O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (4 de 22))

(Se você quer saber como começou esta história clique aquipara ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 4 de 22 (junho)

Uma pausa numa luta não é um momento de repouso e sim uma oportunidade para reconquistar o equilíbrio.

Alvin observou uma mudança significativa na sua relação com Jenô durante o mês seguinte à passagem de Eloá pela casa. Ela estava mais quieta e ele também. Não havia a alegria descontraída de quem vive sem problemas sob o mesmo teto. Deixara passar três dias e não perguntara à Jenô como havia sido a consulta e a ida ao serviço de assistência social. Depois do quarto dia já lhe parecia estranho perguntar alguma coisa sobre o assunto. Nem ele nem Jenô disseram uma palavra sobre o breve encontro com Eloá no café da manhã. E o silêncio, com o tempo, passou a gritar mais alto do que se tivessem trocado ideias e argumentado a respeito. Ele tinha convicção de que tudo o que parecera um sonho alucinado fora verdade. Drogado, ou não, sentira prazer naquela noite. Perdoado, ou não, a culpa era uma sombra que espreitava de todos os cantos. Suas orações soavam ocas e os seus ouvidos se perdiam quando escutava as dores dos outros. Alvin se sentia sem rumo. Alvin sonhava com Eloá e os sonhos eram muito vívidos. Ele se levantava no meio da noite e ia se deitar no piso frio da igreja em frente ao altar. Jenô, por duas vezes, o encontrou naquela posição desconfortável. Na primeira levou um cobertor e o cobriu. Na segunda fez que não viu para não ter que, posteriormente, trazer o assunto à mesa. Positivamente o padre Alvin estava com problemas. Na lógica do certo e errado da mente simplificadora de Jenô aquilo tinha um nome: a consciência tentando se livrar de um pensamento impuro. E Jenô passou a dobrar a dose de orações destinadas ao padre Alvin.

***

Um dia Alvin chegou de uma visita a uma pessoa enferma e o carro do bispo estava estacionado ao lado da igreja. Ao entrar em casa viu Marco sentado à mesa conversando com Jenô que, atarefada e feliz, preparava a janta. “Padre Alvin, uma visita ilustre veio abençoar esta casa!”

“Não diga bobagens, Jenô! Não sou ilustre nem abençoo nada. Como está esse soldado de Cristo?”

Alvin cumprimentou Marco beijando o anel do bispo. “Como está, Dom Marco? A que devemos esta visita não programada?”

“Ora, Alvin, até parece que você não está contente em me ver! Agora, de qualquer forma, não adianta me correr que eu só saio daqui depois de comer a carne de panela de Jenô.”

Jenô se sentiu a vontade para soltar algumas plumas no ar: “Seria bom Dom Marco dar uns conselhos ao padre Alvin, ele anda muito quieto e deprimido, e não está se alimentando devidamente…”

Marco, em seu modo característico de ser surpreendente, cortou os comentários de Jenô com uma pergunta: “Minha cara senhora, como a senhora agiria se fosse um padre que ouvisse em confissão o relato de um assassinato e ficasse entre o dever do segredo e o dever da delação?” A pergunta deixou Jenô e Alvin imobilizados. Jenô resmungou alguma coisa e foi cuidar das coisas da cozinha.

Alvin sussurrou para Marcos: “Mas isto é uma mentira…!”

“Qual parte?” Perguntou surpreso o bispo. “A minha pergunta retórica? Ou quem sabe a resposta que você daria para justificar sua depressão? As coisas são muito relativas Alvin. Eu não contei uma mentira, eu disse uma possibilidade qualquer para que ela conclua o que lhe der na veneta, mas longe da real verdade, que é o que nos interessa, e, para terminar, mude suas antenas porque seu fricote já está gasto.”

“Não é um fricote.” Retrucou, Alvin, com indignação.

“Então agora passou a ser. Esta esperando o quê? Peninha! Uma revoada de anjos lhe afagando para que você se sinta acalentado. Para consumo externo comece a fingir que está tudo muito bem, a menos que você tenha a máquina…?”

“Que… que máquina!” Perguntou Alvin, num reflexo, mas já era tarde, pois sabia que havia caído em mais uma das peças de Marco.

“… a máquina do tempo! A que faz você voltar e consertar tudo. A única que eu conheço capaz de acabar com a culpa. Viva daqui pra frente, aprendendo com o erro. Este é o único caminho para achar o perdão. A consolidação você já sabe como é: trabalhando. Ou viva seu inferno aqui! Deprimido.” E o assunto morreu com o retorno de Jenô com uma travessa exalando o perfume da gula.

“E para você, menina…” Completou Dom Marco. “… fique claro que nossa conversa aqui tem o mesmo valor da confissão. O inferno para quem passá-la adiante. E seria realmente uma pena perdermos para o Diabo uma cozinheira tão talentosa como você.” E Jenô ao mesmo tempo lisonjeada e chocada sorriu e fez o sinal da cruz.

***

Após a janta os dois se retiraram para o escritório da casa onde Marco voltou ao assunto que o trouxera até ali. “Posso confiar em sua fibra Alvin?” Alvin, aparentemente atento ao café, respondia com meneios afirmativos. “Padres com sua fé são raros!”

“Dom Marco está insinuando que a fé é rara no clero?”

“Exatamente. De uma raridade impressionante.” O bispo sorveu todo o restante do café ainda quente e continuou. “Convenhamos que neste mundo, cada dia mais racional e demonstrável em suas partes, a fé passou a ser um artigo luxuoso, ou a conseqüência do esforço sobre-humano de poucas pessoas. É isto: é necessário fazer muita força para ter fé. Para não tê-la é simples: ligue todos os  sentidos e se deixe inundar pela informação que tudo explica e joga a crença num Criador para lá dos confins da galáxia, aonde não chegaremos tão cedo. Era mais fácil ter fé quando o mundo era uma ilha e Deus podia estar depois do mar. Nós somos náufragos. Nós nos seguramos em palavras ditas há dois mil anos e que já não têm nenhum sentido para as gerações atuais. Nós justificamos o infinito não para fora, mas para dentro de nós mesmos, e vemos uma razão para a nossa fé nos meandros de nossos sentimentos. Mas nós não conseguimos passar adiante esta ideia para os nossos colegas de profissão, imagine para o homem comum! É claro que a fé sempre foi algo impalpável, uma certeza baseada numa falta de provas. Como vender esta ideia? Vou lhe dizer: a única coisa que deixa uma pulga atrás das orelhas dos seres humanos sobre a viabilidade daquilo sobre o qual temos fé é o exemplo que damos. Eles pensam assim: se estes caras vivem desta forma alguma coisa deve existir. A fé que eles têm deve ter algum fundamento do contrário eles seriam loucos. Como, na maioria dos casos, nós não parecemos loucos, a dúvida que lhes fica é que a fé, afinal, pode ser verdadeira. Um castelo de cartas. Quase um logro com boas intenções. Qual é o definitivo aspecto do Criador? Somos incapazes para defini-lo! Somos uma poeira num universo com um milhão de Cristos? alguns sulfurosos, outros com chifres, outros com quatro pernas e oito olhos. Ora, não faça esta cara de que está conversando com um blasfemador. Você se acha a melhor figura da criação? O que é esta criação? Como é o Criador? Não me atrevo a fazer qualquer afirmação porque sei que vou mentir. Sou realista. Mas vou continuar a jurar para este mundo de malucos, de olhos fechados, que a minha fé é a única, com algumas considerações ecumênicas politicamente razoáveis, nem que tenha que pegar numa espada para isto. A igreja é a nossa última fortaleza, padre, e um mandamento, um, é a nossa lei!”

Alvin permaneceu em silêncio e depois perguntou a Marco, ainda mortificado por seus problemas particulares que o outro tentava diluir confrontando-o com questões maiores: “Qual é este mandamento principal, meu bispo?”

E Marco prontamente respondeu, mas carregando o peso do mundo em sua voz: “Como, qual é o principal? Só há um mandamento, o primeiro… os outros oscilam conforme os tempos são de paz ou de guerra, e quando é necessário o silêncio ou a pregação, e se o tempo é moderno ou antigo, e ainda quando se lida com homens ou quando se enfrenta as caras que o diabo tem.”

***

Naquela noite Alvin sonhou com Eloá. Ela chorava e estava sentada na escada da igreja. Pedia que Alvin acreditasse nela. Alvin a olhava como a uma estranha que nunca conhecera. Entre os dois se interpunham duas torres, das usadas no jogo de xadrez, mas do tamanho de uma casa. No alto de uma das torres um homem bem vestido dizia para Alvin: “Uma donzela de tal estirpe e com estampa tão vistosa não pode ser rejeitada. Vá, deita-te com ela para que ambos alcancem a felicidade dos homens, já que a do céu é uma teoria improvável. Vá, deita-te com ela. Este conhecimento já te foi dado por Deus em teus instintos, homem Alvin. Veja como ela é bela, a donzela, toda tua, a tua espera.” E Eloá sorriu com lágrimas nos olhos, com seus cabelos loiros emoldurando uma face divina, os olhos verdes o engolindo enquanto os lábios sussurravam na língua dos anjos. E ele considerou que Eloá não podia ser culpada pelo que havia acontecido. Na outra torre uma ave disforme grasnava: “Falso, falso, falso!”

As duas torres em uma mesma coluna eram uma arma poderosa se alguns peões fossem sacrificados. O bispo dominava a grande diagonal branca. Alvin se encolhia por trás de uma frágil parede enquanto sua vida era jogada.

Realmente Alvin já não é o mesmo. Eloá mudou a sua vida. Mas tudo acabou naquela surreal noite de entrega sexual? Continua no próximo capítulo.

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