O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (11 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 11 de 22 (novembro)

O problema da ampulheta é que a areia num dado momento acaba.

Era meio de novembro e já fazia quatro meses que Eloá e Lúcio moravam na casa ao lado da igreja. Embora a primavera se fizesse anunciar nas flores e nos pássaros os últimos dias permaneciam frios, para angústia de Alvin que mal vislumbrava a proeminência do abdômen de Eloá, tentando imaginar o pequeno ser humano que ela carregava. Seria um menino? Seria uma menina? Ela já completara 5 meses de gravidez. Mas de que adiantavam seus devaneios se o filho era de Lúcio pelo acordo que salvara sua pele? Talvez aquele acordo pudesse ser rompido. Sua consciência gritava a todo instante de que deveria expor suas aflições a Dom Marco, desligar-se da igreja como sacerdote, assumir a paternidade do filho de Eloá, e por ordem em seus sentimentos. Mas havia Lúcio como um elemento a ser equacionado. Se ele fosse embora! Se ele desaparecesse! Será que era isso que a mente racional de Alvin realmente queria?

***

Brenda levara Eloá para fazer uma ecografia. Alvin, de seu posto de observação viu quando as duas voltaram sorridentes. Lúcio não estava. Agora trabalhava regularmente numa revendedora de carros. Alvin teve que se conter para não ir até a casa para saber as novidades sobre a gravidez. Aguardou impacientemente a visita da assistente social. Parecia que desta vez as duas não tinham pressa em terminar a alegre conversa que as intertinha desde o posto médico. “Pelo menos…” Pensou. “… se estão felizes as notícias devem ser boas. Pediu um café para Jenô e disse que se alguém o procurasse estaria na secretaria da casa paroquial.

Jenô levou o café e duas xícaras. “Por que duas xícaras?” perguntou Alvin.

“A amiga de sua protegida está vindo aí.” Respondeu Jenô.

“Amiga?” Criticou Alvin. “Ela é a assistente social.”

“E amiga…!” Completou Jenô e saiu.

Brenda chegou logo depois e disse para o padre Alvin: “Hoje, padre, só trago boas novas! A última consulta de Eloá com o psiquiatra foi muito positiva. Ela não demonstra nenhum sinal de dependência química. Está totalmente focada na gravidez, e, se não fosse esse cuidado todo que estamos tendo para que ela permaneça num ambiente controlado, poderia estar trabalhando. Não recomendei esse passo, agora, porque ela, como nós sabemos, é uma menina frágil emocionalmente… e a prioridade é a gestação… e falando em gestação devo dizer que estou muito feliz… e aliviada… confesso que eu tinha certos receios sobre a saúde do feto tendo em vista os antecedentes incertos de nossa pequena paciente, mas nossas orações foram ouvidas e tanto a ecografia como a amniocentese mostraram um menino saudável de quase 24 semanas…!” Alvin não ouviu mais nada. Era um menino. Era saudável. E a matemática instantânea que ligava todos os seus pensamentos ao dia 05 de junho colou um grande cartaz entre seus olhos: “Alvin! Você é o pai.” Estava feliz? Estava atordoado? Já não era uma certeza?

Ainda perguntou: “Para quando está previsto o parto?”

E Brenda consultou seus papéis e respondeu: “A data da última menstruação referida por Eloá foi em… 18 de maio… a ginecologista havia dado como data provável do parto o dia 28 de fevereiro, o que fecha com a avaliação pela eco. Como é primigesta e muito novinha é bem possível que isso ocorra umas duas semanas antes, e talvez se opte por uma cesárea, mas  só o tempo pode dizer… o importante padre… ah! o senhor nem pode imaginar… não me canso de dizer… Deus seja louvado! O menino é perfeito! Se o padre quiser cópias dos exames é só me pedir. Ainda tenho que fazer o relatório.” Alvin sorriu concordando com a assistente e ela continuou: “Agora preciso ir! Tenho outras eloás para acompanhar.” E sorriu. “O mundo está cheio de casos mal resolvidos, padre Alvin!”

“Imagino!” Disse Alvin com um sorriso triste enquanto cumprimentava Brenda que logo depois partiu em uma nova missão. Alvin voltou a sentar em seu escritório, sentindo o perfume de Brenda misturado ao cheiro de café e pegou uma calculadora. “Quarenta menos vinte e quatro igual a dezesseis. Talvez menos duas semanas já são quatorze. Quatorze dividido por quatro vírgula três igual a… um pouco mais de três meses. Cem dias.”

***

Na manhã seguinte Alvin tomou uma decisão. Lúcio pegou um ônibus, agora trajado como um executivo de fachada, e partiu para o negócio de carros, que bem ou mal alimentava sua pequena família. Havia uma feira a quatro quadras da igreja e Jenô munida de um carrinho saiu resmungando algo sobre estar na hora de comer mais verduras.

Alvin atravessou o espaço entre as duas casas e se deu conta de que a última vez em que estivera ali foi no dia em que fizera o acordo com Lúcio. Sentia-se estranho batendo na porta de uma casa que era sua. Eloá abriu a porta. Alvin foi acometido por aquele desconforto no peito, em que o coração queria sair correndo, por ter esquecido o arremedo de discurso, ou por não saber qual seria a reação de Eloá quando ele dissesse aquilo que iria, afinal, sair de sua boca. Um adolescente irritado com sua reação hormonal e feliz por tê-la. Um padre que desconhecia aquele sentimento até poucos meses atrás. Um padre dividido entre um plano de vida e uma vida sem planos.

“Entre, padre! Pensei que nunca viria me visitar!” Disse Eloá.

***

“Xeque!” “Prematuro e sem consistência.” “Um xeque é um xeque e o obriga a apenas uma resposta.” “Hum! poço deslocar o rei, interpor uma peça, tomar a sua; vejo três respostas e com alternativas.” “Mas apenas uma leva à variante segura!”

Lúcio passou a ser uma pedra no caminho de Alvin. Uma pedra para ser removida. O que será que Alvin foi fazer na casa de Eloá? Assediá-la?  Continua no próximo capítulo.

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6 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (11 de 22))”

  1. Franci23 Says:

    Nao vejo uma variante segura nesse caso. O Padre ta e fudido!

  2. camargo Says:

    mente de ficcionista… tem idéias aqui de possibilidades muito interessantes, mas deixa quieto e vamos ver o que vem… esse bispo… ah! esse bispo…

    • romacof Says:

      A castidade de Alvin foi o elemento ficcional em torno do qual roda a trama. Eloá é assim, ou era quando a conheci. O bispo existe… embora nos capítulos finais ele seja mais como eu gostaria e não como ele realmente é. Jenô existiu, igualzinha, mas já faleceu. Brendas conheço várias. (A última depois que já havia terminado de escrever a história!!!). Lúcios todos nós conhecemos. Nada se inventa. Só se embaralha a realidade e relata. Fico curioso em saber quais os desdobramentos que Dom Camargo vislumbra a partir deste ponto. Quando falo sobre “tocar piano a quatro mãos” (não que eu seja ambidestro) me refiro exatamente a esta possibilidade. Não saberia dizer quantas meias histórias eu tenho no meu “HD” a espera de alguém que finalize. Ou de finais interessantes para histórias que não existem…

  3. camargo Says:

    podemos fazer uma experiência. Já fiz isso certa vez e ficou uma história curiosa. Um começava, e ia intercalando os capítulos…

    • romacof Says:

      Quem sabe um dia!
      Curiosidades: O WordPress tem um sistema de controle estatístico bastante complexo que me dá as visitas diárias ao blog e quais posts estão “bombando”. Depois da mudança do título para “O avesso da podofilia” houve um salto significativo na audiência o que prova que: 1) um título atrativo que esteja “rolando” nos motores de busca chama mais viajantes, e 2) títulos com cotonações sexuais idem. Tanto que “Calcinhas comestíveis…” é frequentemente visitado embora trate de política. Já postei o capítulo 12.
      Os comentários do Franci afirmam que o padre está fodido sob qualquer análise. Bem… literalmente ele já foi! Resta saber se algumas das loucuras ainda não reveladas pode ou não ser uma tábua de salvação.! Saudações.


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