O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (2 de 22))

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Capítulo 2 de 22 (05 de junho)

O que é um sonho se não o avesso da realidade?

Alvin sonhou. Havia cadeiras do lado de fora da casa de sua mãe; eles estavam sentados ali e conversavam; não era inverno; ele suava e tinha sede; sua mãe estava irritada e o repreendia por algo que ele fizera; um vento empurrou a veneziana que bateu; Jenô, da porta da casa paroquial, chamava: “Padre! Padre!” Alvin foi até lá para saber a razão de tanta urgência; no caminho entre as duas casas a noite caiu; na porta da casa paroquial não viu Jenô; Nossa Senhora envolta num véu que lhe cobria todo o corpo estava a sua espera e dizia: “Fiquei com medo, padre.” Medo? “Fui buscar água e acho que me perdi.” E Alvin ficou imediatamente desperto. Abriu os olhos e havia ao seu lado um vulto. Uma mulher envolta em um lençol. Tinha um copo de água na mão e dizia: “Sinto acordá-lo. Pensei que esse era o quarto em que eu estava. Fiquei com sede.” Alvin se levantou imediatamente, acendeu a luz da mesa de cabeceira, e percebeu que a criança que ele carregara no colo era uma mulher de cabelos claros e longos, caídos em cachos, de olhos verdes, enrolada em um lençol que lhe cobria todo o corpo, e mesmo descalça chegava à altura de seu queixo. Como pudera ter aquele equívoco de perspectiva? Ela não era uma criança. Era um anjo belíssimo. Seus lábios – e ele via só os lábios dela – cantaram uma melodia que no cérebro de Alvin ecoou de uma forma mágica: “Desculpe-me. Eu senti muita sede… sede. Ainda trouxe um copo de água. Também está com sede, padre? Quer água?” Ele havia suado sob as cobertas e tinha sede. Alvin, confuso, mecanicamente aceitou o copo e bebeu toda a água. Ele necessitava daquela água.

“Minha filha, Eloá é seu nome, não?” Ela meneou a cabeça. “Se está com medo vou chamar Jenô para ficar com você. Ela…”

“Não! Não é mais necessário, o senhor me fez perder o medo. Eu acordei e a princípio não entendi onde estava. Eu recordo que tive febre… me senti perdida… mas agora me lembrei de tudo. Obrigado por ter me acolhido. Hoje achei que ia morrer… Meu Deus! Quanta loucura há nesta vida, padre!” A voz meiga tremeu no final e os olhos verdes brilharam refletindo a luz nas lágrimas e eles se transformaram em um oceano triste e maravilhoso.

Alvin, num reflexo, levantou a mão e um de seus dedos impediu que uma lágrima caísse. Percebeu que havia uma diferença na temperatura das duas peles e esse contato de uma forma que ele não compreendia produziu uma eletricidade que ao mesmo tempo o assustou e foi agradável. “Não chore.” Disse. E sentiu que podia ouvir o próprio coração num compasso que desconhecia. “Meu Deus!” Pensou. “O que é isto que está acontecendo comigo?” Eloá se aproximou e ele deixou que ela encostasse a cabeça em seu peito. Timidamente Alvin ergueu as mãos e a abraçou, como um pai abraça uma filha, mas notando que a energia estranha que eletrizara sua mão agora percorria todo o seu corpo. Naquele momento sua vontade e seus músculos se mobilizavam para afastá-la, suave, mas firmemente, para que pudesse sair dali e ir rezar na igreja. Ele sabia, de forma absoluta, que essa era a coisa certa a fazer. Porém um zunido distante começou a ganhar volume em seus ouvidos, não como barulho, e sim como uma melodia cantada por mil vozes, lentamente. E a sinfonia era linda, inebriante. E tudo que ele estava sentindo era muito bom. E o ar e a luz ganharam cores e Alvin riu. Depois se sentiu perplexo por ter rido. “O que é isto?” Perguntou para Eloá e viu que ela era transparente, e sorria, e sua mãe estava na porta do quarto também sorrindo, e todos se sentiam muito felizes. Claro! Aquilo era um sonho! A continuação do sonho. E ele fez um esforço para que seus olhos voltassem a perceber a materialidade de Eloá. Passou a se sentir sem culpa, agora que sabia que era um sonho, estranho, mas um sonho. Ela havia deixado cair o lençol e estava nua. Ele sabia em seu senso crítico submerso que não devia estar acontecendo nada daquilo, mas riu porque ela suavemente o livrava do casaco do pijama. Sua mãe fora embora e Jenô dizia da porta do quarto: “Eu lhe avisei, padre! Eu bem que lhe avisei!” Ele balançou a cabeça e Jenô foi levada como fumaça por um vento multicolorido e o desenho era muito engraçado; ele não sabia bem porque, mas cada detalhe era extremamente divertido. Teve um sobressalto quando Eloá se ajoelhou e lhe tirou as calças. Estava excitado. Mas isto não poderia ser pecado porque ele estava muito feliz e tudo era muito bom e bonito.

Uma vez Alvin assistira na televisão uma cena em que várias pessoas dançavam sob a combinação de uma luz negra com um efeito estroboscópico. Ficara admirado com o resultado.  Partes das vestimentas pareciam pintadas de um branco azulado e os movimentos fracionados, descontínuos, faziam os reflexos se deslocarem de uma forma aparentemente impossível. Agora via os lençóis de sua cama e os dentes de Eloá, e partes dos dois corpos sob esta ótica e teve dúvidas sobre a própria sanidade. Pedaços de sua memória se confundiam com cenas bizarras. Sua consciência às vezes gritava de muito longe, mas ele lhe virava as costas e se concentrava na pele que tocava e explorava.

Um anjo aparecia às vezes com uma espada flamejante que quando brandida o cegava. O anjo ria. Ele ria. Eloá ria. E ele se surpreendeu dentro dela. E uma sensação extraordinária fez com o seu corpo fosse tomado por aquele formigamento elétrico e mágico que o queimava sem o consumir. Parecia que não iria suportar e iria morrer. E ele queria morrer. E ele explodiu. E todo o seu mundo explodiu…

… e ele sentiu muito frio. Estava escuro. Ele se encolheu como um feto quieto e abençoado e sua mãe lhe cobriu até o pescoço se despedindo com um beijo na testa: “Durma agora, meu padre!” E ele ficou só.

***

“Obrigado senhor por mais um dia.” Era o primeiro pensamento de Alvin, a cada dia, num reflexo condicionado, ao perceber que seus olhos haviam captado a luz de um novo alvorecer. “Ah! Como estou cansado!” Sua mente reclamou ao se esticar na cama. Os olhos se arregalaram para o teto e uma inspiração profunda paralisou todo o seu corpo quando, consciente, exclamou: “Oh! Meu Deus.” E o padre Alvin num salto ficou de pé e se examinou. Estava vestido. “Oh! Meu Deus!” Apalpou o próprio corpo e esfregou o rosto com fúria. Procurou os chinelos. “Diga que foi só um sonho. Diga, meu Pai, que foi só um sonho.” E vestiu o roupão sobre o pijama e abriu a porta. Lembrou que a havia deixado entreaberta na noite anterior. Caminhou pelo corredor em direção ao banheiro. Havia silêncio nos quartos. Lavou o rosto de forma enlouquecida e se olhou no espelho. Passou as mãos nos cabelos. Tocou os próprios lábios. “Foi um sonho. Oh! Meu Deus, obrigado! Foi um sonho.” Mas sua mente gritava que não. Sentiu os mil ouvidos do Criador a sua volta e procurou recompor seu espírito. Sabia que o Pai entenderia sua alma e não necessitava de palavras, mas as proferiu: “Obrigado, Senhor, por esta loucura não ter passado de um sonho. Obrigado por permitir que eu continue fiel a ti. Obrigado pela vida que me deste, e peço que a destrua no momento em que julgares que não sou mais digno de ser teu servo.” Alvin suspirou profundamente e entendeu que deveria enfrentar os olhos dos outros para descobrir a verdade, pois nos olhos dos outros estava a alma que Deus havia dado a cada um; a alma que era parte da alma de Deus. Nos olhos dos outros estava o Pai. Ele seria julgado pelos olhos do Pai. E Alvin fez dois bochechos rápidos, voltou para o quarto e rapidamente se vestiu. Não se barbeou. Não se penteou. Ele tinha pressa.

Ao lado da cozinha havia uma mesa de refeições. Jenô e Eloá tomavam café. Eloá estava com o cabelo preso sob uma toca e vestia o grosso e velho casaco de Jenô. Quando ele entrou as duas olharam para ele. Ele reconheceu os olhos de Eloá. “Esse é o Padre Alvin, que lhe encontrou na igreja ontem no fim da tarde. Tenha um bom dia na graça do Senhor, padre.”

Tudo era instantâneo, mas para Alvin parecia que havia um longo tempo entre cada fala ou gesto. Parecia que tudo estava sendo observado e analisado lentamente. E estava. Estava por ele. Pela necessidade que ele tinha de ser julgado. “Um bom dia Jenô, fique na graça!” Estava rouco. Fez um aceno com a cabeça para Eloá. Eloá sorriu. Ele percebeu que Jenô rapidamente corria seu olhar à procura do eixo de visão entre Alvin e Eloá.

Eloá falou e quando ele ouviu o som da voz dela a sua saliva ficou espessa: “Bom dia, padre! Nem sei como agradecer o que vocês fizeram por mim! A Dona Jenô me explicou como eu cheguei aqui e ela disse que vai me levar no médico. Causei um transtorno na vida de vocês. Só posso dizer obrigada!”

“Agradeça a Deus!” Disse Alvin. “Nós só fizemos a vontade Dele.” E tudo que dizia soava como mentira ou fora do contexto. E ele olhou nos olhos de Eloá. Depois nos olhos de Jenô. E voltou a olhar no fundo dos olhos de Eloá. Sua alma, ou a alma de Deus que vivia em Alvin, ao mesmo tempo em que se sentia purgada pela reação acolhedora daquelas outras duas almas, teve a desconfortável convicção de que aquilo não bastaria para lhe devolver a paz. E o padre Alvin sentou para tomar café.

Jenô se levantou e disse: “Bem, parece que o padre hoje dormiu mais que o costume. Nós temos que ir cedo para o posto de saúde. Deixe a louça que eu lavo na volta. Se apresse garota!”

Eloá se levantou ainda engolindo um pedaço de pão, se aproximou de Alvin e lhe estendeu a mão. Alvin por um breve instante ficou estático olhando para o rosto de Eloá e para aquela mão estendida. Depois se deu conta que o mais natural era sorrir e aceitar o aperto de mão que lhe era oferecido. Foi o que fez. A mão de Alvin foi eletrificada.

“De novo, quero dizer muito obrigada, padre.” E depois de uma leve hesitação acrescentou: “Por favor, reze por mim!” A mão de Alvin ferveu e suou. Seu coração pulou. Sorriu de acordo com o esperado. O corpo recordava do contato com aquela mão, mas os olhos da menina eram tristes. Sua voz era triste. Havia uma súplica em cada sílaba da última frase. As duas saíram e ele ficou sozinho olhando para uma xícara de café. As últimas palavras dela ecoaram como uma confirmação de que talvez a loucura fosse a melhor explicação: “Por favor, reze por mim!” Mas ele sabia. “Meu Deus! Isto não pode estar acontecendo!” E bebeu o café frio.

***

“Intervalo no jogo…” “Os dados estão presos a uma limitação probabilística, e seu caráter aleatório não é elegante.” “Concordo.” “Alguns aspectos futuros a serem considerados pedem que o nível de complexidade se multiplique.” “Proponho o xadrez!” “Boa escolha! vamos adotá-lo na próxima fase.”

“Qual mão?” “Esquerda.” “Você joga com as brancas e eu com as negras.” “Pela lógica não deveria ser o contrário?” “Em primeiro lugar não há lógica na vida e em segundo não há cor do bem nem cor do mal.”

Se você fosse o juiz condenaria Alvin como pedófilo? Qual seria a razão oculta para um evento desta natureza?   Continua no próximo capítulo.

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6 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (2 de 22))”

  1. Franci23 Says:

    Coitado do Padre, esta na seca hehehehehehe

  2. romacof Says:

    Que comentário mais insensível, Franci. Não veja a coisa pelo lado de quem foi educado como um guri do mundo “qui nem qui nós”. Tente apreciar a aflição na consciência de um cara que só vive e acredita naquilo ali. Imagine o dilema. “Seca”! Esta eu vou anotar.

  3. camargo Says:

    essa alusão ao jogo de dados divino está muito bem colocada, diante das tantas possibilidades emocionais e penitenciais do enredo. Achei o máximo a idéia das palabras “do mal” terem o poder de vale quanto pesa. Se a empregada não as tivesse dito, o que deus usaria para perturbar o padre? A impressão que fica é que ele escolheu a empregada, que sempre esteve ali e que é o alicerce cotidiano do padre, e não a menina, ou mulher, para ser “do mal”, como se estivesse experimentando uma nova charada.
    parabéns Romacof, a idéia de capítulos on line é ótima, como já conversamos (on line).
    vc vai fazer alguma alusão a local e data da trama?

    fico na espera de mais…

    • romacof Says:

      Quase todos os personagens existem. Os nomes foram trocados, e ganharam um duplo sentido focados no dualismo bem-mal. O fato na mídia rolou como pedofilia. As datas são reais mas o ano e a cidade são irrelevantes. O romanceado é por minha conta. O final… quando chegar lá eu digo. Grato pela visita.

  4. Elizeu Souza Says:

    Estou Adorando a História, e acredito que o Padre não poderia ser condenado como pedófilo. Lendo a história, percebi que o Padre está descobrindo o que é Amor de Verdade, mas sua fidelidade a Deus não o deixa ir mais fundo na “Coisa” ! rsrs Legal.


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