Pongo (8 de 8)

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

“Pongo! Explique melhor esta charada do Sistema que ninguém vê!”

Mas Pongo desceu da pedra, virou as costas, e caminhou para sua caverna. Depois voltou trazendo uma penca de bananas maduras. Partiu ao meio a penca e com um gesto rápido atirou a metade para o passeio onde eu estava.

“Ei!” Disse eu. “Você não pode fazer isso!”

“Posso sim!” Respondeu Pongo. “Não há nada escrito por aí dizendo que é proibido alimentar os humanos. Há? Se tivesse sido você que jogasse as bananas para mim… aí sim, você estaria em apuros. É o sistema.”

Eu provei uma banana. Estava deliciosa. Disse para Pongo: “Mas não é deste sistema de regras que você estava falando. Gracioso!”

“Mamãe também me chamava assim!” Arrematou Pongo.

“Então onde está o Sistema de que você fala?” Perguntei a Pongo.

E ele respondeu: “Em todo lugar. Eu já disse: você está enterrado nele.” Ele se acomodou melhor sobre a pedra e continuou: “Vamos admitir que a espécie de vocês, antes de ser extinta numa esquina qualquer, escape do sistema solar. Sempre será necessário coordenar as atividades da espécie. Ou agora, agarrada sobre o puzzle tectônico, ou depois, espalhada em outros corpos celestes balouçantes no nada espacial, a necessidade permanecerá.  Nós os Pongo pedimos pra mãe natureza proteção contra uma má gerência humana capaz de nos fuder bem antes do que qualquer remota possibilidade cósmica. Esse trabalho de coordenação tem sido tentado desde que um grupo de seres humanos passou a dividir o mesmo espaço e alguém teve que tomar a iniciativa para que o trabalho do grupo funcionasse como uma equipe. O regime não importa. Todos são falhos. Uns aparentam uma maior participação dos indivíduos, mas apenas escondem os interesses dos mais gananciosos. Quanto maior for o número de indivíduos mais fácil será para o ladrão se esconder. E o ladrão nunca interessa para o trabalho do grupo. Pode ser o político mais poderoso de um determinado país. Se ele for um ladrão ele é um doente mental. Os doentes mentais deficientes são encargo de vocês enquanto espécie geneticamente incompleta. Mas os doentes mentais inteligentes, principalmente os políticos psicopatas que não estão interessados no bem da coletividade, devem ter suas ações tolhidas, pois é injusto o seu sucesso. Eles adoecem a espécie, emperram a máquina que administra a espécie e atrasam o desenvolvimento da espécie. Temos que ter uma solução aplicável à civilização de vocês. Essa solução deve ser amigável, conhecida, e aceitável. Uma mãe Pongo Ponderadora.”

Pongo fez uma pausa. “Veja bem… quando falo de Sistema não quero propor uma substituição do poder ou dos poderes vigentes. Que os humanos continuem brincando de governar, pois isso lhes faz bem, fortalece o ego deles, dá um sentido teatral a seus atos, e eles ficam com a sensação de que estão determinando a história. Não estou falando da ciência, ou de todos os aspectos técnicos necessários para levar adiante os processos setoriais de uma civilização complexa como a de vocês. Estou falando dos aspectos específicos relacionados com o ato de governar.”

Pongo arqueou as sobrancelhas e mostrou os dentes e continuou: “Pense numa criança humana, vivendo numa de suas casas modernas! Não espalhe robôs pela casa. Não é um filme de ficção científica. Já sabemos, usando as suas próprias palavras de alguns dias atrás, que essa criança está conectada com o mundo via mil meios de comunicação, todos interligados. Num instante ela pode estar brincando on-line com outro filhote de vocês na Europa, e dez segundos depois pedir instruções a um serviço de babás da Austrália de como se limpa a bunda. Fala com papai que está num vôo entre Sei-lá-que-porra e É-pra-lá-que-eu-vou como se ele estivesse na sala ao lado, enquanto a mãe que trabalha na cidade vizinha programa o forno de micro-ondas de casa para esquentar a mamadeira do pimpolho. O mano mais velho entra na casa e mal toma conhecimento daquele elemento que é de uma ninhada posterior, mas enquanto cola seus temas de casa da internet faz o download de um filme pornô, de meia dúzia de músicas e do mais novo ringstone para incrementar o seu Iphone. A mãe passa num self-service e descobre que seu cartão não cobre uma compra banal porque o marido estourou o crédito ao comprar a passagem. O marido recebe pelo sistema de checkup periódico bimestral da empresa a notificação de que o seu perfil lipídico o colocou na faixa dos cardíacos em potencial e ele é intimado a se tratar ou procurar outro emprego em 60 dias. E poderíamos continuar indefinidamente emendando coisas isoladas. Que, graças a artifícios tecnológicos, não estão exatamente isoladas. E então eu pergunto. Se isto é possível utilizando um simples sistema de dados que faz associações quantitativas burras, numa velocidade que transforma a circunferência do planeta na mesma de um cu, o que impede que a classe governante, ou os atos de uma classe governante, sejam monitorados pelo mesmo método?”

Suspirei e fiquei quieto. Pongo emendou.

“Eu respondo: Vamos usar um exemplo hipotético, só um, nada muito longo ou complicado que possa dar um nó irreversível na cabeça de algum governante que por acaso se sinta envolvido paralelamente no exemplo que vou usar. Um indivíduo de um dos poderes vai enviar uma quantia qualquer, de digamos, uma bilhão e alguns milhões, para um estado pobre. Qual o motivo alegado? Preparar o terreno para instalação de uma fábrica de automóveis. O que significa exatamente preparar o terreno? Significa o trabalho combinado de drenagem, saneamento, terraplanagem, abertura de estradas, instalação de redes de água, energia e comunicação, e outras coisas do tipo. Então não tem nada lá? Não. Pessoas há? Não. Expectativas sócio-econômicas? Não, ainda não há. Um contrato, um acordo, uma promessa, um projeto, isso há? Não, isso também não. Então nós vamos aplicar essa pequena fortuna no meio do nada para fazer uma coisa que ninguém sabe realmente o que é envolvendo ninguém exatamente interessado? Essa é a idéia.” Pongo suspirou fundo e continuou: “O que se espera, num processo dessa monta, é que a transferência da verba passe pelos olhos de uma série de indivíduos desse poder. Espera-se que, esses indivíduos, todos comprometidos, uma vez que lhes é pedido que assinem a liberação daquela verba, façam uma análise cuidadosa da origem e do destino do dinheiro. Como se faz isto? Teclando alguns botões e perguntando, via sistema, o mesmo que limpa a bunda de crianças com babás australianas, o mesmo que baixa a última versão do filme Orgia-anal-número-seis, o mesmo que glosa a compra de uma dona de casa no self-servive, o mesmo que pode demitir um pai de família sedentário porque comeu presunto gordo demais, qual a lisura daquele negócio envolvendo um bilhão e merrecas, uma fábrica fantasma, e um pântano no meio do nada. Se o homem podedoro que queria envia o dinheiro esbravejar indignado pela negativa do repasse o que se faz? Explica-se que infelizmente (ou felizmente) o sistema achou prudente avaliar com mais cuidado a idéia original, pede-se um projeto mais bem feitinho, e se abre bem o olho com esse senhor.”

Pongo olhou bem para mim para ver se eu estava acompanhando e continuou: “Isto é de uma obviedade tão escancarada que só o descrever já é redundante, mas nós sabemos que não é o que acontece. Todos os elementos do governo, ou do poder, ou dos poderes, ou da corporação que administra ou controla aquele repasse bilionário de dinheiro que não é deles passam por cima do processo de checagem mais elementar e liberam a ilicitude. Pegam uma almofada grossa e pesada, enfiam no nariz do sistema, e o apertam, e o sufocam até que suas pernas tenham os últimos espasmos, e ele morre.”

Suspirei. E Pongo disse: “É claro que o sistema hoje existente é mal visto porque é recém nascido, burro, incompleto, criado pelo homem, reflete os interesses dos que o alimentam, e não tem autonomia para corrigir os erros nele contidos. Se você for consultar um médico o sistema poderá recusar o seu cartão de convênio porque o programador cochilou na hora de digitar um hífen. E assim nós poderíamos arrolar uma infinidade de buracos no sistema atual, que necessitariam ser remendados para que a inteligência seja demonstrada. Se o sistema fosse perfeito, embora não fosse o Sistema, não haveria tantas desigualdades sociais, tristes injustiças, absurdos legais nos processos de adoções, e por aí vai numa estrada longa e torta. Mas para servir de mãe macaca e ponderadora, o sistema atual poderia ser um embrião, se for usado por todo mundo. Não adianta ele ser um controlador de um trilhão de pequenas circunstâncias domésticas e ser ignorado pelo macho alfa do bando.”

E Pongo pareceu se transformar num sonhador, num visionário quando arrematou sua conversa: “Um Sistema autônomo se recicla, se atualiza, evolui, controla a eficiência das coordenadorias setoriais, dispensa as arbitragens, e governa. O Sistema seria o ditador que você citou, mas que usa uma só lei: sou uma criatura para servir.  Na natureza o Sistema já existia, era empírico, e  servia a todos… mas com o homem, com seus conceitos envolvendo a verdade, a liberdade, e a razão, terá que ser refeito. Só então o homem poderá se preocupar com o caminho…”

xxx

No dia seguinte não encontrei Pongo em seu lugar de costume. Dei voltas pela área que lhe era reservada, mas ele não estava em lugar algum. Tive um sobressalto quando reparei que a tabuleta que identificava o Pongo de Borneo não estava mais ali. Corri e perguntei ao tratador sobre o paradeiro do orangotango e ele me explicou: havia uma Pongo fêmea solitária no zôo de Montreal e o nosso orangotango fora mandado pra lá a pedido de uma ONG que estava fazendo experiências sobre procriação em cativeiro. Fiquei mudo. Segurei uma lágrima teimosa. Depois pensei: Pongo teria uma companheira de sua espécie… talvez viesse a ter filhos! Será que ele fala francês? Ou inglês? Ou melhor… será que ela fala?

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4 Comentários em “Pongo (8 de 8)”

  1. Franci23 Says:

    Pelo a historia tem um final feliz, para o Pongo é claro.


  2. Muita, muita, muita coisa para refletir nestes diálogos com o Orangotango. Só não esperava que terminassem com um “mandei Pongo se F…” (literalmente). 😛


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