O espetáculo continua…

A presente postagem foi motivada pelo comentário de Arthur Golgo Lucas no post anterior. Corro o risco de estar sendo vítima de uma provocação trollada, usando os termos do próprio Arthur, mas como serve de complemento ao assunto já iniciado, lá vai…

Caro Arthur! Você afirma, em seu comentário, que “a idéia de garantir o sustento da família que perde o arrimo em função da reclusão é ótima! (o itálico é seu), e acrescenta: “Será que preferiríamos que a família de um detento passasse a cometer crimes para se sustentar?“ Respondo: De forma alguma. Da minha parte optaria por uma ação do sistema que transformasse o detento num “trabalhador-estudante  compulsório”, como, por exemplo, em: limpeza pública, e aulas, limpeza sanitária,  e aulas, “despichamento”, e aulas,  limpeza de construções públicas e monumentos, e aulas, separação e reciclagem de lixo, e aulas,  construção de móveis para famílias sem recursos, e aulas, fabricação de tijolos, e aulas, construção de casas populares, e aulas, plantio de alimentos para serem doados aos sem condições pra comprá-los, e aulas, e aulas, e aulas, entre tantas outras coisas que você, certamente, com seu agudo senso de observação focado no social, seria muito mais capaz do que eu para enumerar.

Você também argumenta que: “O grande problema não é o auxílio previdenciário à família do detento”, (mas sim) “a falta de auxílio decente às famílias que estão na miséria e não conseguem inserção no mercado de trabalho, e, em seguida, numa aparente contradição, nos lembra que esta foi a “grande sacada do governo Lula”, que graças aos programas de bolsas de auxílio (que, se os meios de comunicação não nos mentem, estão melhorando a situação de indivíduos que viviam abaixo da linha da miséria)  ganhou dois mandatos, vai eleger sua sucessora, e, acrescento (quem viver, verá! gostando, ou não!):  voltará como “o grande pai dos pobres”. Acredito que num ponto concordamos: embora, como se diz no jargão de marketing, este tenha sido um inteligente aproveitamento do nicho pobreza, com um nítido viés de compra de votos embutido, neste ponto houve uma atenção do Estado, caso contrário não haveria reflexos no número de votos obtidos e na popularidade do presidente.

Aqui poderíamos começar a brincar com os números e dizer que o governo daria mais uma contribuição se forçasse as “filantropias” eleitorais a direcionar uma parte do dinheiro gasto no processo para os programas de bolsas. Ou, debochando, é claro, taxar os desvios, taxar as propinas, taxar os roubos, taxar os superfaturamentos, taxar as obras fantasmas, e tantos outras atividades políticas ilícitas no país, que são perfeita e absurdamente mensuradas, e contabilizadas aos centavos, antes de serem guardadas nos arquivos da polícia federal, criando assim mais uma fonte de recursos direcionáveis para os programas bolsas-qualquer-coisa. Uma forma dos ladrões maiores contribuírem para a diminuição da criminalidade no país.

O auxílio do Estado poderia ser regiamente engordado. Ou então, quem sabe, com este afluxo inesperado de verbas, a ajuda possa se tornar decente (já que você está afirmando há vários segundos:  “eu disse falta de auxílio decente… decente!”  (seja lá o que signifique, na prática, esta decência!)). Os mendigos citados por você vão, infelizmente, continuar, mesmo que seja criado um programa do tipo “adote um mendigo”. Eles não deixarão de ser mendigos. Conheço vários. Há entre eles um grande respeito por aquele estilo de vida. Eles têm um código, uma honra torta, e um profundo desprezo pelo modo como nós vivemos. A máxima deles, verbalizada inúmeras vezes  em atendimentos nos serviços públicos de saúde é: “trabalhar jamais… nem por gratidão”.  O crime, também citado por você, vai continuar, pois os exemplos que vem de cima são muito fortes e demonstram que o crime compensa, e que tudo aquilo que vínhamos ensinando para os nossos filhos estava errado. Estão aí o parlamento e o judiciário que podem confirmar o que digo. Você ainda diz, em seu comentário, que “morrer de fome resignado no meio da rua é que ninguém vai”!  Como não? A resignação começa quando a capacidade de se indignar  morre. E isto, pelo que vejo, já está acontecendo.

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10 Comentários em “O espetáculo continua…”

  1. Franci23 Says:

    Amén cara, uso suas palavras como as minhas, é no mínimo indigno termos que pagar aos pecados alheios e o pior, sofrermos com a violência e ainda termos que pagar a família do criminoso que nos subtraiu algo ou até mesmo aguem. Isso é no mínimo injusto! Mas pensando bem o Brasil é assim mesmo, injusto pois não bancamos uma porrada de político que faz o mesmo que muito bandido que esta atrás das grades?!


  2. Acabo de ver o texto. A resposta necessária é longa e estou no final do expediente internético deste turno, mas logo comentarei. Eu não estava trollando, não. 😉


  3. A volta do defensor dos Direitos Humanos

    Romacof,
    aqui estou de regresso
    e suplicante te peço
    que entendas esta situação.

    A família
    do meliante detido
    já tem por demais sofrido
    pra sofrer mais uma privação.

    Eu sei
    que muitos vão te falar
    que o honesto é que vai pagar
    pra sustentar vagabundo.

    Acontece
    que a inocente criança
    não pode pagar a lambança
    na qual virou este mundo.

    Compreenda
    que se todos merecem respeito
    de um modo ou de outro jeito
    a família há que se proteger.

    Não importa
    se de gente pacata e honesta
    ou do pulha ladrão que não presta
    é assim que tem que ser.

    Arthur Golgo Lucas

    😉

    • romacof Says:

      Lindo! Não conhecia esse seu lado poético. Mas está havendo um equívoco. A minha argumentação é de que o auxílio para a família do meliante SEJA PAGO PELO MELIANTE. O que está efetivamente acontecendo hoje é um acúmulo de encargos sociais: nós pagamos o auxílio reclusão, nós pagamos o sustento do detento enquanto recluso, nós pagamos as ocasionais indenizações para os familiares das vítimas, nós pagamos o sistema carcerário falido, nós pagamos a segurança pública, nós pagamos um serviço de segurança privada para tentar cobrir a ineficiência da segurança pública, nós pagamos o poder judiciário em sua velocidade quelônica, nós pagamos o poder legistalivo docente do crime, e nós pagamos o poder executivo que não executa a transformação do preso num indivíduo produtivo. NINGUÉM QUER A FOME DAS POBRES CRIANCINHAS FILHAS DE UM CRIMINOSO. NÓS QUEREMOS QUE O CRIMINOSO TRABALHE. NÓS QUEREMOS QUE OS TRÊS PODERES TRABALHEM. Nós queremos que alguém mais, além de nós, mostre alguma coisa produtiva. O detento ocioso só está fazendo um curso de pós graduação para o crime, enquanto nós pagamos o curso, o seu sustento, o de sua família, e a ineficiência da administração.


      • Eu gosto de paródias. 🙂 Essa saiu em segundos, de improviso. A métrica ficou meio capenga, mas eu não tinha mesmo pretensão de concorrer ao Grammy. 😛

        A Lei de Execução Penal ( http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L7210.htm ) em seus arigos 18 a 37 estabelece normas para o trabalho dos detentos. Não é cumprida na quase totalidade dos presídios brasileiros. Se fosse cumprida, não estaríamos a arrancar os cabelos por causa da proteção à família dos detentos.

        O que eu acho ridículo é o parágrafo 1° do artigo 36: “O limite máximo do número de presos será de 10% (dez por cento) do total de empregados na obra.” Ou seja, a lei impede que haja empresas voltadas exclusivamente para o trabalho dos detentos, exigindo que eles sejam misturados a outros trabalhadores. Isso torna as coisas muito mais complicadas e desestimula imensamente o empresariado a oferecer vagas para ressocializar este público.

        Por que raios não liberam este percentual para 100%? “Para não gerar trabalho escravo”, é a resposta usual. Arrãm. Até parece que o único modo de evitar abusos é misturar diversos tipos de desgraçados…

        • romacof Says:

          É uma sina. É mais forte do que eu. Os atos falhos dizem todas as verdades e aqui houve o esquecimento de um acento para que o ato fosse completo: “A Lei de Execução Penal ( http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L7210.htm ) em seus arigos 18 a 37 estabelece normas para…”, você nos esclarece que há mais leis que não são cumpridas… o que não é exatamente uma novidade. Então há dois arigós, o 18 e o 37, que não funcionam…! 🙂 Eu sabia que tinha algum arigó por tras disto. E aInda: não seria um trabalho escravo: os detentos estariam trabalhando dando sustento às suas famílias, obtendo o próprio sustento, e TENDO AUDAS DE CIDADANIA – ALGO QUE OS FAZEDORES DAS LEIS NÃO TÊM!

  4. ( Li ) Says:

    Bom…..metendo a colher na conversa alheia,rs.

    Acho justo o governo fazer tal pagamento.

    Isso porque o mesmíssimo governo não faz nadinha para acabar com a miséria.

    Não faz nada para que as crianças não se transformem em criminosos e esquece que comer todos os dias seja uma necessidade e não um luxo.

    O governo dá esmolas….eu queria que ele desse 1 salário mínimo para TODOS que precisam.

    Que ajudasse a criar cooperativas e que desse ensino profissionalizante para quem precisa.

    Ajudamos,com nossa omissão,a sociedade a ser injusta e quando o sujeito vai preso….exijimos que ele seja o ÚNICO culpado.

    Vou perguntar pro Pongo,o que ele acha disso,rs.

    • romacof Says:

      Li, acho justo que o governo PAGUE, que o governo AJUDE, que o governo COMPENSE, e por aí vai. Só que o governo não faz isto!! O governo pega o nosso dinheiro (o meu e o seu) e faz bolsas-compra-de-voto em suaves prestações mensais. Ninguém ganha um caniço, uma linha, um anzol, uma minhoca e uma aula de como pescar. Não me importaria de pagar impostos para que isto fosse feito. Só vejo pessoas ganhando uma posta do peixe que outros pescaram. Tire a posta é tudo fica como estava, sem-pê-com-bê.


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