Pongo (3 de 8)

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

Encontrei o Pongo pygmaeus de Borneo, agora simplesmente Pongo, o meu amigo orangotango vesgo, morador do zoológico municipal, deitado em sua sombra preferida sobre a pedra ao lado do fosso. Comia distraidamente uma banana. Quando me viu deu um salto e se apressou em dizer, como quem se justifica veementemente: “Juro que essa não é a nossa banana.” E deu sua risada símia de quem achou muita graça da própria piada.

“Engraçadinho!” Disse eu, enquanto ligava um gravador escondido  entre os meus apetrechos de desenho, pois eu sentia a necessidade de registrar aquela situação surreal. “Espero que hoje você tenha afinado suas explicações pois está me devendo algumas respostas.”

“Prometo não decepcioná-lo!” Gritou Pongo.

“Por que está gritando?” Perguntei.

“Ah! você está me ouvindo bem?” Perguntou Pongo, ainda em voz alta.

“Perfeitamente! Não entendo por que está gritando!” Respondi.

Pongo sorriu e falou em seu tom normal: “É que eu não lhe vejo desde ontem, e, como vocês humanos envelhecem muito rápido, quis ter certeza de que seus ouvidos ainda conseguem me ouvir perfeitamente.”

“Você é um mau contador de piadas!” Arrematei, preocupado com a possibilidade de Pongo ter percebido o gravador, e, ao mesmo tempo, me sentindo um pouco culpado por estar traindo a boa fé do meu inusitado filósofo de zôo.

Pongo, depois de uma longa e silenciosa pausa, como quem pondera sobre uma preleção que vai iniciar, sentou em sua pedra preferida e disse: “Vamos então falar sobre a verdade! E que a mãe natureza perdoe os nossos pecados…”

“Como assim?” Quis saber.

“Bem!” Disse Pongo. “Para começar a nossa conversa já não é uma coisa muito natural… não me diga que você já tinha visto, em algum lugar, um orangotango conversando com alguém de sua espécie?”

“Devo concordar que deve ser algo muito improvável!” Considerei.

Pongo parecia ter optado por uma explicação completa. E como se eu fosse uma criança começou a me explicar a necessidade de algumas convenções primárias. Ele desconsiderou o fato de que  era um orangotango falando para um ser humano. A idéia que transparecia era de que ele, que há 14 milhões de anos tivera um ancestral comum com o Homo sapiens, nos devia aquela aula. Começou, como quem divaga, olhando para um ponto acima de mim. “Evidentemente algumas coisas, no princípio, necessitavam ser determinadas. Pelo menos pra que houvesse uma troca construtiva de informações. Uma convenção inicial foi necessária para as coisas básicas. Os primeiros registros tentariam estabelecer o que era consenso. As explicações mais esmiuçadas viriam depois. Vamos, aleatoriamente, dizer que vocês começaram com as cores. Qualquer uma. Digamos, o vermelho. O vermelho é vermelho. Vamos pular aquilo que vocês chamam de notas de rodapé, que falam dos comprimentos de onda do espectro eletromagnético, e da absorção de freqüência por um objeto qualquer. Teríamos que afirmar algo aparentemente contraditório, como por exemplo,  que uma coisa é vermelha porque não absorve o vermelho, e o texto logo descambaria para uma salada científica. Vamos omitir, como regra, essas demonstrações e explicações escritas em letras miúdas. Vocês tinham que ser mais pragmáticos e diretos. Vou tomar você como o coordenador nessas reuniões nos primórdios da sua civilização. Você reuniria o pessoal de sua espécie na praça e gritaria, mostrando, ao mesmo tempo, um lindo morango maduro: “Pessoal! Qual é a cor desse morango?” E todos responderiam em uníssono: “Vermelho!”. Pronto! Uma conclusão a que todos haviam chegado sem discussão. Poderíamos ouvir alguns sussurros periféricos como: “Não sei não! Pra mim ainda não está suficientemente maduro… deve estar travento… eu diria que está verde!” Ou então: “Eca! Aquilo lá já passou do ponto, deve estar azedo…!” Mostrando que as subjetividades são possíveis e fazem parte de qualquer contexto em que seres humanos tentam chegar a um acordo. Vocês, neste caso específico, devem ter corrido da praça a tapa esses indivíduos, porque eles estavam apenas atrapalhando a sua demonstração do que seria uma conclusão unânime.  Para fazer um livro das convenções básicas houve muitas conclusões a que se chegou pela tentativa e erro, algumas após uma longa experimentação, e, no caso de vocês, até depois de cruentas discussões, porque os pontos de vista não eram tão incontestáveis assim, mas esse capítulo é longo e preencheria toda a história da ciência humana. A verdade é que, com o passar dos anos, há poucas coisas realmente óbvias que ainda não estão em todos os livros, e portanto ainda impedindo uma conversa construtiva entre as partes antagônicas e ditas inteligentes. Um exemplo clássico é a diferença entre a demonstrável história arqueológica de bilhões de anos e a negação sistemática dos criacionistas. Esses últimos não admitem que um esqueleto de um velociraptor, datado como falecido há 65 milhões de anos, em conseqüência da queda de um meteoro, ou por uma indigestão, tenha mais do que 10 mil anos. É a mesma questão do morango que talvez não seja tão maduro, ou talvez já esteja podre. Algumas coisas não são tão evidentes para todas as pessoas e ninguém é obrigado a aceitar qualquer declaração como definitiva. Não é suficiente despejar sobre elas um contêiner de provas se elas não estiverem abertas para estudarem estas provas de uma forma imparcial e não passional.”

“Vamos dar mais alguns exemplos de coisas óbvias.” Continuou Pongo. “Não coma cocô! Não durma dentro da boca de um leão! Pular de um penhasco… não seria um ato inteligente sem os recursos adequados! pois as observações não indicam que as asas são geradas espontaneamente. Claro que todos os indivíduos estavam livres para fazer qualquer experimentação que comprovasse se essas regras, ditas de forma tão despretensiosa, eram realmente confiáveis, ou não. É assim que nasceu e se desenvolveu a ciência. Alguém deve ter sugerido que antes de pular de um penhasco o proto-cientista comesse merda. Este passo, embora indigesto e nojento, teria menor chance de extinguir a espécie de vocês já nas primeiras experiências. Mas foi, é, e sempre será necessário, tentar, comparar, discordar, discutir, criar modelos, teorizar, concluir, e estabelecer as regras. Qualquer coisa diferente disso transformaria essa bagunça que é o viver com os semelhantes (tão dessemelhantes) num caos. Aos poucos vocês foram evoluindo nos acordos. As leis físicas deviam ser comuns. Cair é para baixo. Subir é para cima, e assim por diante. Conforme o manual foi ficando mais complexo entraram as leis da cinemática, da termodinâmica, alguém falou em entropia, em física quântica, relatividade, teoria das cordas, quarks, e por aí vai. Você joga xadrez?” Por um momento a pergunta não pareceu ser dirigida a mim e eu demorei a encaixá-la no contexto. Pongo aproveitou a deixa para se divertir às minhas custas: “Alô! Alô! Planeta Terra! Há vida aí? Preciso de alguém inteligente que de preferência saiba jogar xadrez?” 

“Ah! Sim! Estava atento no que você estava dizendo e a pergunta me pegou de surpresa. Sei sim jogar xadrez!” Respondi.

“Se o meu papo está lhe dando soninho podemos deixar isso pra lá…” Disse Pongo.

“De forma alguma! Continue! Já lhe disse. Você deu uma guinada muito brusca e eu não percebi. Perdoe-me se pareceu desatenção.” Contemporizei pois sabia que isso deixava Pongo nitidamente envaidecido.

“Eu dizia…” Continuou ele. “… que regras comuns a todos permitem uma comunicação sem questionamentos. Mais ou menos como as regras de xadrez. Você pode sentar, nesse exato momento, com um japonês que nunca viu mais gordo em sua vida, na frente de um tabuleiro de xadrez, sem que vocês saibam dizer nenhuma palavra na língua um do outro, ou numa língua qualquer de conhecimento comum, para jogar uma partida de xadrez. E essa partida pode ser jogada de forma absolutamente correta e sem desavenças. Simplesmente por que as regras são planetárias. E ponto. Quando o manual dessas coisas inquestionáveis estiver pronto, e infelizmente ainda não está, vocês já podem dar o próximo passo.” 

Como parecia que Pongo tinha apenas feito uma pausa, e não havia ainda terminado a sua surpreendente preleção, fiquei quieto, a espera. Logo depois ele continuou: “Geralmente eu não enveredo para esses assuntos, mas como você me perguntou qual era a verdade, e eu, em princípio, não gosto de deixar ninguém que faça uma pergunta sincera, sem resposta, vou abrir uma exceção.” E me olhou profundamente com seu olhar vesgo. Como eu não emitisse nenhum som ele continuou: “Depois que as coisa básicas estiverem determinadas é necessário que vocês estabeleçam os termos do segundo e fundamental código que permitirá o convívio entre os seres humanos. E isso, ao mesmo tempo que é de uma simplicidade translúcida, é de uma dificuldade incomensurável, e esse paradoxo só existe por estarmos falando de seres humanos. Com formigas ou abelhas esse ponto não precisaria nem ser discutido. Entre animais mais complexos talvez haja necessidade de um urro ou de um rugido, com certa ênfase. Mas os seres humanos têm um espinho profundamente cravado para ser retirado antes de estabelecerem as regras fundamentais que falam de todas as outras coisas que não estão no primeiro livro. E repito, como quando comecei a falar disso: Isso não é a verdade! Não me ponha o rótulo de dono da verdade no meu rabo, isto é pior do que me chamar de gorila.”

“Já concordamos sobre esse ponto.” Aquiesci.

“Mas…” Pongo coçou o queixo. “Pensando bem acho que não é uma boa hora para falarmos sobre esse assunto, afinal, mal nos conhecemos… quem sabe terminamos isso noutro dia?”

“Isso eu já estava prevendo!” Arrematei. “Na última hora você tira o corpo fora e a conversa fica incompleta… da mesma forma que pulou a história da banana…”

“Ah!” Pongo deu um tapa na própria testa e exclamou: “A banana! Quase ia me esquecendo dela.”

“É!” Disse eu. “E a banana, seu espertinho?”

 “Se não caiu Deus comeu!” Concluiu Pongo.

“Ah! Pongo! Se era pra dar uma resposta desse tipo você bem que poderia ter ficado calado. Isso não tem nada a ver com a questão!” Reclamei.

 “Como não?” Continuou o orangotango. “Se a criança nascer bonitinha, fofinha, e, saudável, vocês costumam dizer: Graças a Deus!” Quando a criança nasce com uma deformação qualquer, ou sérias limitações como aquele cadeirante que cruzou por aqui, vocês dizem: Por que Deus permitiu que isso acontecesse?” Você chegou a aventar a possibilidade de que não havia justiça naquele fato. A justiça pressupõe alguém que julgue. E vocês fazem uso desse pressuposto para tudo. Isto vale pra chuva, pro raio, pro vento, pros acidentes, pros crimes, e para qualquer outra razão que você possa imaginar, inclusive por ganhar, ou não ganhar, a mega-sena. Deus quis, ou Deus não quis. Vocês botam em xeque o senso de justiça da entidade que vocês adotaram como o criador de vocês como se ele fosse responsável por todas as bananas que foram atiradas para o alto e não caíram. Vocês não são responsáveis por nada, nem as leis da física, nem a lógica, e nem o acaso. Tudo que deu certo é por que um deus ajudou e tudo que deu errado é por que um deus não deu uma mãozinha. E, que isto fique bem claro, estou falando do deus de vocês, pois o meu, embora goste muito de bananas, deixa que elas  caiam quando eu as atiro pra cima.”

 “Hum! hum!” Disse eu, e optei por ficar calado.

xxx

Quando cheguei em casa fui avidamente conferir o gravador. Mas ele estava desligado! Desligado! Conectei o aparelho ao computador e verifiquei que havia um único e longo arquivo de uns quarenta minutos. Nele se ouvia a cacofonia própria do trânsito com vozes humanas ocasionais dizendo coisas triviais. Quase no fim ouvi a minha própria voz: “Boa tarde.” Eu estava entrando no zôo e cumprimentava o guarda. Logo depois a voz de Pongo dizia: “Juro que essa não é a nossa banana.” Em seguida eu disse: “Engraçadinho!” E o aparelho ficou mudo. E eu fiquei mudo por muito mais tempo, ouvindo na minha cabeça a voz de Pongo: “Hu! hu! hu!”

O que é a fé? Qual é o significado de acreditar em algo? Qual é a necessidade da mistificação para se agir de forma positiva? Sobre esses assuntos o orangotango dá o seu palpite na 4ª parte de Pongo.

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2 Comentários em “Pongo (3 de 8)”

  1. Franci23 Says:

    Gostei da explicação de Deus, Pongo sabe das coisas!

    • romacof Says:

      O capítulo 4º estou burilando. A minha crítica mais aguda (minha esposa) botou a boca em Pongo. Disse que eu tinha que ser mais macio. Está difícil de dourar a pílula.


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