Pongo (4 de 8)

(Se você quer saber como começou esta história cliqueaqui e vá para o 1º capítulo.)

Pongo catava obsessivamente um inseto que teimava em se esconder entre os pelos de seu peito. De vez em quando resmungava e se irritava com a própria inabilidade. Quando percebeu que eu havia chegado disse sem me olhar e sem abandonar a perseguição ao inseto: “O que vai ser hoje? Jogar bananas pra cima? Falar da verdade? Ou trair os amigos?”

 Eu fiquei em silêncio durante algum tempo e depois perguntei: “Você percebeu que eu tinha um gravador, não é?”

 “Só quando você o desligou!” E depois emendou: “Por isso comecei a falar bem alto. Pensei que você queria gravar a nossa conversa para amplificá-la depois… talvez estivesse ficando surdo…” E mostrou todos os dentes, em sua característica risada símia. Depois disse: “Ops!” Pongo pegou o inseto. Botou-o na boca, mastigou-o bem e o engoliu. “A minha mordida é muito maior do que a dele, mas ele é mais saboroso do que eu!” E pareceu feliz com sua vitória de Pongo.

 “Estamos bem?” Perguntei.

 “Eu estou sempre bem… você é que está com o orgulho ferido e a consciência amassada, mas nada que sangre ou mate… logo estará bom.” Diagnosticou Pongo.

 Depois disto ficamos sentados um longo tempo, cada um em seu lado do fosso, sem dizer uma palavra. Eu procurando uma continuação e Pongo procurando outros insetos saborosos.

 Por fim resolvi recolher os cacos de minha dignidade humana e falei: “Realmente, os seres humanos acreditam que  algumas bananas não caem!”

 “Maravilha”. Disse Pongo.

 “Mas custo a acreditar que um orangotango saiba a verdade sobre as bananas que não caem!” Comentei.

 “Mas isso não existe!” Disse Pongo valorizando uma indignação fingida.

 “A verdade?” Perguntei.

 “Não! Sr Homo! Bananas que não caem!” Respondeu Pongo. “Para a minha espécie e de tooodas as outras que eu conheço…” E fez com os braços um gesto abrangente indicando os demais moradores do zôo. “… com exceção, é claro, da espécie de vocês, tudo que sobe desce, sem explicações metafísicas ou mágicas. Essa mania humana de personificar a natureza, que ao acaso nos alimenta ou nos ferra, é que complica o significado da verdade para vocês.”

 “São ponto de fé!” Retruquei.

 “E o que realmente significa fé pra vocês?” Inquiriu Pongo.

 “Eu simplificaria fé como uma crença em algo sem dispor de uma demonstração palpável.” Respondi.

“Ah! Por exemplo vocês têm fé na existência do átomo!” Continuou. “Não podem apalpar um átomo mas acreditam piamente que ele está ali porque uma dúzia de físicos disseram que é assim que é. É isso?”

 “Não.” Reclamei. “O átomo é um modelo. Nós não o vemos, mas sabemos que ele pode ser demonstrado indiretamente em um sem número de experimentos, desde a constatação fotográfica de suas partículas até os efeitos bélicos mais destrutivos.”

 Pongo complementou a sua moda: “Então o átomo está no primeiro livro. E já nem é átomo, pois é feito de partículas, mas isto não vem ao caso. É uma convenção teórica que explica uma série de eventos. Não pode ser realmente visto, mas não há discussões sobre sua existência. Acredito que a fé também não se aplica à eletricidade. Não a vemos mas vemos o seu efeito. Uma lâmpada acende. Um idiota enfia o dedo na tomada e leva um puta choque. E por aí vai. Logo a eletricidade está no primeiro livro. Junto com todas as outras teorias que desenham a beira da ciência de vocês. Algumas são tão impalpáveis, usando seus termos, que se resumem a elucubrações matemáticas que ainda não foram refutadas ou melhoradas ou comprovadas. É isso?”

 “É!” Respondi. E tentando uma resposta menos refutável emendei: “Uma definição melhorada de fé, segundo o foco da nossa conversa, está mais voltada para a crença no místico, no espiritual, numa divindade, sem que esta crença necessite de um prova concreta.”

 “É, eu sei. Tenho acompanhado. Mas a cada dia acho mais impressionante!” Exclamou Pongo.

 “Explique melhor!” Intimei.

 “A evolução se desenrola por 4 bilhões de anos, sempre partindo da premissa que ela tenha iniciado aqui, e chega à uma espécie que conseguiu desenvolver uma civilização com um pé no espaço. Essa mesma civilização é a prova de que a evolução existe e anda para a frente. Então os indivíduos dessa espécie articulam um  complexo e misterioso conceito de fé mística, e passam a viver presos à esperança de um pagamento num pós-vida, se suas ações forem voltadas para o bem. Mas conceituam esse bem de acordo com seus interesses pessoais e circunstanciais, muitas vezes burros e mesquinhos. Esquecem totalmente da evolução como um processo que aponta numa direção. Quando estão com as portas abertas para o salto fundamental para o próximo estágio, surpreendentemente, não abrem os olhos. Passam a mistificar o processo e o chamam de fé. Param no meio do caminho demonstrando que não entenderam porra alguma. Cagam no arremate. É de ficar triste. E vocês eram a nossa esperança…”

 “O que há de errado com a fé?” Perguntei.

 “Que eu veja… nada!” Disse Pongo.

“Então o seu comentário não é compreensível!” Devolvi.

 “Claro que não é!” Sorriu Pongo. “Estamos falando de coisas diferentes. Ou melhor: estamos falando do uso diferente que cada um está dando para o mesmo conceito de fé. Você fala de uma fé religiosa baseada em verdades que algumas pessoas definiram como únicas. Eu falo na fé necessária para que o entendimento cumpra o seu propósito.”

Achei que Pongo estava fazendo mais um de seus jogos com  palavras, mas resolvi provocá-lo para ver como ele se saía: “São realmente coisas diferentes! E seria bom você definir melhor esse seu uso para o conceito de fé.”

“Ah!” Exclamou Pongo. “Isto é simples. Eu vejo as coisas assim: se uma espécie chegou até aqui, não importando a possibilidade de que o acaso a aniquile amanhã, é uma obrigação, dessa espécie, fazer o bom uso do entendimento conquistado. A lógica aponta para um maior grau de complexidade evolutiva, em parte por ação da mãe natureza, e em parte como resultado do conhecimento adquirido. Qual é o propósito? Sei lá. Estamos agradando alguém? Sei lá. Será que um dia, num futuro muito distante, a somatória desses atos bons nos levará a concluir que afinal havia uma explicação, e  que esta verdade sempre esteve escancarada a nossa frente mas nós não a víamos? Sei lá. Não vou ficar aqui queimando os meus miolos tentando justificar aquilo que é inequacionável por absoluta falta de dados. As únicas coisas que eu sei é que o caminho é para a frente, e que o meu instinto me manda andar. E isso me basta!”

 “Pelo visto o seu posicionamento teológico é bem compacto!” Comentei. 

“Não há nada de teológico no meu posicionamento! Quando eu uso o termo deus, ou a expressão o meu deus, estou apenas usando as palavras dentro de um contexto. Não peço nada e não reclamo de nada. Não o nego e nem o aponto. Sou absolutamente incapaz disto.” Defendeu-se, Pongo. “Eu só falei da fé. Quem mistura fé com teologia é a espécie de vocês.”

“Mas seu posicionamento também não é uma verdade incontestável.” Disse eu.

 “Eu não disse nenhuma verdade. E nada é incontestável, Sr Homo. Mas ninguém pode dizer que o meu ponto de vista não leva a uma linha de ação lógica.” E levantou a cabeça batendo com o indicador na testa.

 “Ok! Sr Pongo.” E o desafiei: “Quem sabe agora teremos um contraponto sobre a fé humana…”

 “A fé humana…” Grunhiu Pongo. “Fé é fé. A fé não é de ninguém. Se a fé é dos humanos já deixa de ser algo confiável só pelo fato de ser dos humanos. A fé dos humanos é uma interpretação. Vocês apenas a interpretam de um jeito que a natureza acha estranha.”

 “Como, estranha?” Perguntei.

 “Veja bem!” Continuou. “Logo a espécie mais desenvolvida cientificamente, a que maior obrigação teria de entender a sua fé nos compromissos morais com a natureza, é a que mais inventa fantasias para mistificar a própria relação com o processo universal. E esse processo é de uma clareza absurdamente simples e dispensa mistificações. Resume-se em: anda-se para a frente. Vamos construir. Vamos salvar. Vamos amar. Vamos dar. Se você negativar essas afirmativas teremos: destruir, matar, odiar, roubar. Isso é andar para trás. Isso não é lógico. O absurdo é que em nome da própria fé a espécie humana inventa artifícios, que a leva para trás, contra a corrente, e os chama de verdades. A natureza só pode achar, no mínimo, estranha, essa atitude.”

 Ficamos quietos por um longo período. Pongo se deitou e virou de costas para mim. “Ei!” Eu disse. “Não me diga que vai dormir! Pensei que você ia começar a falar sobre a verdade.”

 “Estou cansado e não sei do que você está falando.” Disse Pongo sem se virar.

 “Fingido!” Reclamei.

“Ah! Está bem! Amanhã eu lhe conto quem é o dono da verdade.” Roncou.

 Esperei mais um instante e vi que ele havia dado a conversa por terminada. “Até amanhã, então!”

 “Hu! Hu! Hu!”

Afinal, as religiões dizem verdades ou não? O que acontecerá no dia em que o deus hipotético visitar a terra? Deus criou todas as coisas ou está nascendo? Esses temas controversos são apresentados pelo orangotango na 5ª parte de Pongo.

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4 Comentários em “Pongo (4 de 8)”


  1. A série Pongo é muito interessante, Sr. Homo.

    Deliciosa de ler, difícil de comentar.

    Prossiga, por favor, prossiga! 🙂

    • romacof Says:

      Dois elogios numa frase! Vou considerar isto um record! “Deliciosa” e “difícil de comentar”. Não sei qual dos dois eu degusto primeiro. Ainda que… em “prossiga… “prossiga” haja um subliminar desafio do gato…. 😀


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