O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (1 de 22))

Os insignificantes gravetos ardem na enorme fogueira. Os homens covardes se diluem no poderoso exército. Os desejos reprimidos se escondem entre as paredes de uma santa igreja.

Capítulo 1 de 22 (04 de junho)

Uma pequena pedra rola e pode fazer com que outras pedras rolem, e assim por diante…

Padre Alvin tinha 40 anos e era um homem bom e inocente. Talvez um dos últimos homens de fé, da forma que é possível defendê-la íntima e racionalmente. Ou talvez isto seja exagero meu para valorizar o personagem. O que interessa é que o par que personifica a eterna luta cósmica dualista entre o bem e o mal tinha, naquele dia, escolhido Alvin como o seu joguete. Uns diriam que esta escolha é aleatória e o homem ainda tem em seu livre arbítrio uma arma, ou um atalho, para cair fora das maldades, ou bondades, ou provas, ou artimanhas do divino e do demoníaco. Particularmente acho que é maquiavélico jogar areia nos olhos de quem está na corda bamba, Ah! Ninguém vai me convencer do contrário. Ainda mais em quem mal consegue andar no chão sem tropicar. Mas azar! O fato é que foi assim que aconteceu.

Alvin havia construído dentro do terreno da igreja uma pequena casinha onde acomodara e tratara sua mãe até o dia em que ela foi chamada para viver junto de Deus Pai, Amém. No fim das tardes ele costumava ir até lá. Sentava numa velha poltrona de onde enxergava, pela janela da sala, o gramado bem cuidado, um pequeno jardim agora seco pelo início do inverno, as árvores velhas, a Igreja velha, a casa paroquial velha, e rezava. Rezava pela paz no mundo, pela saúde de seus paroquianos, pela fé escorregadia, pelas almas esvoaçantes que na insuspeita dimensão celeste faziam as coisas inimagináveis que eram feitas por lá, e pedia a Deus que o iluminasse em suas ações para que pudesse cumprir o seu ministério. Naquele momento Deus estava ocupado jogando pedra, papel e tesoura, exatamente decidindo o futuro de Alvin, e não ouviu essa parte das preces. E como o canal de comunicação de Alvin com Deus permitia apenas o monólogo e a fé e não tinha uma interface mais amigável, com um ícone clicável para dizer: “Ei! Estou reenviando o último e-mail! Tá ligado?” ficou o rezado pelo não rezado. Coisas da vida.

Depois Alvin ia até a Igreja, cumprimentava a luzinha vermelha que permanecia acesa sobre o altar, conferia se a porta da casa do Senhor estava bem fechada, fazia mais uma genuflexão na frente do altar, e se dirigia para a porta da sacristia que ligava o templo à casa paroquial. Mas naquele momento ele ouviu um soluço.

Ficou estático na penumbra. Sentiu seus ouvidos ganharem uma percepção redobrada. Havia sido um soluço? Ficou quase dois minutos absolutamente imóvel. Procurou respirar de forma lenta e inaudível. Fechou os olhos e se transformou na própria audição. Percebia apenas ruídos distantes, da rua. O som do coração lhe dava o contato com a realidade. Nada mais escutou. Fora um engano. Continuou a caminhar para a sacristia quando ouviu novamente um soluço, e um gemido, e sua atenção, agora direcionada, localizou a posição do som no fundo da Igreja, à esquerda, onde ficava o confessionário. Era um choro baixinho. Uma criança? Voltou a acender a luz lateral e caminhou rapidamente naquela direção. Deitada num dos bancos viu uma menina vestida em andrajos, suja, tremendo de frio e ao encostar a mão na testa dela percebeu que estava febril. Pegou a menina no colo e a levou para a casa. Jenoveva, a velha empregada, saberia melhor do que ele o que fazer com a aquela criança.

***

Alvin comeu um pedaço de galinha. Depois achou que seria bom tomar pelo menos um prato da sopa que Jenô fizera. Seria uma das noites frias de início de junho. Uma hora depois a empregada entrou na cozinha, serviu uma xícara de chá para ela, outra para o padre, e sentou na frente dele.

“E então, Jenô?” Perguntou Alvin. “Como está a criança? Você acha que precisamos chamar um médico?”

Jenô bebericou o chá e olhou no fundo dos olhos de Alvin. Às vezes Alvin considerava aquela mulher invisível como uma parte avulsa de sua própria consciência. E nós já intuímos que naquela hora seria fundamental para Alvin que esta consideração fosse realmente levada em conta, mas se fosse sempre assim as histórias não aconteceriam. “Ela está bem! Não precisa de médico! Com o banho a febre foi embora, mas de qualquer forma eu lhe dei um antitérmico e amanhã  vou ao posto de saúde com ela… para que seja avaliada. Agora o que ela precisa é dormir.”

“Ela comeu alguma coisa?” Perguntou Alvin.

“Sim! Engoliu dois pratos de sopa e um pão inteiro. Eu joguei fora as roupas que ela estava usando. Arranjei uma das suas camisas velhas e uma calça de abrigo. Amanhã ela veste um casaco que eu ia dar para a campanha. Consigo um sapato que sirva e, sem dúvida, vai estar melhor do que quando chegou aqui!”

“Pobre criança!” Exclamou Alvin.

Jenô fez uma longa pausa como se pesasse a relevância do que pretendia dizer, e se o bem estava em dizer ou se estava em ficar calada. Afinal optou por falar e mais uma vez o jogo em que iria se transformar a vida de Alvin ganhou um elemento complicador. Da boca de sua velha e experiente parceira de claustro. Dito para lhe alertar. Querendo o bem de Alvin. Pedra, papel e tesoura. “Padre! Preciso lhe dizer uma coisa!”

“Diga, Jenô!”

“Eu ouço o padre dizer criança pra cá e criança pra lá. A mocinha; o nome dela é Eloá; não é nenhuma criança. Ela tem 16 anos. Eu a ajudei a tomar banho. Ela é uma mulher muito bonita, e provocante… e ela sabe disto.” Jenô fez uma pausa no chá enquanto media bem o que estava dizendo. “Amanhã eu a levo ao médico, e depois ao serviço social para dar um destino pra ela. E recomendo que rezemos pela alma desta garota, porque… porque ela já foi mordida pelo mal. Ela já é do mal!”

“Como você pode dizer isto de uma cri… de uma pessoa que você conhece há uma hora, Jenô? E insisto: é uma criança, uma criança de 16 anos, que merece ser acolhida e receber os meios para que se proteja deste… deste mal de que você fala.” Exclamou o padre, se sentindo indignado com a intolerância de Jenoveva.

“Alvin!” Contestou calmamente Jenô. “Acredite em mim. Eu sei. Eu vi. Eu sou uma mulher de 65 anos e sei de coisas que os padres de 40 não sabem.”

Tomaram o resto do chá em silêncio. O que pensam as pessoas nesses momentos. Na verdade é um momento trivial. Não tem nada de especial, transcendental, misterioso ou suspeitoso. Talvez suspeitoso. É. Suspeitoso sim. Jenô devia ter percebido alguma coisa no comportamento de Eloá que a fez não gostar das possibilidades agregadas à presença daquela menina naquela casa, afinal uma igreja, afinal um lugar de retiro espiritual permanente, afinal… afinal Eloá destoava do conjunto e isso já era um argumento definitivo, e pronto. Jenô com ciúmes? Pouco provável. A religiosidade mesclada à servidão já sufocara sua sexualidade enrustida. Ela poderia ter medo de sexo. Isso sim. Eloá podia representar uma chama muito próxima de um monte de palha e esse fato talvez desagradasse à velha Jenô, assexuada, mas viva e experiente. Seu sentimento para com Alvin era de uma irmã mais velha, responsável, cuidadosa. Essa era a posição de Jenô naquela casa. Pelo menos era assim que a consciência dela se auto explicava. E o que era Jenô para Alvin? A empregada da casa paroquial. A ordem em sua vida e em suas coisas. Uma mulher, sem dúvida, pela qual nutria os sentimentos de camaradagem, simpatia, confiança, respeito, e a certeza de que saberia onde encontrar as suas meias pela manhã. Essas coisas. E Eloá? Ele não conhecia. Era uma criança fedorenta, suja e doente que desaparecera no interior da casa levada por Jenô. E agora Jenô vinha com a insinuação de que aquela coisa disforme se transmutara numa mulher bonita, sensual, perigosa, malvada… não, malvada não, ela dissera “do mal”. Isso. “Mordida pelo mal.” Que coisa mais estapafúrdia para se dizer de uma menina. A tradução do texto passou para a mente do padre como uma piada rabugenta. E Eloá que nada significava para Alvin passou a carregar, a partir daquele momento, o imã da curiosidade. Uma curiosidade inocente. A primeira curiosidade.

***

Jenô pegou as xícaras, se ergueu e perguntou: “Deseja mais alguma coisa da cozinha, padre?” Alvin com o queixo apoiado na mão respondeu negativamente com um meneio da cabeça. “Então tenha uma boa noite e fique com Deus.”

“E você também, fique com Ele. Boa noite e obrigado, Jenô.”

Jenô foi até a cozinha. Depois para seu quarto. E Alvin permaneceu como estava. Olhou para a capa do livro que andara lendo, mas naquela noite resolveu que deveria fazer suas orações e dormir. O travesseiro sempre amaciava a cabeça e as idéias.

No corredor as três portas dos quartos e a do banheiro estavam fechadas. Havia silêncio absoluto. O seu ficava ao lado do de Jenô. No do fundo a empregada deveria ter acomodado a hóspede inesperada. Abriu a porta que, como sempre, fez um cantado nas dobradiças. Nada que um pouco de azeite não resolvesse e percebeu que pensava a mesma coisa todas as noites há meses. Ia fechar a porta, mas considerou que se necessitasse levantar durante a noite o ringido poderia acordar a menina, Jenô estava acostumada e seus ouvidos já não registravam aquele ruído, mas a outra, Eloá, poderia ficar perturbada. Deixou-a entreaberta. Voltou a agradecer a Deus a oportunidade de ter um teto, um quarto quente, um estômago satisfeito, a saúde, a força, a sanidade, e um ofício. Pediu essas coisas para os desafortunados e voltou a agradecer pela graça de ter condições de acolher e ajudar um ser humano desamparado que de outra forma poderia até perder a vida naquele mundo tão egoísta e carente de fé. Apagou a luz deixando o quarto iluminado apenas pela fosforescência de uma pequena lâmpada em forma de crucifixo. Colocou o pijama, fez o sinal da cruz, e se deitou. E, como as opções aumentavam, e o jogo necessitava de componentes que oferecessem variáveis mais ricas, eles passaram a jogar os dados para o casto padre Alvin.

Será Eloá uma tentação irresistível para o Padre Alvin? Quem são esses que jogam num mundo paralelo? Continua no próximo capítulo.

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2 Comentários em “O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (1 de 22))”

  1. Franci23 Says:

    Padre é bicho estranho…


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