Pongo (1 de 8)

 

 

Às vezes eu cito o orangotango vesgo num ou noutro post e me dei conta de que nunca havia contado a história de como eu o conheci… então lá vai!  //  O nome dele é Pongo, e com ele aprendi que as piadas podem ser tão sérias como a vida… depois de rir é só pensar um pouco mais.  //  As explicações são pontos de vista, mas não a verdade.  //  A razão é a lógica que pode estar dos dois lados ao mesmo tempo.  //  A liberdade é tanto mais longa quanto mais só se estiver.  //  As leis são folhas mortas. A ética é a alma das leis.  //  A democracia era um método muito útil para grupos pequenos… para os grandes abre a porta para a plutocracia e para a injustiça.  //  O melhor método para gerenciar grupos grandes é o Sistema.  //  O Sistema hoje é mal visto porque é recém nascido, burro, incompleto, criado pelo homem, reflete os interesses dos que o alimentam, e não tem autonomia para corrigir os erros nele contidos.  //  Um Sistema autônomo se recicla, se atualiza, evolui, controla a eficiência das coordenadorias setoriais, dispensa as arbitragens, e governa.  //  O Sistema é um ditador que necessita de uma só lei: sou uma criatura para servir.  //  O Sistema de forma empírica já existiu e  servia bem sem o homem… mas com o homem terá que ser refeito. 

Eu estava debruçado no muro que separa o passeio do zôo do fosso de segurança. Depois do fosso, sentado sobre uma pedra, à sombra de uma árvore, um orangotango dormitava. Às vezes ele mudava de lado, coçava a cabeça e olhava pra mim, assim como eu olhava pra ele. Eu fazia um gesto idiota, batia continência, e o símio, tecnicamente um Pongo, ignorava as minhas macaquices e deitava pro outro lado. O espaço entre nós era de dez a doze metros, aproximadamente, e quatorze milhões de anos, evolutivamente.

No passeio circulavam, por trás de mim, pais e filhos barulhentos, pipoqueiros, vendedores de algodão doce, e funcionários do zôo. Minhas pernas tinham me levado até ali e resolveram descansar à sombra para que eu pudesse observar  o meu primo. Uma tabuleta ao meu lado o identificava como um Pongo pygmaeus, originário do Borneo, uma ilha ao norte da Austrália, e informava que se tratava de um animal na lista de extinção, com uma população aproximada de 100 mil indivíduos. Confesso que isto me deixou triste.  Algumas crianças se penduravam no braço de um adulto e apontando para o orangotango gritavam: “Paiê! Olha lá o macaco!” Ou então: “Bah! Que macacão feio!” E um gordinho lambuzado de chocolate perguntou pra mãe: “Maiê! Que bicho é aquele?” e a mãe respondeu: “É um gorila! meu filho.” E foi embora. Então eu ouvi, muito claramente: “Gorila é a tua avó, vergonha primata!”

Quanto tempo nós levamos para processar uma informação surpreendente? Talvez alguns poucos segundos. Mas as voltas que nosso raciocínio dá para alinhavar todas as partes da informação tornam a percepção temporal elástica. O orangotango falara. Não. Não apenas isto. Ele ouvira o comentário errado da mulher e respondera demonstrando ter plena consciência de sua localização filogênica dentro dos primatas. Chegara a chamar a mulher de vergonha primata! Olhei em volta. Não havia ninguém nas proximidades. Ainda incerto se havia ouvido, ou não, o orangotango falar, e temeroso de me expor, pondo em dúvida as minhas faculdades mentais, eu disse: “Ei!” E repeti, meio envergonhado: “Ei! Você aí”. Mas o orangotango permanecia indiferente aos meus chamados. Passou um dos guardas do zôo. Dei um tempo e voltei à carga: “Eu sei que você falou, seu orangotango de merda! Qual é? Agora vai dar uma de mudinho pra cima de mim?” 

O orangotango se sentou, olhou bem para mim e disse: “Se você me chamar de gorila, uma vezinha que seja, eu juro que não digo mais nenhuma palavra.” 

Depois dos cinco segundos necessários para engolir a estupefação eu me justifiquei, como se fosse a coisa mais natural do mundo ser reverente com um orangotango: “Mas eu sei que você não é um gorila!” 

Ele, batendo forte com a palma da mão direita sobre a pedra em que estava sentado, exclamou: “Ah! já é um bom começo!”

Continuei: “E como devo chamá-lo? Afinal todo mundo tem um nome!” 

Ele pensou um pouco e disse: “Pongo! Na verdade eu sou um Pongo, e isso serve tão bem como qualquer outro nome… menos gorila… tenha dó! são 7 milhões de anos de separação! Aquela fêmea de sua espécie deveria estar num zoológico.” Foi então que eu percebi que meu novo amigo era vesgo. Vejam só que coisas acontecem na vida da gente! Eu nunca tivera um amigo vesgo. E, como se não bastasse isso, era um orangotango falante e culto. 

Uma vez absorvida essa particularidade inverossímil, que me obrigava a ficar vigilante sobre a proximidade das outras pessoas, e conferir meus próprios pensamentos em busca de qualquer desvio de conduta que justificasse uma preocupação com a própria sanidade, passei a freqüentar o zoológico nos dias de semana, em que havia menos movimento. Comecei a levar uma prancheta, lápis e pasteis. Em pouco tempo os funcionários já me conheciam como o excêntrico que gostava de desenhar orangotangos. Melhor do que ser conhecido como o maluco que gostava de conversar com orangotangos.

Eu comentei com Pongo que as pessoas me chamavam de Romacof mas ele torceu o nariz e disse que me chamaria Homo, para estabelecer, de uma forma justa, um contraponto entre as duas espécies. Concordei e desde então, para Pongo, eu era Homo. Expressei minha preocupação com sua espécie, seu reduzido número e habitat escasso, e, procurando um posicionamento paralelo da parte dele, perguntei como ele via a posição do Homo sapiens, que, como espécie, aparentava ter obtido um relativo sucesso evolutivo. 

E Pongo respondeu: “Eu não contaria vantagem tão cedo. Dizem que a minha espécie, falhando as tentativas para preservá-la, se extinguirá em algumas décadas. O que significa isto? No mínimo 20 e no máximo 60  anos, já que não foi dito várias décadas e nem uma centena de anos. Uma média de 40 anos, diríamos. Um tempo muito curto. Eu acrescentaria que se nesse tempo as consciências de vocês não mudarem a ponto de entenderem que medidas definitivas devem ser tomadas para que uma determinada espécie, digamos co-irmã, como a minha, seja efetivamente salva nas próximas 4 décadas, o estrago teria proporções muito maiores e entre as conseqüências não assistiríamos só a extinção dos pobres e infelizes Pongo, mas também a dos ricos e felizes Homo sapiens.”

Retruquei: “Compreendo sua falta de confiança. Afinas não temos sido um modelo de civilidade ao longo da história. Mas você há de concordar que além da evolução em si, a espécie humana tem dado muitos saltos tecnológicos importantes nos últimos tempos. Hoje todos os indivíduos, por exemplo no que se refere à comunicação, estão muito mais próximos um dos outros. Daqui para o Borneo é um pulo, e há vários grupos realmente interessados na preservação das espécies em extinção.” 

“Está bem!” Contemporizou Pongo.

“Vamos!” Provoquei. “Diga se a nossa posição não é sólida. Aponte as fragilidades de minha espécie.”

“As mais óbvias, ou as mais sutis?” Perguntou Pongo.

“Disserte!” Disse eu. E Pongo começou uma longa dissertação. 

“Dividimos este planeta. E o planeta vai, na sua rápida e torta trajetória para um destino que tanto pode estar ali na esquina como alhures. Duvida da órbita torta? É só somar: rodopia como um pião-cai-não-cai, dá voltas numa estrela chamada Sol, o Sol balança aleatoriamente ao sabor das variações gravitacionais múltiplas e gigantescas no Braço de Órion, esse braço se alonga na centrífuga espiral da Via Láctea, a Via Láctea acelera sabe-se lá pra onde, fugindo de uma hipotética big explosão inicial como o diabo da cruz… enfim a somatória de um emaranhado de direções de causar inveja a qualquer  bumerangue. E na casca vamos nós. Os primatas. Nós somos 100 mil! diz aí nessa tabuleta. Vocês são  seis ou sete bilhões. Cada qual um embrulho em torno do próprio ego. Cada um pisando firme em sua placa tectônica compartilhada com outros tantos milhões. Firmes como em gelatina, enquanto o magma se arreganha abaixo de nós, logo após o tal pré-sal. Qualquer um desses viajantes humanos – é  só querer, como você apregoa – pode se comunicar com qualquer outro, em qualquer lugar da esfera, via qualquer um dos inúmeros sistemas, frutos da imaginativa produção tecnológica, o suco obtido num espremedor de cacholas humanas, o ápice da evolução como você diz, evolução talvez aqui mesmo iniciada há 4 bilhões de anos. E qual é a finalidade dessa comunicação múltipla e instantânea? Qualquer uma, aparentemente única, e importantíssima: um e-mail pra namorada ou um depósito on-line de bilhões na compra duma porra qualquer. E qual a utilidade disso tudo se o fedor bater na nuca? Respondo: no contexto cósmico valem tanto quanto um peido. Todos comunicados e paradoxalmente solitários. Belas e poéticas piadas bípedes. Presas à casca de uma laranja prestes a cair no abismo. Todos nós, os Pongo e os Homo, podemos ser extintos antes que eu termine de dizer esta frase, e nada, absolutamente nada, pode ser feito quanto  a isto. Sobreviver um pouco mais, quem sabe, talvez seja o resultado mais estupendo a que sua espécie pode chegar como resultado  de todos os esforços tecnológicos somados.” 

Fiquei quieto por um longo tempo e em parte concordei: “Você está certo! Nossa posição é frágil!” E depois continuei. “Mas uma extinção dessa forma seria inexplicável. Qual seria o sentido disso tudo? Como justificar todo o esforço do processo evolutivo em 4 bilhões de anos, como você há pouco insinuou, para que esta chama se extinga num anti-clímax idiota?”

Pongo riu com aquela risada de todos os dentes de que só os símios são capazes e acrescentou: “Extinção inexplicável? Desde quando um evento natural necessita de uma explicação? Respostas? A espécie humana tem todas. Justificativas? Para os mais variados paladares. A verdade? Vocês compram no boteco da vila como troco para dois pacotes de maconha. Veja a reação de vocês para dois casos extremos: se as coisas vão bem são ateus, mas se o negócio feder, pra valer, pedem uma ligação urgente com Deus. Rezar, a maioria não sabe, mas há quem reze por eles. E vocês também têm quem vende orações com direito a lugar na primeira fila. Claro que com preço a combinar, e dependendo da demanda gerada pela desgraça da ocasião! Religiões? Há dúzias, só entre as únicas e verdadeiras. O deus único tem que rebolar para satisfazer às vaidades dos donos da verdade. Senão, haverá ciúmes! E guerras. Vocês mataram, ao longo da história de vocês, mais em nome da fé num deus único do que por qualquer outra razão sócio-econômica. Vão ter que  explicar isto pro cara quando derem as caras por lá. Havendo um lá! Havendo o cara!” 

Deu mais uma risada e continuou: “Coisa mais convencida essa tal espécie humana. Bilhões de estrelas em uma galáxia entre bilhões de galáxias. Treze ou quatorze bilhões de anos pra aquecer a máquina até esse ponto específico, e tudo isto foi feito para quê? Pra quem? Pra vocês! O supra-sumo da criação. Os queridinhos do criador. Os seres mais pretensiosos do universo certamente merecem um lugar especial! Então é criado um universo cujo tamanho não pode ser calculado ou imaginado e essas coisinhas lindinhas e especiais são colocadas ali. Pronto. Maior do que o universo só o umbigo do homem.”

Eu fiquei irritado com a posição de Pongo sobre a nossa espécie e ataquei: “Você certamente sabe as respostas! Vamos, me diga qual é a verdade?” 

“Outro dia!” Respondeu ele. “Esse papo é muito longo e o cara que me trás o rango está vindo aí… você certamente tem que trabalhar… e eu tenho que estudar um pouco.”

“Estudar?” Retruquei. “Onde? Como?”

E Pongo respondeu: “Esqueceu que eu moro num zoológico… você não imagina a quantidade de espécimes que passam por aqui.”

“Espécimes… da minha espécie?” Perguntei.

“Exatamente! Isso aqui é uma festa. Todo tipo de animalzinho divertido e interessante  circula nessa passarela.” Arrematou Pongo.

“Até amanhã!” Eu disse.

“Hu! Hu! Hu!” Respondeu ele.

Uma banana jogada para cima pode não cair? Afinal, Quem é o dono da verdade? Talvez estas respostas possam ser dadas na 2ª parte de Pongo.

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4 Comentários em “Pongo (1 de 8)”

  1. ( Li ) Says:

    Estou a ler…Pongo!!!

    Incrível…seria uma palavra aceitável?

    • romacof Says:

      Obrigado pela visita, Li. No próximo cartão postal vou dizer ao Pongo que você gostou. Mas cuidado! ele é muito radical em alguns apectos e nem tudo o que ele diz pode ser levado ao pé da letra. Afinal, filosofia de um orangotango vesgo é sempre uma piada.

  2. ( Li ) Says:

    Nisso empatamos,eu e o Pongo,rs.
    Eu também sou radical em algumas coisas e nem sempre o que digo é sério….rs.

    Gostaria de fazer um convite ao Pongo…o achei um “bichinho” tão adorável…..ele gostaria de escrever algumas coisas no meu Blog?

    Não é sempre que encontramos um bichinho assim.

    Pensei em convidar um certo padre,mas minhas convicções religiosas….não são lá muito católicas e pensando bem…evitar conflitos é altamente saudável,rs.

    Passe meu email pro Pongo,podes?


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