O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (6 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 6 de 22 (4 de julho)

Caro Dr. Camargo! Pelas estatísticas o senhor talvez seja o único leitor desta mini-novela blogada. Ela trata da pedofilia, da consciência de um padre, da inocência como teatro, do jogo entre deus e o demônio, e dos bastidores da igreja.

Está sendo um estrondoso fracasso de “audiência” pelas estatísticas do WordPress. Os viajantes gostam de ler textos curtos com significados duplos ou cáusticos. Coisa comprida dá sono.

Com Pongo já foi assim! E olha que ele até tentou mijar numa freira, cruxificou a religião, e enfiou uma banana nos três poderes.

xxx

Não basta um bom equipamento e a isca certa. O segredo do pescador é a paciência.

No dia seguinte ao inesperado encontro com Eloá, Alvin pensou em telefonar para Marco, mas sua mente aflita considerou que antes necessitava saber todos os detalhes daquela história. Havia uma gravidez. Havia um namorado de Eloá. “Meu namorado não me quer mais depois que soube que estou grávida!” Onde cada elemento se encaixava em sua própria história? Eloá contara para o namorado que havia drogado um padre, se relacionara sexualmente com ele e engravidara. Onde estava a lógica de toda essa loucura? E se estava grávida realmente como ter certeza de que a gravidez era resultado daquela noite absurda? Até onde o poço em que se tornara a sua vida se aprofundaria levando-o para uma dimensão sem volta?

Alvin foi ao serviço social da comunidade e a funcionária lhe forneceu as informações de que precisava. Eloá, levada por Jenô, estivera ali, já fazia um mês, fora encaminhada para um trabalho em um supermercado, como empacotadora, e o serviço providenciara abrigo em um albergue enquanto ela não conseguisse uma moradia fixa. Ela deveria ter retornado para receber outras orientações, mas não retornara.

No supermercado lhe disseram que Eloá trabalhara por quatro dias e fora embora alegando que não se adaptara àquela tarefa. Como viera recomendada do serviço social e estava sendo experimentada não chegaram a fazer um cadastro como funcionária efetiva, tendo poucos dados sobre ela. Apenas confirmaram que sua moradia era o albergue do bairro

A senhora que gerenciava o albergue disse a Alvin que Eloá havia permanecido no albergue por pouco tempo. Acrescentou que ela fora muito gentil e grata pela acolhida e no quinto dia comunicou que já tinha um lugar para morar e foi embora. A gerente cobrara de Eloá o novo endereço, pois necessitaria ter esta informação caso a assistência social requisitasse. Foi assim que Alvin recebeu um pedaço de papel onde estava escrito o nome de uma rua e um número. Naquele endereço estava a única ponte com a mulher que destruíra sua vida e talvez carregasse no ventre um filho seu.

***

O pequeno pedaço de papel levou Alvin ao outro extremo da cidade, num bairro muito pobre de ruas barrentas e estreitas. As casas eram minúsculas e o alarido de crianças se misturava com o latido dos cães. Alvin vestia uma clergyman e sua presença se transformou na curiosidade popular da vila. Algumas crianças e adolescentes começaram a segui-lo. As ruas não tinham placas e as casas não eram numeradas. Logo percebeu que teria que pedir auxílio para algum membro do seu indesejado séquito. Surpreso descobriu que todos eram muitos solícitos e que conheciam aquele mundo muito melhor do que ele. Rapidamente foi levado para uma pequena casa nos fundos de um quintal de outra que não era maior. Agradeceu e teve que pedir aos garotos que o deixassem sozinho para poder chegar até o endereço de Eloá sem estar acompanhado pela pequena turba. Bateu à porta.

Talvez não houvesse ninguém em casa. Voltou a bater e acompanhou a batida com palmas. Pensou: “O que estou fazendo aqui? O que vou dizer? O que vou perguntar? Do que adianta conversar com essa garota sobre o que aconteceu? Isto é um erro! O melhor é ir embora! Eu deveria ter entrado em contato com Dom Marco!” E efetivamente era o que se preparava para fazer quando a porta foi entreaberta timidamente, mas não foi possível enxergar no interior da casinha, que estava às escuras.

Com o coração aos pulos Alvin empurrou devagar a porta e entrou no aposento. Seus olhos demoraram a se acostumar com a pouca luminosidade e quando suas pupilas se acomodaram viu que não era Eloá quem estava ali. Alvin se confrontou com um rapaz de vinte e poucos anos. E os dois se olharam mudos enquanto a história de uma vida inteira era transmitida pelo olhar de um para o outro. Aquele era o namorado de Eloá. Aquele era o padre de Eloá. Aqueles dois eram as duas pontas da vida de Eloá.

“Eloá não está?” Alvin se surpreendeu com sua própria voz articulando aquela pergunta.

“Não!” disse o rapaz e se sentou num sofá roto. “Senta por aí, padre.” E Alvin viu que suas pernas procuraram um lugar e ele também se sentou.

***

Mais tarde Alvin não saberia precisar quando aquela conversa suave começara. Como uma confissão. Como o relato de uma vida triste. Parecia que o rapaz sentia a necessidade de compartilhar com o padre a sua dor. E Alvin percebeu que compreendia o sofrimento do outro. E que aquele sofrimento era o mesmo que o dele. E o padre Alvin se espantou com o fato de que de certa forma invejava o outro. Jovem, livre, amando Eloá, querendo dar a ela a possibilidade de uma vida em que se completassem. Enquanto ele, o velho padre Alvin, aparecera no meio de uma história de amor, se intrometera, e agora Eloá estava grávida. Ele era um intruso. Mas espere! Não! Essa não era a história verdadeira! Isso era uma loucura. Ele fora drogado! Ele fora drogado! “Escute!” Conseguiu, por fim dizer, Alvin.

“Eu vou escutar, padre!” E o rapaz estava de pé e gesticulava dando ênfase a todas as suas palavras. “Eu posso escutar tudo o que o senhor tem para me dizer. Mas nada do que me disser vai desfazer a realidade de que eu, o idiota, queria me casar com Eloá, que afirmava que estava se guardando pra mim, e eu larguei tudo para ter olhos só para ela, e esse sonho de casamento puro, infantil, estúpido, foi destruído por um novo fato: ela está grávida do senhor!”

Houve um longo silêncio. O outro voltou a afundar no sofá e recostou a cabeça para trás, com o queixo trêmulo, incapaz de dizer mais uma palavra. “Como é o seu nome?” Perguntou Alvin.

O silêncio continuou. O rapaz por duas vezes tentou dizer o próprio nome, mas, evitando chorar, apenas suspirou. Por fim disse: “Lúcio.”

“Lúcio!” Continuou Alvin. “Você sabe das circunstâncias em que ocorreu o relacionamento que tive com Eloá?”

“Como assim?” Perguntou o rapaz.

“Eloá foi acolhida numa noite fria, ela estava febril, e foi atendida pela empregada da casa paroquial. No meio da noite apareceu no meu quarto e me ofereceu água. Eu, estupidamente, ou sem ter uma razão para desconfiar de nada, bebi a água. E fui drogado…”

Lúcio ficou de pé instantaneamente. “O quê? Ah! mas é um calhorda! Não acredito no que eu acabo de ouvir!”

“Você precisa me ouvir…” Tentou continuar, Alvin.

“Não preciso ouvir mais nada! Ponha-se daqui pra fora, padre. Padre? Não acredito que eu esteja na frente de um padre. Não quero ouvir mais nada vindo de sua boca suja! Caia fora.” E Lúcio escancarou a porta e gritou. “Caia fora!”

Quando a porta foi aberta Alvin se deparou com um grupo de garotos que de olhos arregalados se acotovelavam do lado de fora. Aquele público inesperado e a indignação enfurecida de Lúcio fizeram com que Alvin saísse da casa desorientado, envergonhado, tendo dificuldades para passar pelos que estavam ali. Ele saiu sem rumo, errando ruelas, andando em círculos, com cachorros latindo em seus calcanhares, como um bandido que foge, até que encontrou a rua mais larga onde havia deixado o carro, em que se meteu, suando, assustado, sem saber o que era verdade ou o que era mentira em sua vida, mas tendo certeza apenas de uma coisa: Eloá o drogara, o seduzira, tivera relações com ele, engravidara, e agora o chão se abrira sob seus pés e o inferno o sugava.

“Mas por quê? Meu Deus, por quê? Por que ela fez isto?”

***

“Bem! nós sabemos, mas, por enquanto, vamos deixá-lo na ignorância.” “Para o bem do jogo!” “Isto, para o bem do jogo!” “O salto do cavalo foi surpreendente… você o colocou numa posição estratégica.” “E que performance!” “Realmente não esperava um desempenho tão bom!” “Perfeito como um anjo!” “Ah! Ah! Ah!” “É verdade, como um anjo!”

Tudo indica que Alvin não é o único afogado nas lágrimas de Eloá. Ela é louca e drogada? E, além disso, por que Alvin não telefonou para Marco?  Continua no próximo capítulo.

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5 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (6 de 22))”

  1. camargo Says:

    comentário do seu único leitor… único leitor? Será? E os anônimos e silenciosos?

    to na espera do outro capítulo.

    • romacof Says:

      Já postado… hoje! Vou procurar ser regular em respeito ao senhor. Mas para provar que a (a nossa)história pode ser editada troquei o título! Uma experiência. Pode atrair só os pedófilos mas testa o que é colocado nos motores de busca. Você sabia que a décima palavra mais usada é amor, o que prova que nem tudo está perdido. As 3 primeiras são “sacanaje”, “secho” e “busseta”… também em suas formar corretas?

  2. camargo Says:

    ora meu amigo, o amor tem vertentes curiosas, como sacanaje, secho e busseta… pode estar tudo interligado.

  3. Elizeu Souza Says:

    Pode atrair só os pedófilos, kkkk… essa foi Boa! Continuarei lendo. Estou adorando! Faz tempo que não leio uma boa história.


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