsrs


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: