Pongo (7 de 8)

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

Estive ocupado fazendo algumas coisas que os Pongo não fazem: trocando bens e serviços por créditos, que seriam depois trocados por bens ou serviços, conforme as minhas necessidades, de uma forma muito semelhante ao que fazem os outros indivíduos da minha espécie. Assim fiquei três dias sem poder ir ao zoológico. Quando apareci Pongo estava amuado e não queria falar. Resolvi não pressioná-lo e comecei um monólogo, ao mesmo tempo em que vigiava o movimento dos meus semelhantes.

“Acredito…” Dizia eu. “… que compreendi sua posição nos assuntos que conversamos nos últimos dias. Além de estabelecer as regras gerais a que você chama de o primeiro livro”, onde a espécie registra o conhecimento necessário para que a ciência cresça de forma harmônica, ficou a sugestão de que seria útil estabelecer uma fé sem misticismos, a que você chama, às vezes, de “seguir o caminho”. Esse processo seria um desdobramento da própria evolução, mas independente dos mecanismos genéticos. Você relaciona essa evolução com a compreensão das leis psicológicas lógicas ligadas ao seguir o caminho de forma positiva, o “andar para a frente”. Neste quesito você defende a premissa de que a natureza dispensa a necessidade de um deus, embora não o negue como possibilidade atemporal.  Rotulou este modo de pensar como agnóstico. Estou certo?”

Pongo permaneceu aparentemente indiferente ao que eu dizia.

Eu continuei: “Você enfatizou que ninguém é dono da verdade. E, em relação ao agnosticismo, reafirmou que esta forma de pensar não descarta o altruísmo, e poderia perfeitamente terminar com as inúmeras guerras religiosas que tantos pecados já cometeram ao longo da história. Foi dito também que a ética é a lei escrita na consciência da espécie como média, e ela bastaria para que a liberdade e a razão fossem respeitadas. Mas reconhece que a aceitação desses pontos de vista é utópica em se tratando da espécie humana, devido a sua grande diversidade, complexidade de culturas, e interesses de grupos poderosos, tanto religiosos como econômicos.”

Pongo virou as costas para mim e soltou um sonoro peido.

Esperei que ele se voltasse para mim e continuei: “Agora, somos obrigados a reconhecer que a espécie necessita de uma coordenação e de um sistema de arbitragem…”

“Simples!” Disse Pongo. “Tanto quanto enfiar um foguete no rabo de um tigre e, calmamente, acendê-lo.”

“Ora! Ora!” Exclamei. “Por um momento achei que o Pongo que eu conheço havia sido substituído por um orangotango vesgo, mudo e burro.”

“Poupe-me de seus adjetivos maldosos.” Cortou Pongo. “Você ficou três dias sem me visitar e queria o quê? que eu o recepcionasse com flores e fogos?”

Fiquei surpreso com a reação de Pongo. “Meu amigo, me perdoe. Não fazia idéia de que as minhas visitas eram tão importantes para você!”

“Se enxergue!” Resmungou Pongo. “Você cutucou meu lado falante, me deu corda, obrigou minha cabeça a elaborar toda essa papagaiada, depois sumiu. Fiquei aqui com meus próprios pensamentos, quando eu poderia ter minha pacata vida de orangotango, sem me preocupar com nada além de dormir, comer e… e…”

“Defecar!” Ajudei.

“Isso!”

“Volto a pedir desculpas, Sr Pongo! Minha vida de humano me obrigou a trabalhar para também poder comer.”

Pongo ficou em silêncio por alguns instantes e depois abriu a guarda: “Vou considerar essa sua justificativa como razoável. Mas vamos fazer um acordo: se um dia não vai poder vir me avise para que eu possa pensar nas coisas que são minhas atribuições…”

“Que atribuições?” Perguntei perplexo.

“Não se esqueça: eu tenho um caminho…” Ele respondeu.

“Ah!” Exclamei eu.

Pensei sobre o caminho, segundo as definições de Pongo, e na polêmica resultante daquela simplificação ser apresentada à minha espécie.

“Ouvi o seu monólogo quando chegou. Diria que, para um humano, foi um resumo razoavelmente objetivo.” Disse Pongo, e eu de forma relutante, considerei aquilo um elogio. “Só a palavra utópica, utilizada num dado momento, me causou um desconforto. Utopia rima com fantasia. Isto deixa triste qualquer um que segue o caminho.”

 “Temos que dar um tempo ao tempo.” Argumentei. “Muitas coisas consideradas impossíveis foram posteriormente conquistadas. Eu acredito que o pensamento humano tem evoluído nas últimas décadas. Você critica a nossa tecnologia de comunicação, mas ela permite que um pensamento, que há poucos anos ficaria perdido num canto qualquer do planeta, hoje esteja quase em todos os lugares, instantaneamente. Há um ganho no tempo. Há uma disseminação mais rápida da informação. E, desta forma, os semelhantes podem se encontrar. Podem saber que há outros como eles espalhados pelo planeta.”

“É um bom argumento.” Concordou Pongo.

“Então podemos falar sobre o foguete no rabo do tigre?” Perguntei.

“Contando que você vá até lá acender, por mim não faço objeções.” Riu Pongo

“Hu! Hu! Hu!” Fiz eu imitando Pongo. E ele me olhou e balançou a cabeça como quem está pensando: “Tem bobo pra tudo!”

“Não concordo que seja tão difícil falar sobre os problemas relacionados com o governo na espécie humana. Hoje são raros os lugares no planeta em que a opinião dos cidadãos comuns é analisada como uma ofensa frontal ao poder vigente. Nesse aspecto há mais liberdade. Sei que não é unânime, mas há mais liberdade, a ponto de muitas vezes ser difícil diferenciar as críticas de um desrespeito acintoso.” Argumentei com Pongo, ao mesmo tempo que tentava diminuir a importância de sua figura de linguagem em que comparava dissertar sobre esse tema como acender um foguete enfiado no rabo de um tigre.

“Não se esqueça que governar engloba coordenar, legislar e arbitrar.” Lembrou Pongo.

“E daí?” Continuei. “São aspectos diferentes do mesmo governar. Em nosso país chamamos isto de os três poderes. Os consideramos as faces complementares de uma democracia. Um faz as leis. Um julga as leis. O outro administra a coisa pública em harmonia com os dois primeiros. E cada um limita o poder dos outros dois evitando um desequilíbrio que seja prejudicial aos cidadãos.”

“A minha avó dizia que o macho dominante era aquele que servia para dizer qual a fêmea que iria mandar nele enquanto não aparecesse um macaco mais novo e com um pau maior.” Desdenhou Pongo.

“Ah! Pongo! Quanta grosseria! Seja mais direto! O que há de errado em nosso sistema?”

“Não há um Sistema!” Respondeu Pongo! 

“Não faça jogos de palavras… seja mais direto!” Reclamei.

“Primeiro vou contar um história de macaco.” Disse Pongo pesando com calma as palavras. “Você já observou que nossos métodos são menos complicados, mais diretos, e mais definitivos. Se a natureza nos tivesse brindado com uma mente tão privilegiada quando a do Homo sapiens, isso aqui poderia estar a mesma merda, ou ainda pior. Mas, do alto de minha simplicidade, posso tripudiar em cima de vocês, que tudo sabem e nada fazem. Se enredam nas próprias pernas e criam arremedos de sistemas, quando as respostas estão nas velhas histórias de macacos.”

“Vá ao assunto!” Provoquei.

“Bem!” Começo Pongo. “É a história da minha mãe.”

“Sua mãe?” Disse eu, surpreso. “não sabia que você a conhecera…”

“Isso não vem ao caso!” Cortou Pongo quase rispidamente. “Apenas avalie a história.” Depois fez uma nova pausa para se certificar de que eu estava quieto e continuou: “Minha mãe nasceu, cresceu e viveu até o fim de sua vida no Borneo. Ela tinha algo diferente dos outros Pongo. Ela era extremamente observadora e ponderada. Teve seus machos e seus filhos. Eu fui o último. E nisso não foi nada diferente das outras fêmeas do grupo. Mas, como ela via as coisas que aconteciam a sua volta, e quando opinava sobre um problema ou um evento qualquer se mostrava sempre coerente e acertada, passou a ser considerada uma referência no grupo. Todas as questões eram tratadas como se ela não existisse, mas quando era necessário dar a palavra final iam e perguntavam pra ela. Se ela não tinha todos os elementos para julgar ela fazia perguntas, ouvia as opiniões, mesmo as mais contraditórias, e então ela emitia sua opinião. E o que ela dizia era feito. Alguns podiam ficar contrariados, mas a acatavam. Porque ela era a Ponderadora. Isto não era poder, era doação. Todos sabiam que ela não ganhava nada com aquilo. O seu prazer era servir aos outros, dando o parecer que melhor atenderia às necessidades da comunidade. E assim foi até o fim de seus dias, quando estava muito velha e doente, mas com a cabeça funcionando perfeitamente. Um dia um dos elementos do grupo chegou apavorado trazendo a notícia de que caçadores humanos estavam muito próximos. Os mais fortes se apressaram em improvisar uma forma de transportar minha mãe que não teria condições de fugir pelas árvores como os orangotangos mais jovens. Mas ela, usando sua autoridade indiscutível de Ponderadora, disse que a coletividade não dispunha daquele tempo, e, além disto, carregar uma velha inválida daria chances maiores aos humanos de nos caçarem. Todos ficaram mudos, com os braços caídos, olhando para ela em sinal de profundo respeito e tristeza. E foram embora, pois sabiam que ela tinha razão. Vieram os caçadores e a mataram porque ela era uma macaca velha e imprestável. E me prenderam! Eu fui o único que não deu ouvidos ao bom senso da Ponderadora e hoje estou aqui!” 

Fiquei assombrado e triste. Não sabia o que era mais chocante. A forma como Pongo contara a história da morte de sua mãe? A forma como fora assassinada? O fato de estar agregando aos meus sentimentos a dor do assassinato de um animal que eu não conhecera? O desconforto de saber que nós humanos definimos assassinato como a morte de um ser humano por outro ser humano, e só? A morte da Ponderadora? A tristeza de saber que a sabedoria é volátil e sucumbe facilmente à violência? Por fim disse: “Esta história é muito triste, Pongo. Não tenho como definir os meus pensamentos como humano…”

“Ora! Homo. Em primeiro lugar essa história FOI triste! Já não é.” Retrucou o orangotango. “As histórias passadas, tristes ou alegres, não podem ser atingidas, não podem ser alcançadas, estão perdidas, quase apagadas. Elas só nos servem para ilustrar o presente… e esperar que mudem o futuro, que também é um fantasma que ainda não nasceu. A morte daquela macaca foi uma circunstância dramática, mas não é o que nos interessa. O que nos interessa é o Sistema.”

“Ela era sua mãe!” Exclamei.

“E você a matou, humano de merda!” Disse Pongo com raiva.

Como fui pego de surpresa minha cara deve ter se transformado uma máscara de estupidez, e Pongo riu bastante às minhas custas. Vi que ele não estava realmente com raiva. E entendi a relação do nosso presente com o que ele dizia sobre uma história do passado. Depois de rir bastante Pongo continuou.

“Lá havia um Sistema. Minha mãe não governava. Isto era feito por indivíduos mais fortes, mais capazes, e mais dispostos a governar. Ela apenas ponderava. Pesava. Discernia. E o que ela dizia era o que nós fazíamos. Todos nós éramos beneficiados com isso. Como eu fui o único que não fez o que ela disse, me ferrei. Aquele era o Sistema. Simples, prático, e funcional.”

Um grupo de meninas, guiadas por uma freira, se aproximou barulhento do muro que nos separava do fosso. “Olha, um macaco!” “Parece um homem!” “Nós evoluímos dum troço assim?” “Não digam bobagens meninas, Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, e esse macaco foi posto no mundo como uma das maravilhas do Senhor para…” Mas a preleção da freirinha foi abruptamente interrompida pois a “maravilha do senhor” soltou um grito e bateu no peito com uma mão enquanto com a outra manipulava o pênis para que ele aumentasse de tamanho. Em seguida soltou um lindo jato de urina que em arco caía no fundo do fosso. Houve gritinhos, risadas e uma debandada geral com a freirinha arrebanhando as meninas enquanto, sobre o ombro, olhava para trás e tropeçava apressada.

“Que falta de respeito, Pongo!” Protestei. “Por que fez isso?”

“Porque não pude cagar.” Riu Pongo. “Não é toda hora que se consegue…”

“Hum!”

“Mas já que estamos no assunto vamos voltar aos seus três poderes.” Continuou Pongo como se nada houvesse acontecido. “Podemos dizer que fazem parte de um arranjo como qualquer outro. É cheio de falhas. Permite todos os tipos de roubos e injustiças. Os que fazem as leis estão comprometidos com os patrocinadores. Os que julgam as leis muitas vezes não podem ser imparciais porque os seus próprios pecados podem vir à tona. Os executores se digladiam, agora sem espadas, mas usando as próprias línguas, pelo orgulho de sentarem numa cadeira para serem aclamados como aqueles que chegaram até ali. Às vezes nem sabem o que fazer com a vitória. Estão tão envolvidos com a luta pela conquista de um cargo que acabam esquecendo que depois terão que exercer uma função específica. Se juntarmos tudo isto na mesma panela, teremos: incompetência, corrupção, acordos sujos, gerência negligente, arbitragens comprometidas, e leis duvidosas. Uma máquina de baixo rendimento que trabalha mal e só avança, muito lentamente, porque há uma constante cobrança da massa,  da mídia, dos técnicos, e assim por diante. Uma máquina muito cara, por sinal. Com muitos vazamentos. Em que a riqueza da coletividade não acontece como resultado do funcionamento dessa máquina administrativa, mas como conseqüência do trabalho individual dos indivíduos que não fazem parte da administração. E o que é que está faltando? Uma mãe, ou um elemento ponderador, ou, voltando ao nosso tema: um Sistema.” 

“Pelo que vejo…” Interrompi. “… você está propondo um quarto poder. Uma ditadura… branda, invisível, totalitária mas voltada para o bem da comunidade, algo… algo inviável… quem se submeteria à determinação de alguém, ou de um grupo ponderador?”

“Eu sei!” Desdenhou Pongo. “Vocês prezam muito a liberdade e tal e coisa. Mas não bote palavras na minha boca. Não falei em ditador, nem como um indivíduo, e nem como um grupo de indivíduos. Nem em quarto poder, nem em substituto para a máquina administrativa. Eu disse que está faltando um Sistema.”

“Mas isto não existe!” Reclamei.

“Claro que existe!” Exclamou Pongo num largo sorriso. “Você está enterrado nele até as orelhas e não o vê!”

O que significa o Sistema? Qual é o Caminho? Essa simplificação apresentada por um orangotango poderia ser uma estrada para a espécie humana trilhar? Isto é apresentado na 8ª parte de Pongo.

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4 Comentários em “Pongo (7 de 8)”

  1. Franci23 Says:

    Pongo, que “cara” mais complexo.


  2. Ora… este é o Sistema de que falamos quando te visitei. E é esse sistema no qual estou pensando em interferir criando aquela entidade de que te falei – e que por enquanto deve permanecer em segredo, para que possa surgir no momento adequado e da forma adequada sem pressa nem interferências externas. Vamos conversar muito a respeito, ainda. 😉


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