O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (3 de 22))

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Capítulo 3 de 22 (ainda 05 de junho)

Os pés necessitam estar firmes mesmo num chão disforme. Mas, se descalços, sentirão dor.

Dom Marco era o bispo da diocese a qual Alvin se reportava. Sua vitalidade escondia bem seus setenta anos. Era magro, pequeno e calvo, e seu andar não tinha a pompa nem a calma dos outros bispos. Seu olhar furava. Sua língua cortava. Mas Alvin confiava em seu julgamento. Alvin necessitava urgentemente encontrar um chão sólido para poder continuar a existir como padre e Marco era o homem mais pragmático que ele conhecia dentro da igreja. Encontrou Dom Marco carregando uma bolsa de laptop num longo corredor da cúria, como sempre apressado, com seus passos pequenos.

“Dom Marco!”

“Oh! Alvin. Ajude aqui!” E passou a bolsa para Alvin, enquanto o avaliava, sem parar de caminhar, agora com as mãos às costas. “Você está mal, hem? Foi atropelado?”

“Preciso me confessar.”

Marco fez uma parada de três segundos quando voltou a olhar nos olhos de Alvin, depois fez um gesto com a mão direita como quem encerra um assunto e continuou a caminhar. “Não, não, não! O meu estoque de pecados para hoje já está cheio. Se for ódio reze que ele vai embora, se for falta de fé reze que ela volta.”

“É muito sério, Dom Marco.”

Agora Marco parou e encarou Alvim. “Confesse usando uma palavra. Só uma!”

“Sexo!” Sintetizou Alvin, com os braços caidos e as mãos abertas, olhando para o chão e se sentindo incapaz de confessar usando menos que um milhão de palavras.

“Hum! Está apaixonado?” Perguntou Marco.

“Por favor, bispo!” Suplicou Alvin, e Marco percebeu que a sua agenda acabara de ser modificada.

“É uma mulher?” Continuou Marco em seu interrogatório insensível.

Alvin encarou o bispo com os olhos muito arregalados e parecia que ia dizer alguma coisa, mas cerrou os lábios com força, deu meia volta e foi embora a passos largos. Marco esperou que ele se afastasse uns dez metros e disse usando toda a sua autoridade: “Alvin! Volte já aqui!” E Alvin parou. Depois, muito devagar, se voltou para onde estava o bispo, e retornou lentamente. Marco esperou que ele chegasse ao alcance de sua mão e disse: “Primeiro me devolva o  laptop.” Alvin desconcertado entregou a bolsa para o bispo. “Saiba que o meu método pode fazê-lo chorar e vou continuar a enfiar o dedo em sua ferida para saber qual é a cor do seu sangue.” Depois olhou para os dois lados do corredor e arrastou Alvin pelo cotovelo para uma pequena sala. Jogou a bolsa num sofá e se sentou ao lado. “Vomite!”

Alvin, com as mãos em prece, respirava para dentro delas escondendo a boca e o nariz, enquanto andava de um lado para outro a procura das palavras que descrevessem o que lhe dilacerava a alma. Marco embora sentisse simpatia pelo padre jamais iria demonstrar isso abertamente. Continuaria a ser duro, ou nada seria aprendido ali. Resolveu interferir a sua moda: “Vamos resumir: sabemos que você foi para a cama com uma mulher. Tirando o pecado da fornicação o que poderia realmente ser uma bomba? Ela está grávida?”

“Dom Marco! Isto aconteceu esta noite.”

“Hum! Ela está ameaçando contar a verdade pro mundo?”

“Não!”

“Então, por Deus! Onde está a seriedade da coisa?”

“Bispo! Ela tem 16 anos!”

Marco diminuiu o seu ritmo e ponderou: “Bem! Isto realmente é um pouco mais sério. Você a procurou?”

“Não! Ela entrou em meu quarto no meio da noite. Ela me trouxe água. Eu acho… eu sei… eu sei que fui drogado!”

Marco ficou um bom tempo mudo e exclamou: “Isto é muito sério!” E Alvin descreveu os detalhes do que havia acontecido desde o fim da tarde do dia anterior até o café da manhã.

***

A partir daí Marco passou a ser o administrador. Pediu para que Alvin sentasse, e, como ele relutasse, ordenou que enfiasse a bunda na porra da poltrona e ficasse quieto para que ele pudesse pensar sem ter um padre rebolando de um lado para o outro na sua frente. Por que uma adolescente de 16 anos usaria de qualquer subterfúgio para ser admitida na casa de um padre e usar drogas alucinógenas para transar com ele? Por que não apagá-lo simplesmente com um Boa-Noite-Cinderela se a intenção fosse roubar ou preparar um flagrante sexual? Por que a necessidade de que o padre não só permanecesse ativo, mas também mantivesse uma memória distorcida do que estava acontecendo? Isto tinha cheiro de golpe. Não! Isto fedia a uma armação por todos os poros. Um assunto para marcar de cima. Então Marco lembrou que havia um padre aflito a sua frente e perguntou, tentando ser o mais macio que sua dureza permitia: “Diga, filho. Procure lá no fundo da alma qual é a razão que mais o preocupa nesse assunto. Qual é o centro do motivo que o fez procurar a ajuda do bispo?”

Para Alvin parecia que nunca acabaria de ser surpreendido por Dom Marco. Como assim, qual o motivo? Existiriam outros motivos? Mas Alvin respondeu, de forma triste, como quem aceita sua sentença já auto-determinada: “Eu quebrei meus votos. Não fui digno aos olhos do Senhor. Como ser um padre, ouvir confissões, perdoar, pregar? Qual é a minha verdade?”

“Só isto! Por um momento eu pensei…” Exclamou Marco. Alvin parecia estar pasmo ouvindo as palavras do bispo. “Quero dizer, isto é muito bom!”

“Bom?” Perguntou ainda mais atônito o padre Alvin.

“Sim!… eu disse muito bom!” Agora Marco se levantou e arrumou a faixa vermelha na cintura, procurando as palavras certas para concertar o ato falho. Fora surpreendido pela pureza do padre e perdera a rapidez no domínio das palavras. Ele não se preocupava com as consequências terrenas, mas com o castigo divino! Ele era realmente um padre! “Isto prova que você está arrependido de seu pecado. Que você é um soldado que está ferido e não foi morto na batalha. Prova que você agora está mais maduro, mais experiente, mais entendedor da natureza humana e suas mazelas. Que agora você ouvirá suas ovelhas sabendo o que lhes vai no espírito. E suas palavras terão o peso da dor e do arrependimento. Meu filho, Deus já o perdoou.”

“Mas bispo, meu pecado foi além da…” Tentou Alvin, mas Marco já havia determinado o fim da confissão.

“O que você quer de mim? Que eu o condene ao fogo do inferno? Que lhe dê uma penitência com mil rosários? Ora! Seja menos pretensioso padre Alvin! Há coisas mais importantes no mundo do que o seu pecado. Quer uma penitência? eu lhe dou: seja o melhor padre que alguém pode ser. Ame o próximo. Faça caridade. Ouça, aprenda e ensine. A propósito não diga mais qual-é-a-minha-verdade, pois a sua verdade não existe. Ninguém tem uma. A única verdade não pertence a nós, e nós só podemos achar que ela é assim e assado. Outra coisa: não reze demais. Não vá encher o saco do Criador com fórmulas de livrinhos.” Marco fez uma pausa teatral antes de dizer o que realmente interessava: “E além do mais, meu filho, até agora, tecnicamente, você não fez sexo com ninguém, você sonhou e teve uma polução. No máximo você é um descuidado que foi drogado e violentado, e nós não sabemos a motivação disso! Fique atento! Se essa garota voltar a aparecer me ligue imediatamente, pois ela é doida ou o próprio capeta. Agora vá com Deus. Eu não perdoo ninguém! eu não posso, eu não sei! pois o meu poder é igual ao seu! ou seja: nenhum! Nós somos servos do Todo Poderoso e se você realmente pensa da forma que me disse e ele ainda não cozinhou as suas ideias é por que Ele já o perdoou, portanto se sinta perdoado in nomine… in nomine Patris et Cetera e tal! Tenho que ir! não quero mais ouvir nada sobre pecados! chega! Meu Pai, por hoje me poupe…!” E Dom Marco já fora embora deixando o padre Alvin com uma dor modificada, mas ainda no mesmo lugar. Havia sido remido? perdoado? Parecia que sim! Era isto? A ferida remendada, a culpa travestida, mas a mente aceitando a lógica fora de esquadro do se-não-há-como-curar-curado-está? Alvin sentiu que precisava de um banho e de algo no estômago para poder pensar e rezar.

***

“Tenho que reconhecer que este fianchetto do bispo preto na diagonal branca eu não esperava.” “É uma abertura nova que ando desenvolvendo…!” “Parece boa.” “Você vai ver…!”

Haverá exagero no sentimento de culpa de Alvin? Marco está certo? As coisas terminam simplesmente assim?  Continua no próximo capítulo.

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4 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (3 de 22))”

  1. camargo Says:

    me passa o mail desse bispo…

  2. romacof Says:

    Isto é top secret.

  3. Exaustor_X Says:

    “ta apaixonado”, falou como se ja tivesse acontecido varias vzs isso na sua vida, “é uma mulher” aee excluindo todo tipo de preconceito, ja não precisa se comentar nada a respeito do bispo, eu é experiência ou é vivência, ou ambas as coisas.

    • romacof Says:

      Seja bem vindo, Exaustor! Interessante o seu senso crítico sobre as perguntas do personagem Marco, embora ainda incompleto nesta altura da história. Na verdade o “excluindo todo tipo de preconceito” não conseguiu excluir todo o tipo de preconceito. Fico no aguardo de mais comentários nos capítulos seqüentes, e principalmente nos finais, quando percepções direcionadas podem enriquecer e muito a discussão sobre estas realidades. Já que toda loucura que parece imaginária foi, ou está sendo, vivenciada por alguém. Nós somos uma amostragem bem diversificada, Exaustor.


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