Pongo (2 de 8)

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

Um dia levei um pequeno cavalete de pintura pra fazer aquarelas de Pongo. Uma idiossincrasia a mais não faria diferença. Nenhum de nós estava muito falante e a tarde transcorria morna. Um funcionário, que dirigia o veículo elétrico em que eram carregadas as rações, às vezes estacionava atrás de mim e fazia comentários curtos: “O anterior estava melhor!” Ou: “Isso aí parece mais um sagüi!” Ou ainda: “Se ele dá uma olhada nisto aí, te mata!” Ou um raríssimo: “Agora melhorou.” Eu não respondia e armava as feições que desestimulariam qualquer crítico de arte, porém sem muito sucesso.

Num dado momento outro veículo elétrico zumbiu pelo passeio e observei que era um rapaz aparentando uns quinze anos que comandava uma cadeira complexa com o movimento de apenas dois ou três dedos. Um tetraplégico. As pernas curtas e mal formadas se acomodavam mortas à frente do assento. A cabeça estava apoiada num suporte à direita. Lembrava Stephen Hawking. Um ser humano com muitos problemas físicos, mas, aparentemente, de uma família rica para dispor daquele aparato tecnológico. Quantos outros semelhantes a ele viviam sem terem as mesmas opções? O cadeirante passou os olhos rapidamente pelos meus desenhos, leu as informações da tabuleta que apresentava o orangotango de Borneo, olhou demoradamente para Pongo, e depois foi embora. 

“Isso não é justo!” Exclamei.

“Bah!” Disse Pongo. 

“Bah, o quê?” Retruquei. “Você acha isso justo?” 

Pongo permaneceu deitado sem me olhar e disse: “Posso fazer uma pergunta antes de falarmos do que é ou deixa de ser justo?”

“Faça.” Respondi.

“Se eu jogar uma banana para cima o que vai acontecer?” Perguntou Pongo.

“Pra cima do quê?” Quis saber. Pois não via relação da pergunta que ele fazia com a passagem do deficiente físico e a questão levantada sobre uma hipotética justiça divina, sobrenatural, ou da natureza, que permitia todo aquele conjunto de limitações para um ser humano.

Pongo sentou, me olhou por uns instantes, coçou a testa e arrematou: “Esse é um dos problemas da espécie de vocês. Sempre desconfiados. Acham que todo mundo vai agir com vocês da mesma forma que vocês agem com os outros. Mas vou desenhar bem devagar a pergunta.” E, teatralizando com gestos, Pongo continuou: “Se você, Homo, estiver no meio do nada, pegar uma banana e jogar essa banana pra cima, para o alto, com toda a sua força, e não existir nada físico num raio de, digamos, mil quilômetros nem para os lados e nem para cima… ah! e nem um animal voador ou saltador ultra-rápido que goste de bananas… o que vai acontecer com a banana? Hein? Hein?”

“Vai cair! Ora bolas.” Respondi rindo das macaquices de Pongo. 

“Não me diga…! Por quêêê?” Perguntou ele, com os braços esticados e as mãos espalmadas pra frente, se esforçando pra fazer uma mímica de assombrado.

“Está bem!” Disse eu. “Vou fingir que caio na sua esparrela só pra ver até onde vai esse seu silogismo de zoológico… porque a lei da gravidade fará com que a atração do planeta sobre a banana traga a banana de volta.”

“Bem…! na verdade a banana também atrai o planeta, mas vamos considerar esse dado como desprezível, para não desvirtuar a nossa conversa.” E fez o seu sorriso com todos os dentes, nitidamente querendo dizer: “Um a zero pra mim! “Mas…” Continuou rapidamente antes que eu replicasse. “Eu vou lhe dizer que, pela lógica humana, há uma outra opção…!”

Pensei por um breve instante na possibilidade de uma pegadinha, de um jogo de palavras escondidas, mas refutei qualquer especulação nesse sentido e fui categórico: “Não, Pongo! Nessa você não me pega. Pela lógica humana, como você enfatiza, só há uma alternativa. A lei da gravidade fará a banana cair e ponto final.”

“Não quer reconsiderar?” Perguntou Pongo. “Eu me sentiria constrangido em ter que demonstrar que você nega os seus próprios princípios, talvez por um breve momento de esquecimento, ou quem sabe um ato falho? Aliás, o ato falho é uma das invenções psicológicas da sua espécie de que eu mais gosto. O cara escorrega na casca de banana que acabou de comer… só vocês mesmos!”

“Tá legal, senhor Pongo, vá direto ao assunto. Qual é a resposta?” Perguntei, já curioso para saber aonde o raciocínio do orangotango iria nos levar.

 “Vou responder… você se lembra que no outro dia você me perguntou se eu sabia qual era a verdade?” Perguntou o orangotango, repentinamente emendando dois assuntos. Eu me lembrava. Ele ironizara a pretensão humana de se julgar uma peça chave dentro de um universo infinito. Sou obrigado a reconhecer que o fato dele estar coberto de razão me deixara mais irritado do que as ironias em si. Num dado momento eu perguntara se ele, o sábio Pongo de Borneo, afinal, tinha as respostas… se ele sabia a verdade… mas nossa conversa foi interrompida pela chegada do tratador. 

“Claro que me lembro!” Respondi. 

Pongo coçou o cocuruto, estalou a língua e disse: “Longe de mim a ambição de ser o expositor da verdade. Só um idiota acha que pode defini-la. É muita pretensão! Qualquer ser humano, um papa ou um popular, morrerá com a ilusão de que suas regras são o livro definitivo. Se alguém tropeçou em algo que acredita ser a verdade então vá vivê-la. Mas não arraste ninguém. Será mais honesto…”

“Ei. Ei!” Interrompi. “Conheço o seu jogo, amiguinho! Entra num longo discurso pensando que me enrola. Primeiro vamos resolver o problema da banana…” 

Pongo mostrou os dentes “Por quê? Está com fome?” Como eu apenas torci o nariz e deixei claro que não estava a fim de participar da piada ele continuou: “Não se preocupe com a banana, ela está num lugar seguro. Nós a jogamos com bastante força. No devido tempo ela vai cair. Esqueceu? Há uma lei da física que a puxa inapelavelmente para baixo, ou pelo menos foi o que eu entendi de sua explicação. Ou então ela não vai cair… e aí sim! vamos ter que nos preocupar com a banana. Mas, enquanto ela não cai podemos falar um pouco sobre a verdade.”

“Você acabou de dizer, meu amigo Pongo, que não tem a menor pretensão de ser um expositor da verdade! Está se contradizendo, cara?”

“Mas nada impede que façamos especulações sobre ela, meu amigo Homo.” Pongo se levantou, esfregou as mãos na barriga e exclamou: “Ops! A natureza não perdoa… eu… bem, eu tenho que fazer minhas necessidades fisiológicas… viu como estou ficando fino? Amanhã continuamos. Afinal, não teremos nada pra fazer! Você continua seus desenhos enquanto eu cato meus piolhos.” Depois tentando fazer uma imitação da minha voz Pongo complementou: “Quem sabe conversa vai, conversa vem, acabamos descobrindo o que pode acontecer com a banana, além de cair, é claro. Está bom para você… cara?”

Depois de um instante de silêncio dei uma boa gargalhada pela imitação que Pongo fizera do meu jeito de falar. 

“Hu! Hu! Hu!” Fez Pongo.

Vou tentar gravar uma conversa com o orangotango. Qual é o manual das coisas inquestionáveis? E a banana vai ou não vai cair? Estas respostas serão dadas na 3ª parte de Pongo.

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3 Comentários em “Pongo (2 de 8)”

  1. Franci23 Says:

    Pongo sabe demais e como todos que realmente tem noção do que estão falando ele não diz nada.

    • romacof Says:

      Aguarde… a banana pode não cair! Hu!Hu!Hu!
      (A história de Pongo é longa, por isto a estou colocando em capítulos. Você é o primeiro que faz um comentário sobre algo realmente sério postado. Agradeço. Mas tudo que é sério também é para rir… contando que se pense um pouco depois de rir… como já foi dito sob a foto de Pongo no primeiro capítulo)

  2. ( Li ) Says:

    Vou te contar…eu não sei mentir…quem me conhece sempre sabe quando estou tentando mentir….quando tento mentir,não consigo ficar séria.

    E isso é um problema.

    As coisas sérias são sempre engraçadas,embora as pessoas não se dêem conta disso.


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