Pongo (6 de 8)

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

“Pensei muito sobre nossa conversa no outro dia. Sou obrigado a reconhecer que no meio de suas loucuras há pontos difíceis de serem questionados. Porém não seriam de aplicação fácil para os seres humanos, com nossa grande diversidade cultural fortalecida por séculos de costumes já considerados sagrados. Os da nossa espécie prezam muito a liberdade e não abririam mão do direito de professarem a sua fé. As pessoas defenderiam o direito de serem livres !” Disse eu.

“Ninguém quis fazer uma pregação para que os outros mudassem o seu ponto de vista. Cada macaco no seu galho. Não é assim que vocês dizem? E, por falar em liberdade, os Pongo também prezam muito a liberdade… não só a da minha espécie.” Respondeu Pongo. “A diferença é que nós a compreendemos e vocês não… tanto que eu estou aqui e você aí.”

“Entendi!” Disse eu, encabulado. “Mas essa é uma realidade que eu não posso mudar.”

“Nem eu.” Respondeu Pongo de forma irônica. “Mas não se sinta constrangido com o meu estado. Lembre-se que sua espécie está fazendo tudo para nos salvar da extinção… logo haverá muitos companheiros meus, salvos por vocês, que serão trazidos para cá para poderem usufruir comigo dessa prisão…”

“Ora, Pongo! Você está sendo mordaz, e eu não posso lhe tirar a razão. Considere que, como indivíduo, eu me sinto impotente diante da realidade que você me apresenta. E a liberdade é algo muito difícil de ser estabelecida, mesmo entre os humanos…”

“O que eu vou dizer é mais batido que tampa de privada, mas vá lá…!” Disse Pongo coçando as axilas. “Todo o ser humano é livre, mas essa liberdade não é absoluta. A liberdade, de cada um, vai até o ponto em que fere a liberdade do outro.” “Ah!” Gritarão todos. “Mas isso é velho seu macaco idiota. Era isso que você ia dizer? Podia muito bem aproveitar o tempo enfiando uma banana no rabo. Essa aí é mais velha do que a minha bisavó! Tá em tudo que é gibi. Tá em livro de religião. Na constituição do Comeosquistão. No manual do clube de gamão. E nas receitas de bolo da minha tia, irmão!” E eu diria: “É? Então deve funcionar muito bem?” Aí alguns dirão: “Beeem…!” E eu, sabidão e cheio das rimas, arremataria: “Não! Não tem bem, nem Belém, meu bem.”

Gostou? Essa é de minha lavra; horrorosa mas foi o melhor que eu pude pra fazer uma graça. A pergunta direta como um chute no saco é a seguinte: Se todo mundo sabe que a liberdade de cada um vai até o ponto em que fere a liberdade do outro, por que ninguém obedece essa regra tão simples? Tão límpida? A resposta à essa pergunta é quase tão enrolada quanto a órbita do planeta.”

“Em grande parte o desrespeito pela liberdade alheia está preso às distorções nos conceitos morais ditados por grupos específicos em nome de uma instituição, uma facção, um governo, uma seita, e assim por diante, que criou um conjunto de regras. A minoria, que definiu aquelas regras, geralmente não vive segundo elas, mas tenta impô-las aos outros como se fosse vital a aceitação daquela lógica forjada que só satisfaz às necessidades do grupo menor. Ou o desrespeito pela liberdade alheia está ligado às atitudes individuais ou de grupos que vivem segundo padrões psicológicos distorcidos, doentios ou criminosos, quando comparados com o padrão da espécie.”

“Quando comparamos a exteriorização psicológica e conceitual padrão com as atitudes de um psicopata é fácil estabelecer onde e porque a liberdade foi desrespeitada, mas quando essa liberdade é negada pelas leis de um grupo, por uma tradição, por um conjunto de pensamentos ancestrais, em que, as vezes, o próprio indivíduo, que tem sua liberdade tolhida, obedece aos ditames porque isso está profundamente misturado aos conceitos de certo ou errado em sua infância, e fazem parte da vida daquela pessoa, como se fosse uma senso de justiça obrigatório e distorcido para poder fazer parte do grupo em que está inserido, o processo para avaliar a liberdade se torna bastante complexo.”

“O desrespeito pela liberdade, nos diferentes agrupamentos humanos,  envolve a razão, esse subproduto da inteligência resultante do uso da lógica relacionada à argumentação sobre qualquer assunto. A razão cria normas, regras, leis, códigos, que não são universais.”

“Dois oponentes acreditam estarem com a razão segundo seus códigos individuais mesmo que essas duas razões sejam evidentemente opostas aos olhos de um observador neutro que não foi educado segundo nenhum daqueles dois modos de pensar. E mesmo aqui cabe a pergunta: o que é um observador neutro? Qual é a lei que determina que a neutralidade de um observador o torna capaz de arbitrar sobre um determinado conflito entre dois sistemas? Quem dá a liberdade para que esse árbitro  julgue e, possivelmente, fira a liberdade de uma das partes ao terminar o seu julgamento? Quais são os critérios que definem a neutralidade? Quais sãos os critérios que definem a não validade de um determinado código utilizado por um grupo específico? Qual a diferença entre um código legal e o princípio ético? Como burlar os interesses, muitas vezes escusos, dos grupos que detêm o poder econômico ou religioso?”

“Concordo que essa é uma questão bem complicada.” Contemporizei.

Pongo continuou: “A razão existe! E aqui reside um dos maiores problemas para serem resolvidos pelos seres humanos nos capítulos finais do primeiro livro. Ninguém é dono da verdade, mas o mesmo não podemos dizer sobre a razão. Ninguém é dono da verdade. Nenhuma pessoa, nenhum governo, nenhuma religião, nenhuma tradição, nenhuma imposição, mas quem é o dono da razão? Essa resposta é muito complexa e tem muitas partes. Os seres humanos, nas questões indefinidas, tendem a se confrontarem em vários graus de argumentação ou agressão para fazerem valer o seu ponto de vista. Como qualquer um pode ser o  dono da razão eles tem o direito de exporem suas idéias pra tentarem convencer a outra parte de que sua posição é mais sólida, mas, geralmente, na empolgação do conflito resultante, desprezam a regra da liberdade e a ultrapassam. Alguém sairá ferido. Quando tomamos os confrontos simples e bem definidos entre entidades isoladas como no caso de um assassinato, um roubo, uma agressão, a maioria das leis, embora sejam desdobradas de uma forma tão prolixa que às vezes a mesma regra que serve para acusar alguém pode ser usada para absolver outra pessoa, é capaz de resolver a pendência e estabelecer a razão. No caso da mutilação sexual das meninas na Somália, um costume ancestral de um povo, a razão pode ser evidente tomando-se como critérios o fato de uma parte indefesa ser agredida, e a falta de lógica no procedimento cultural. Mas qual o fórum a ser  utilizado para julgar uma questão dessas? Vamos fazer uma revolução internacional? Serão discutidas as questões culturais, educacionais, médicas, e governamentais, para fazer valer uma razão que nos parece óbvia. Mas nós vamos agredir o costume de um povo, e, por mais paradoxal que pareça, o costume das meninas que acham que aquele procedimento é doloroso, mas normal, pois lhes garante um casamento promissor no futuro. Pergunte a uma menina somali de 15 anos, que não teve seu clitóris extirpado aos 5 anos, se ela não se sente segregada?  Poderíamos criar regras gerais tais como: a razão deve sempre ser amparada no conceito de ética para uma espécie e não para um grupo; a razão deve ser sempre amparada na ética a favor da parte mais indefesa; a razão deve ser amparada sempre na ética que defende a parte lesada. Então a ética é importante, pois ela é quem ampara a razão em caso de conflito. E o que é ética? Ética é a consciência da espécie. As leis não. As leis são um apanhado de normas que são utilizadas por um grupo para estabelecer critérios de julgamento na hora de determinar a razão. Às vezes um conjunto de leis representa tão bem a espécie como um todo que quase se confunde com a ética, mas não é a ética. Na grande maioria das vezes as leis são setoriais, nacionalistas, grupais, institucionais, religiosas, sectárias, e assim por diante. Na maioria das vezes as leis têm brechas, buracos, desvios, ou armadilhas, que permitem que a razão seja erroneamente determinada conforme os interesses do grupo que as redigiu. A lei é considerada cega, mas ela sempre permanece com um olho entreaberto para poder favorecer quem a patrocina. A ética não. A ética realmente é cega. Salomônica. Imparcial. Defende o menor e o mais fraco. Defende uma minoria injustiçada. A ética é a lei da humanidade. Se nesse momento fôssemos visitados por uma raça alienígena avançada que pudesse esmiuçar os nossos pensamentos e quisesse saber: Afinal, qual é a lei nesse planeta? Todos os livros jurídicos seriam desprezados. Só permaneceria aquele livro que não está escrito. A ética. A ética é um livro que pode ser lido diretamente na consciência da espécie humana.”

“Gostei!” Disse eu.

“Grande merda você ter gostado!” Arrematou Pongo.

“A minha opinião não é importante para você?” Perguntei. “Estou sendo sincero.”

“Grande merda a sua opinião ser importante para um Pongo!” Continuou Pongo.

“É verdade.” Suspirei.

“O pior é você ter que concordar comigo que a única verdade é que é tudo uma grande merda!” E desta vez foi Pongo quem suspirou.

“Hum! Hum!”

“Hu! Hu! Hu!”

Para que serve o governo? O poder serve a quem? Onde está o Sistema que deveria determinar o melhor caminho? A apreciação de um orangotango sobre estas questões pode ser avaliada na 7ª parte de Pongo.

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4 Comentários em “Pongo (6 de 8)”

  1. Franci23 Says:

    Ninguém é livre de jeito nenhum, isso bale aos Pongos e aos humanos desumanos.

    • romacof Says:

      Caro Franci. Cuidado com os atos falhos (ou tecladas falhas). Quem bale são as ovelhas Pongo ou Homo. A liberdade existe até na mente de um escravo que não bale. Ninguém consegue matar a liberdade de quem não quer se entregar, mesmo acorrentado. Podem matar o indivíduo mas não a liberdade. Liberdade não é algo que os outros enxergam. Pode ser uma liberdade amordaçada pela raiva e pela indignação mas está lá dentro do cara.


  2. As meninas somalis que “querem” passar pela mutilação sexual para serem bem aceitas e terem um bom casamento não são maduras o suficiente nem estão informadas o suficiente para serem responsáveis pelas conseqüências de sua própria vontade manifesta. Portanto, o exemplo não serve para questionar a validade de uma intervenção humanitária.

    Se fossem pessoas adultas, com plena noção das alternativas (ou seja, de posse da informação de que em outras culturas não é necessário ser mutilada e perder o prazer sexual para ser considerada uma boa esposa), livres para escolher sem pressões ou sanções e mesmo assim quisessem se submeter a este costume bárbaro, aí seria problema delas.


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