O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (13 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.

Capítulo 13 de 22 (e ainda é novembro)

Um dia o gato mostra ao rato que não está dormindo e nem assim o rato acredita.

Alvin estava lendo no escritório da casa e perdeu a hora. Mas num dado momento o seu estômago reclamou. Olhou para o relógio e viu que já eram quase 10 horas da noite. Jenô não o chamara para a janta? Falara em uma sopa de legumes. Mas primeiro iria cozer pães. Fechou o livro entre curioso e preocupado, pois não era costume da empregada não cumprir os horários que ela mesmo estabelecera já há 4 anos. Foi procurar Jenô. Os pães estavam sobre a mesa. A cozinha esta deserta e não havia sinal ou cheiro de nenhum jantar sendo preparado. Alvin começou a ficar apreensivo. Jenô era uma mulher de 65 anos, mas saudável. A porta de seu quarto estava aberta, a do banheiro também. Procurou-a nos outros quartos e na igreja. Chamou por ela. E como havia luz na casa onde moravam Eloá e Lúcio foi até lá e bateu à porta. Lúcio a abri e exclamou educado e simpático: “Ora, seja bem vindo padre Alvim! Aconteceu alguma coisa? Podemos ser úteis?”

Alvin sentia-se deslocado e aquela era a segunda vez que visitava a velha casa em um só dia depois de não ter ido até lá por meses: “Desculpem-me a hora… vi luzes… não encontro Jenô em parte alguma, pensei… mas certamente ela não está aqui!”

“Mas ela esteve aqui mais cedo. Ela nos trouxe um de seus pães. Não é, Eloá? Mas logo foi embora, sabe, ela não é de muita conversa… quer que eu ajude a procurá-la?” Contemporizou Lúcio demonstrando um tom de preocupação.

“Não! Não! Mas agradeço a oferta.” Disse Alvin. Parecia que iria dizer mais alguma coisa, mas voltou a pedir desculpas e se despediu. Alvin voltou para casa e resolveu procurar algum indício que lhe desse uma pista sobre o paradeiro de Jenô. Os confusos sentimentos de culpa, somados a ida à tarde na casa de Eloá e a inquietação real pela integridade de Jenô, já se misturavam em seus pensamentos e ele foi direto ao quarto da empregada, acendeu as luzes e vasculhou os armários. Eles estavam praticamente vazios. Ela levara tudo que pudesse ser indispensável. Deixara restos desorganizados e coisas maiores, que certamente não seriam abandonadas se não tivesse ocorrido uma saída às pressas. Mas por quê? Por que não comunicara aquela saída intempestiva? Por que não deixara nenhum aviso? Para onde fora Jenô naquela hora da noite? Estaria fugindo? Fugindo do quê, de quem? Estaria fugindo de Alvin? Para não enfrentá-lo? Por que não enfrentá-lo? O que sabia Jenô que a assustara tanto a ponto de fugir do padre com quem vivia há 4 anos? O que soubera? Como soubera? Quem poderia…? Lúcio? Eloá?

Alvin voltou à pequena casa e voltou a bater à porta. Lúcio atendeu. Alvin entrou e encarou o rapaz: “Houve algum tipo de conversa entre vocês e Jenô! Essa é a única explicação. Ela pegou as suas coisas e foi embora. E eu quero saber o teor dessa conversa.” Alvin demonstrava sua irritação de forma aberta, e Lúcio apontou o sofá para que Alvin se sentasse. Os dois por fim se sentaram e Lúcio, de forma calma começou o seu discurso apaziguador:

“Olha! padre! Realmente Jenô esteve aqui, isso faz umas 3 horas ou mais e trouxe um pão como eu lhe disse ainda há pouco. Mas numa coisa eu lhe menti…” Fez uma pausa estudada e olhou para Eloá, que soluçava sentada no outro lado da sala. “Eu disse que ela logo foi embora e pouco falou, mas esta não é a verdade. Jenô disse coisas horríveis para Eloá… inclusive usando palavras que eu nunca imaginei que pudessem ser do repertório de uma senhora que vive numa igreja. Mas num resumo ela foi direta em afirmar que Eloá estava… como foi que ela disse? desvirtuando o seu trabalho como padre, tentando tirá-lo do caminho sacerdotal, que ela sabia de coisas que confirmavam suas afirmações, e coisas desse tipo. Eu procurei defender Eloá e disse que daquela forma ela também me ofendia, pois nós estávamos ali para tentar nos organizar como família, e ter o nosso filho em paz… Eu disse que não tinha o direito de pedir que ela se retirasse, pois esta casa não é minha, mas que não admitia que ela falasse daquela forma da nossa moral. Aí ela se levantou. Estava transtornada! Não é, Eloá? E disse que não era só daqui que ela iria sair, mas da vida de todos nós, e foi porta afora… eu confesso que não acreditei nesse rompante… mas já vi senhoras de meia idade nessas crises, minha mãe era assim… quando o senhor esteve aqui antes achei melhor pular essa parte porque não é do nosso interesse criar atrito entre vocês. Pensei: de certo está na igreja rezando e daqui a pouco fica calma, se arrepende, e amanhã aparece como se nada tivesse acontecido, sei lá… Das outras vezes que ela teve crises parecidas, não como a de hoje, é claro,  no outro dia aparecia com bolinhos e outros agrados! Quem vai entender?”

“Pode ter sido desta forma.” Disse Alvin, sem nunca deixar de olhar diretamente nos olhos de Lúcio.

“E o pior, padre…” Arrematou Lúcio. “… é que nós não sabemos exatamente o que Jenô sabe, ou deixa de saber. Como podemos culpá-la? Talvez ela apareça daqui a pouco, e aí, quem sabe, sentamos todos juntos e esclarecemos as coisas, obviamente evitando aquele assunto que não interessa a mais ninguém, não é verdade? Pode ser, então, que nós dois tenhamos que ir embora… vou fazer o quê?”

“Não…esqueça!” Suspirou Alvin. Já preocupado com a angústia e o choro de Eloá e o mal que aquilo poderia fazer a seu filho. “Vamos tentar dormir e ver como as coisas vão estar amanhã.”

***

E o amanhã veio.  E no segundo dia uma irmã Vicentina apareceu para levar os pertences de Jenô. Desta forma Alvin ficou sabendo onde estava a empregada. Analisou profundamente as atitudes e o olhar da tranquila irmã que viera cumprir aquela missão, mas nada pode apurar que o incriminasse. Não teve coragem de visitar Jenô. Conversar com ela. Saber exatamente o que Jenô sabia.  Telefonou para Marco e comunicou à cúria sobre a saída de Jenoveva. No dia seguinte a diocese lhe enviou uma senhora chamada Helena para ajudá-lo nas funções da casa.

Dom Marco mandou dois envelopes por Helena. Um fechado que não deveria ser aberto. No outro um curto recado. “Alvin. Uma vez que você se expôs ao mosquito da dengue vá amanhã ao laboratório designado no outro envelope e faça os exames de praxe. Não vá vestido como padre. Abraço e bênção. Marco.”

Lúcio conseguiu envolver Alvin em suas mentiras. E qual será o jogo de Eloá? Pelo menos Marco continua, a sua maneira, tentando descobrir o que há por trás do envolvimento de Alvin no suposto caso de pedofilia…  Continua no próximo capítulo.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Alvin, o padre pedófilo., Contos

Tags: , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: