O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (5 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 5 de 22 (03 de julho)

Uma coisa é certa sobre o que é redondo…  ele dá voltas.

Quase um mês depois do início de toda trama que culminou com o pecado, segundo o conceito firmado pela consciência de Alvin, ele já estava mais velho, resignado, vendo o passado recente como uma imagem embaçada pela neblina que os dias interpõem entre o fato e a necessidade de continuar a vida no eterno presente, na viajem cega para o futuro no próximo e no próximo segundo, sem tréguas, sem desvios, sem correções, virando páginas, vivendo. Sua rotina aparentava não ter sido modificada pelos detalhes íntimos, pois o padre Alvin estava disposto a cumprir a penitência imposta por Dom Marco, e que lhe remendava a existência: “Seja o melhor padre que alguém pode ser.” Tudo indicava que Jenô havia engolido a mentira do bispo como uma verdade e se compadecia do fardo que Alvin devia carregar. E o convívio na casa paroquial tornou-se mais afável e respeitoso. Uma irmã de caridade da ordem das Vicentinas veio morar na casa algum tempo para ajudar a organizar a campanha do agasalho, a irmã Luisa. Uma figura pequena e enérgica que não parava de trabalhar do amanhecer à noite, comandando um exército de paroquianas envolvidas na campanha, e administrando as doações e seus destinos com a obsessão de uma workaholic.

“Descanse um pouco, irmã!” Sugeria Alvin.

“Terei bastante tempo para descansar quando tudo estiver pronto, e além do mais o frio não descansa, padre.” Respondia irmã Luisa.

***

Era comum durante esse afã, realizado próximo à porta da Igreja, pessoas se aproximarem do padre para uma breve troca de ideias e conselhos, ou para pedirem uma conversa mais reservada.

Alvin, como numa visão, percebeu que Eloá, segurando uma sacola de roupas doadas, estava a poucos metros a espera para conversar com ele. Soube que fazia exatamente 28 dias que não a via. Não conseguiu precisar naquele momento se o choque que sentira era maior por vê-la ali parada a espera ou a sua precisa lembrança de que faziam 28 dias de que Eloá entrara em sua vida. Onde estava aquele relógio oculto que lhe media a vida? Ela lhe dera, de forma escusa, algo para beber e lhe roubara a paz. Quando ele olhava para ela a culpava por aquilo? Ou se inebriava e queria saber as razões daquela loucura? O seu coração pulsando num compasso em desacordo com a respiração significava o quê? “Está apaixonado?” Perguntou Marco em sua cabeça. Não pôde ouvir o que uma senhora de idade lhe contava porque seus ouvidos zuniam e sentia que o tempo perdera o sentido. A senhora beijou sua mão e foi embora sem que suas palavras tivessem penetrado na mente de Alvim. Eloá se aproximou e se sentou à sua frente, segurando a sacola firmemente contra corpo. Ela usava o velho casaco de Jenô. E Alvin olhou em todas as direções para ver se o encontro era foco da atenção de alguém. Parecia que todos estavam muito envolvidos no processo de seleção das roupas e nas doações. E o mundo e o ar a sua volta ficaram momentaneamente em silêncio. Apenas ele e Eloá.

“Padre! eu precisava muito lhe falar… não sei como! É tudo muito complicado para mim…” Disse Eloá com seus olhos de mar.

“Pare, garota!” Disse Alvin erguendo a mão e tendo consciência que seu tom era ríspido. Não queria que fosse! Mas necessitava que assim fosse! Não queria que ela estivesse ali! Mas se sentia feliz e sofrendo por tê-la ali! E as contradições em sua mente fizeram com que dissesse tudo, conforme a língua se movia na boca, sem pausas e sem considerações, pois aquilo precisava ser arrancado de sua garganta a qualquer preço. Com raiva, sem poder gritar, roucamente Alvin sibilou: “Você fala em complicações? Você tem ideia de como ficou a minha vida depois que você apareceu? Por quê? me diga, pelo amor de Deus, por que você me drogou daquela forma? Qual a necessidade daquilo? Que demônio existe dentro de você?”

Eloá chorava: “Não acredito que você pense assim! Nunca vai entender… oh! Como tudo isto machuca!”

“Não há o que entender! Saia daqui! Saia já daqui sua… diabo! Saia da minha Igreja antes que eu perca a cabeça e a jogue no meio da rua!” Vociferou Alvin um pouco mais alto, não acreditando na dor que sentia ao dizer aquilo, e percebendo que o tom da conversa já atraia a atenção de algumas pessoas.

Eloá disse sussurrando e sem conter as lágrimas: “Meu namorado não me quer mais depois que soube que estou grávida! Você nunca vai entender! Você é igual aos outros, não adianta explicar…!” E virou as costas e saiu apressada.

Alvin ficou paralisado. Sua mente gritou: “Espere!” Mas não ouviu qualquer som saindo pela sua boca. As pessoas haviam voltado às atividades coordenadas pela irmã Luisa. O mundo estava mudo, mas em seus ouvidos um zumbido ritmado pelo próprio coração preenchia todos os espaços e atropelava o seu pensamento. “Grávida!” Ouviu aquela palavra novamente como um eco e saiu da igreja pela porta da frente, da forma mais rápida, e ao mesmo tempo mais calma que podia aparentar. Mas Eloá havia desaparecido.

***

“Uma gravidez é um golpe muito sujo!” “Você queria o quê?” “Ora, já não bastava todo o processo mental na elaboração do ato sexual em si, você me inventa uma gravidez!” “Mas que isso dá um nó na consciência do elemento em estudo, isto você concorda que dá, e enriquece as possibilidades de reação.” “Bem! isto é verdade!” “Então se prepare, pois este lance não é nem a metade do que estou pensando… quando o centro for ocupado tenho mais algumas pequenas surpresas para você.”

O que temos? Um padre de 40 anos e uma menina de 16. Ela está grávida. O namorado a rejeita. Marco precisa saber disto… Continua no próximo capítulo.

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5 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (5 de 22))”

    • romacof Says:

      Eu vinha postando um dia sim outro não. Como a audiência caiu o patrocinador me deu um gancho e eu fiquei a espera de um toque como este. Agora eu esfrego o seu comentário no nariz dele e digo: “Viu! eu tenho um leitor fiel que talvez até leia o que foi postado.” (A propósito, o 4º ninguém leu! mas obrigado de qualquer forma.)

  1. Exaustor_X Says:

    Mas é q num se tem muito o que comentar, a historia é tão interessante e complexa, que só se quer ler mais.

  2. Elizeu Souza Says:

    Put’s… a Menina está grávida! rsrs


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