O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (12 de 22))

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Capítulo 12 de 22 (ainda novembro)

O silêncio é a forma mais concreta de alimentar um segredo.

Alvin entrou e ficou de pé com as mãos entre postas e caídas, entre as costas e os bolsos. Olhando para a boca e para os olhos de Eloá. Mas por fim conseguiu emitir um som coerente com sua presença ali. “Brenda me contou as novidades. Fico feliz… por você!”

“Não fica feliz por você?” Perguntou Eloá, no tom que para Alvin sempre pareceu triste.

“Também!… embora…” Titubeou Alvin.

E como o silêncio se prolongasse Eloá completou. “Embora você não entenda o porquê das coisas começaram daquele jeito. Embora você não possa me perdoar. Embora eu não possa lhe explicar…”

“Por que não?” Perguntou Alvin apressado.

“Porque algumas coisas são muito mais complicadas e não cabem numa explicação simples… um dia você vai entender…” E Eloá virou o rosto escondendo uma lágrima que apenas teve o poder de atrair Alvin para que a tocasse, e suas mãos instintivamente procuraram o ventre de Eloá, e ele sentiu como ele era esférico, firme, e ele sabia que ali dentro estava o seu filho, e suas mãos acariciaram aquela criança naquela mulher, com um sentimento totalmente diferente de tudo que já sentira antes. Alvin, naquele momento, percebeu a diferença entre a atração sexual, o amor, o carinho, e o amor paternal. Todas eram formas diferentes de amar. Toda uma gama de sensações conflitantes e complementares num paradoxo que o deixou inebriado.

Alvin conseguiu dizer aquilo que pretendia: “Eloá! Não sei o que acontece comigo! Aquela noite confusa parece tão distante no passado que não consigo mais entendê-la como um pecado ou como um ato de amor. Tudo daquele dia continua sem respostas na minha cabeça. Mas agora só consigo pensar nesta vida que você carrega e na possibilidade de uma vida com você. Estou aqui me expondo. Corro o risco de ouvir de você negativas que me farão sofrer, mas que considero perfeitamente aceitáveis dentro desta… desta teia em que se transformou a nossa vida. Eu preciso de um sinal. Eu vou aguardar ansiosamente o seu sinal para que eu possa definir o meu futuro…” Ficaram em silêncio e ele por fim se afastou do abraço terno e disse: “É isso. Preciso ir. Que Deus a ilumine…” E Eloá se aproximou dele mais uma vez e deu um  lento beijo na boca de Alvin, que se sentiu incendiar, sorriu, e quando percebeu estava sentado em seu escritório na casa paroquial sem saber como suas pernas o haviam levado até lá.

***

No fim da tarde Jenô cozeu pães novos e reservou um para levar para os hóspedes. “Vou pela criança!” Costumava argumentar Jenô consigo mesma para justificar aquelas pequenas condescendências. Uma garoa fina a obrigou a pegar um guarda-chuva.  No pequeno alpendre depositou o pão na amurada para bater à porta sem precisar desarmar o guarda-chuva, e isso lhe deu tempo para ouvir as vozes de Eloá e Lúcio, num tom exaltado, vindas do interior da casa.

“Que lindo! então o padreco veio se declarar. Houve chamegos? Qual foi a tua fala, mulher? Estou mais interessado em saber quais as esperanças que você deu pra ele!” Ironizava Lúcio.

Eloá se defendia entre irritada e chorosa. “Não fiz nada! Eu não disse nada! E você sabia que isso podia acontecer… e isto agora é uma demonstração de ciúmes? Ora, Lúcio, a quem você quer enganar? Estamos nessa conforme o combinado. Você me usa e eu faço a minha parte. E é só! Quero distância de você e de seus negócios.”

E Lúcio continuava em tom de deboche. “Os meus negócios, podres ou não, estão alimentando você, garota! E esteja convencida: quando a coisa estourar é bom ficar do lado do velho e conhecido Lúcio, pois o padreco não vai querer você nem pintada de ouro…”

“Ora, cale essa boca!” Pediu Eloá.

Lúcio ria e atormentava ainda mais Eloá que agora chorava: “Mas não é que a putinha está apegada ao coroa! Que coisa mais amorosa! cai na real, Eloá.”

“Lúcio! Chega de chantagens! Já fiz tudo que você queria. Você pode seguir sozinho daqui pra frente. Faça o que quiser, mas me deixe em paz…!”

“Quieta!” Sussurrou Lúcio de forma imperativa. E abriu a porta a tempo de ver Jenô voltar apressada para a casa paroquial. Ela deixara cair o guarda-chuva e esquecera o pão no alpendre. “Merda! A velha deve ter ouvido alguma coisa. Não saia daqui! eu já volto.” E saiu correndo tentando alcançar Jenô, que com os olhos muito abertos e o coração aos pulos já abrira a porta da casa quando sentiu a mão de Lúcio agarrar firmemente o seu cotovelo. “Vamos dar uma chegada lá em casa, titia!”

“Me solta.” Gemeu a mulher tentando resistir à dor que Lúcio lhe causava pressionando o braço.

“Venha e nada vai lhe acontecer. Eu lhe prometo. Queremos agradecer o pão, e lhe contar umas coisas que a senhora merece saber para deixar de ser enganada.” Disse suavemente Lúcio no ouvido de Jenô, ao mesmo tempo em que aumentava a pressão sobre o braço e lhe arrastava para a outra casa.

Jenô ficou muda. Deixou que Lúcio a levasse. Ele a atirou no sofá da sala. Jenô sentia dor no cotovelo e tinha medo de que Lúcio a machucasse ainda mais. Não conseguia compor uma ideia completa em sua mente sobre a conversa que ouvira. Alvin se declarara à Eloá? Lúcio era um criminoso? Eloá e Lúcio de alguma forma trabalhavam juntos? Eloá tinha pretensões de conquistar Alvin. Eloá era chantageada por Lúcio? Havia um plano… para “quando a coisa estourar”? Como aquilo podia estar acontecendo ali, naquela casa, naquela igreja? Lúcio disse rispidamente para Eloá: “Traga o envelope que está sob o colchão.” Quando ela trouxe o envelope ele fez um gesto grosseiro e acrescentou. “Vá para o quarto e só saia de lá quando eu mandar!” Depois acavalou-se em uma cadeira de frente para Jenô e lhe entregou o envelope: “Dê uma olhada nisso. E pese bem suas atitudes a seguir. Eu lhe aconselharia a arrumar a mala e dar o fora daqui, caso contrário amanhã todos os queridos paroquianos receberão um envelope igual a esse.”

Jenô pegou o envelope e pareceu pesá-lo em suas mãos. Qual seria o conteúdo? O que aquele homem traiçoeiro e de fala macia estava tramando? Muito lentamente Jenô abriu o envelope e avaliou as folhas impressas. Suas mãos tremiam. Ela não sabia se chorava ou se saia correndo dali. Na visão de Jenoveva ela via o inferno. Por fim fechou os olhos por um longo momento enquanto Lúcio, sorridente, permanecia a sua frente, analisando as reações da velha senhora. Jenô disse: “Eu vou embora hoje! Agora! Mas me diga… por que você me mostrou… isso?”

“Para poder me livrar de você sem ter que matá-la.” Respondeu Lúcio sorrindo e olhando nos olhos de Jenô.

***

“Que maldade.” “Eu diria legítima defesa.” “Uma defesa ilegítima, você quer dizer.” “Sempre uma defesa contra uma peça mal colocada num momento inapropriado.” “Uma peça importante! fundamental!” “Não se queixe; isto é do jogo; eu diria que é uma mera perda de qualidade.”

O que é isto? Lúcio mostrou a sua verdadeira face! Afinal, Marco tinha razão! O que havia no envelope para apavorar Jenô? Alguém precisa avisar Alvin. Continua no próximo capítulo.

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