O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (8 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

 Capítulo 8 de 22 (10 de julho)

O melhor negócio é aquele em que as duas partes perdem alguma coisa!

Alvin, num frio fim de tarde, lembrou que desde que sua vida mudara daquela forma tempestuosa nunca mais voltara a sentar na pequena sala da casa que fora de sua mãe. Ao entrar percebeu que Jenô andara por ali mantendo tudo limpo como ele gostava. Sentou no velho sofá e pensou em iniciar uma conversa com Deus. Pensou em acertar as contas com seu Patrão. Iria abandonar o ofício. Iria procurar um retiro espiritual de um mês, quem sabe, na casa dos padres velhos. Depois procuraria Eloá e iniciaria as conversações que definiriam suas novas obrigações às quais não se permitiria fugir. Aquela deveria ser a vontade de Deus, pois todos os acontecimentos se encadeavam transformando-se numa poderosa seta que apontava numa só direção. Não havia saída. Ele fora um elemento passivo num destino que não planejara. Talvez Deus tivesse reservado o amor daquela mulher para a segunda metade da sua vida. Talvez a paternidade o redimisse. Talvez tudo estivesse errado, mas ele teria que procurar acertar, corrigir, melhorar, e entender.

Teve um sobressalto quando alguém bateu na vidraça para lhe chamar a atenção. Era Lúcio. “Lúcio? Aqui?” Alvin não queria ter aquele contato. Preferia a paz falsa do lugar mesclada com o tormento de estar conversando com um Deus que se mostrava alheio ao seu drama ou testando a sua fé. No momento amargamente reconfortante, em que pesava suas traumáticas decisões, mesmo enquadrando aquele monólogo como um sonho místico sem sentido, o que menos ele desejava era um reencontro com o namorado de Eloá. Parecia que a cada momento ele era avaliado de uma forma que o surpreendia. “Até quando, meu Pai?”

Mecanicamente Alvin se ergueu, abriu a porta e disse: “Entre!” O outro, com as mãos nos bolsos de trás de uma calça gins surrada, entrou e permaneceu de pé, sem saber se podia sentar ou o que deveria dizer. Alvin percebeu o desconforto de Lúcio e disse: “Sente! Aqui podemos conversar sem sermos interrompidos.”

Lúcio sentou sem tirar as mãos dos bolsos, ao jeito dos jovens inseguros, e por fim disse: “A senhora disse que eu lhe encontraria aqui…”

“Sim!”

“Eu estive pensando… depois que o senhor saiu lá de casa… eu fui grosseiro, eu sei! Tente compreender, o senhor disse coisas que me tiraram do sério… mas eu ia dizendo que pensei bem e conclui que nós dois temos um problema, e… é possível que um ajude o outro, afinal!”

O rumo da conversa era totalmente imprevisível. Alvin prestava muita atenção no que o rapaz dizia. Optou por ficar mudo, com as mãos cruzadas, olhando fixamente para Lúcio, que não o encarava, e olhava ora pela janela, ora para os pés, sentado muito na beira de uma cadeira. Lúcio continuou emendando as palavras que aparentemente ensaiara antes de chegar até ali. Aos olhos de Alvin demonstrava timidez, mas parecia sincero. “O senhor disse que foi drogado… e então eu pensei… em se tratando de Eloá isto não é impossível!” Alvin aprumou mais o corpo e percebeu ali a possibilidade de uma tábua de salvação, mas permaneceu sem dizer uma palavra. “Eu gosto muito dela, padre. Ela me enfeitiçou com aquele jeito dela que… bem, o senhor sabe do que eu estou falando, e eu tentei forçar a barra, sabe , nós somos jovens, eu queria transar com ela, mas ela foi categórica, não consegui me aproximar muito, e fiquei louco, mas ao mesmo tempo achei aquilo bonito… ela queria, dizia que queria casar virgem.” O rapaz suspirou e foi até a janela e continuou como se falasse para as luzes públicas que estavam sendo acesas pela noite. “Estupidez a minha acreditar nela. Aí a doida me aparece grávida do… de você! Ela já havia usado drogas. Eu juntei os pedaços e acredito que afinal o padre não tenha mentido quando me disse que foi drogado… mas o fato é que assim ela arruinou o… trabalho do senhor, sei lá… destruiu os meus sonhos, e até a vida dela.”

Como um longo mutismo se seguiu e estava ficando muito escuro Alvin acendeu as luzes da sala e da rua. Viu pela janela que Jenô perambulava pela cozinha da casa paroquial certamente curiosa com aquele encontro do padre com o rapaz desconhecido. E resolveu dar um pequeno empurrão na objetividade da conversa: “Você disse que nós poderíamos nos ajudar… não consigo vislumbrar essa possibilidade, Lúcio!”

Lúcio encarou Alvin pela primeira vez. Agora olhando nos olhos do padre. Parecia que afinal conseguira chegar ao ponto para o qual se preparara. “Padre! Sei, percebo, sinto que o senhor, de uma forma só sua, gosta de Eloá, não há como não gostar dela. Sei que esse gostar não pode tomar a forma de um relacionamento como um homem e uma mulher, por vários motivos, sendo o principal o fato de o senhor ser um padre de uns 35 a 40 anos e ela uma menina de 16. Nós sabemos que ela precisa de tratamento. Ela precisa ser observada, receber carinho, ser protegida, e ainda mais agora que está grávida… eu proponho uma troca.”

Alvin ficou totalmente alerta. “Que troca?”

Lúcio fez sua proposta: “Eu assumo o seu filho, assumo o papel de pai, e assim posso ficar junto de Eloá como protetor, como um irmão, na esperança de que ela um dia me aceite como marido. E o senhor nos consegue um lugar onde ela possa ter o seu filho, longe daquela favela imunda. Onde ela possa permanecer em segurança e vigiada enquanto eu trabalho.”

A mente de Alvin equacionava febrilmente todas aquelas informações: “Um pai para o meu filho. Eu continuo como padre. Eloá necessita de um tratamento. Que tratamento? Ela ainda usaria drogas? Onde seria esse lugar para que meu filho possa nascer e ser acalentado?” E perguntou para Lúcio: “Onde seria esse lugar?” Mas já sabia a resposta.

“Aqui!” Disse Lúcio.

***

“Está cravado!” “Roque!” “Ah! mas é um roque muito debilitado e a grande diagonal ainda é minha.” “E a coluna aberta? dominada pelo meu par de torres, não conta?” “Mas o centro é meu.” “Em termos, pois posso atacar o seu peão da base.” “Equilíbrio, então?” “Não deixa de ser… mas por pouco tempo.”

Alvin ajuda Lúcio e ele o livra do emaranhado em que virou a sua vida? Mas como será a vida de Alvin com Eloá morando ao lado? Será que Alvin sente ciúmes de Lúcio?  Continua no próximo capítulo.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Alvin, o padre pedófilo., Contos

Tags: , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

2 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (8 de 22))”

  1. camargo Says:

    é interessante saber que a história é real e, ao mesmo tempo, o mundo interior, os devaneios, as possibilidades, não têm como ser totalmente real, mesmo que fosse contado como uma lembrança ditada por alguém ao escritor. Porque aí entra a interferência que o escritor pode dar à história, ao menos se quiser manter os fatos dentro da realidade ocorrida Os dilemas interiores ganham o inebriante traço do artista, vertendo sua visão a nos, os cegos, dela sedentos.

    • romacof Says:

      Isto ficou bonito, cara! Fiquei emocionado. Amanhã sai o nono capítulo. Curiosidade: a mudança do título aumentou a audiência. A cor do pacote de presente pode vender até merda!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: