O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (7 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 7 de 22 (06 de julho)

Os diálogos interiores são os mais reveladores… os mais esquizofrênicos… os mais normais.

“Alvin, Alvin! Você não sabe o significado de me-ligue-imediatamente?” Marco caminhava apressado de um lado para outro, em sua pequena sala espartana. “Grávida?” Outra pausa e levantava as mãos para o céu. “Dezesseis anos!” E depois parava na frente de Alvin com as mãos postas e completava: “O grande detetive foi fazer uma investigação por sua conta e risco! Pensa que eu sou idiota? Você está fisgado por essa louca. E ainda há muita coisa faltando nessa história.” Marco parou repentinamente e com uma mão na testa arremedou a voz de Alvin com um tom melodramático que poderia ser risível não fosse a gravidade da situação. “Eu fiquei com muita pena do pobre rapaz! Ora, Alvin, abra os olhos! Não há inocentes do lado de cá do inferno… com exceção, talvez de você, transbordante dessa sua inocência burra! E não me interrompa! Este é o meu processo de pensamento. Estou tentando ajudá-lo, embora pareça que eu queira lhe tirar as tripas. Estou espremendo os fatos para ver se faço uma limonada desta bosta toda que você foi arranjar. Não acredito! Não me faltava mais nada. Um padre drogado, seduzido e violentado talvez tenha engravidado uma menor de idade. Nem o diabo acreditaria nessa história. Só eu e Deus. Ele que me perdoe, mas, apenas um imbecil apostaria suas fichas na veracidade de sua versão. Eu sou esse imbecil. Deus tudo sabe e está com uma colossal vantagem sobre mim. Eu espero estar do lado certo, Alvin! Pois… caso contrário… vou arrancar o seu couro pelas orelhas antes de entregá-lo pessoalmente ao demônio para que o cozinhe.”

Alvin permaneceu imobilizado na cadeira sem ter ou saber o que falar. Não admitia estar envolvido afetivamente com Eloá. Tinha consciência de que sentimentos estranhos e confusos o assaltavam em relação a ela, mas não conseguia conceituá-los. Sentia raiva. Sentiria atração física? Sentia medo. Mas aquilo não era amor. O que era aquilo que Alvin sentia?

“Pode.” Dom Marco falava agora pausadamente e dando ênfase a cada palavra para que Alvin prestasse muita atenção ao que estava sendo dito. “Pode, repito, que as lágrimas e os lamentos sejam sinceros, do que duvido. Nesse caso é possível que a pombinha voe para junto de seu amado e façam um ninho e criem essa criança. Que ironia os nomes dessas criaturas: Eloá e Lúcio. E você abra suas orelhas e ouvidos e fique atento para qualquer manobra de reaproximação. Nesse caso quero saber i-me-di-a-ta-men-te, por aquele aparelhinho que Meuci vendeu para o Graham Bell. Sempre partindo da premissa de que você, até agora, me disse apenas a verdade, com exceção, é claro, dos seus sentimentos para com a moça, mas isto, eu vou desconsiderar, pois você é um ignorante ou um neófito no assunto e ainda está perturbado. A principal questão em aberto é qual é a verdadeira intenção da pequena libertina e qual o envolvimento do namorado nesse enredo. Algo me diz que o próximo passo envolverá chantagem. Vamos ser obrigados a esperar pra ver. Você sabia que os bispos também têm saco? Em princípio não são usados, mas o meu está cheio dessa novela. Por favor! Não banque o adolescente, Alvin. E caia fora da minha sala porque eu preciso lavar a minha boca, rezar, e pedir perdão pelos pecados que ainda vou ter que cometer. Rua!”

***

Alvin foi até o estacionamento e entrou no carro, mas ficou sentado olhando para o nada. Um monólogo alucinado ocupava a sua mente: “Onde foi parar aquele homem reto em seus ideais que um dia disse para sua mãe que queria ser padre?” “Cai na real, ô panaca! você realmente acha que a retidão dos ideais de um menino fedendo à fralda vai durar até os quarenta?” “Não sou tão inocente a ponto de desconsiderar a vida e a experiência como elementos modificadores da personalidade do ser humano…” “Que experiência? Você acha que a vida num claustro pode ser chamada de vida? Qualquer moleque de rua já viu mais podridão do que você em todas as suas horas de mentiras maquiadas escutadas em confessionário.” “Eu respondi a uma vocação legítima e o meu preparo para o sacerdócio foi rico em estudos e orações e em…” “E em, e em, e em vazio! Cego! Estúpido! E pretensioso! Quem lhe garante que a sua alegada vocação sacerdotal não é o resultado de um engodo religioso? Pode ter sido apenas uma ilusão, uma comunicação alucinada com o divino, um erro de interpretação de um rapazola inexperiente, e aflito para agradar a mãezinha?” “Não! Uma vocação não pode ser simplificada de forma tão rasteira, não é assim que as coisas acontecem!” “Como é que elas acontecem então, grande filósofo?” “É um sentimento que preenche a alma, que transborda numa sensação inexplicável em que só interessa a entrega!” “Ah! O mesmo que você sente por Eloá?” “Como?” “Não há meias palavras. Não há como engolir o que você acabou de dizer! Foi você mesmo quem definiu vocação!” “Não!” “É, Alvin, você pode ter estado equivocado até agora e não está percebendo o seu verdadeiro chamado!” “Isto não pode ser verdade!” “Pense um pouco! Não tenha pressa. Mas não pense demais. Você não tem nove meses para pendurar a batina.” “Mas, mas eu tentei! Dom Marco me mandou calar a boca!” “Não é Dom Marco quem deve dar a última palavra sobre este assunto, e você sabe disto, perfeitamente…” “Mas qual é a intenção dele? Há momentos em que não entendo suas reações!” “Dom Marco é um administrador, ele vai espichar esta corda pra ver onde vai dar. Você sabe, bem lá no fundo, quais são as intenções do bispo: salvar o próprio rabo… e o da igreja!” “Como pode…?” “Caia na real, Alvin, estas palavras estão dentro da sua cabeça, são conclusões suas; fique esperto, pode estar chegando a hora de mudar de lado!” “E Eloá, por que toda a encenação?” “Bem! Este é um ponto a ser esclarecido! Talvez ela esteja apaixonada por você! Talvez tenha usado de meios extremos porque sabia que você nunca a aceitaria de uma forma natural. Talvez ela só queira um filho seu! Talvez ela seja louca, uma psicopata. Ou, quem sabe, como disse Jenô, ela seja o mal!” “Eu devo estar ficando louco dialogando comigo mesmo.” “Você está é acordando pra vida, porque este diálogo sempre esteve aqui, mas você estava surdo, Alvin.”

***

“Ora, ora, ele não é de todo parvo!” “Dê um desconto, ele ficou em choque após os primeiros acontecimentos, afinal toda a sua vida havia sido estruturada em premissas que foram seriamente abaladas.” “Não vai protegê-lo agora.” “De forma alguma – jogo é jogo – mas quero localizá-lo bem para poder pregar o seu cavalo.” “Hum!”

A situação de Alvin é como a do mexilhão. Ele está grudado em sua consciência e na lógica de Marco, mas assaltado por um mar de sentimentos. Uma hora ele vai ter que optar.  Continua no próximo capítulo.

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9 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (7 de 22))”

  1. Franci23 Says:

    Padres e adolescentes sempre combinaram.

    • romacof Says:

      ACHEI!!!!!! Eu sabia que havia mais um leitor assíduo! Mudei o título para ver se aumento a audiência… cheguei a pensar numa mudança radical do tipo: “A menininha padrófila e o pobre padre Alvin”, mas aí eu seria o responsável por vários nós na língua com “padró…pobre…padre”, e desisti…! 🙂

  2. camargo Says:

    há pensamentos literários oriçados em minha mente, mas vou deixar para o final.

  3. camargo Says:

    está ótimo. O conflito interior sufoca o exterior literariamente, fazendo com que se oculte ainda mais as possibilidades de futuro da trama.

  4. camargo Says:

    ocultar possibilidades de enredo é como colocar um pano sobre uma mesa cheia de jóias. Elas estão lá, podem ser lindas, mas a gente não sabe. Fica na tua mão, quando, quanto e como mostrá-las. Isso é bom, porque condensa o assunto com grandes possibilidades de surpresas, ou reversões de expectativa. Este sufocamento do interior pelo exterior é uma ótima condensação para o futuro. Este termo condensação, é muito usado no teatro, quando o ator (e não tanto o texto) prepara o público para alguma revelação (se eu estiver ensinando o ex padre rezar a missa, milhões de perdões).

  5. Exaustor_X Says:

    Exelente texto, essa guerra interior e muito comum em homosapiens carregado de ideais, e quando há o choque do que se acredita com o meio em que se vive acontece isso, um conflito interno entre dois enormes monstros, a consiência do que se pensa que é certo e a realidade emque se esta vivendo. Parabéns pelo texto, é impressionante.


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