A fórmula do vômito!

Eu queria ter a sensação de estar tão próximo do olimpo quanto me fosse permitido, por um breve instante, para poder depois me recordar, pelo resto dos meus dias, daquele frêmito orgasmático.

Li no jornal. E a notícia plantou em mim um desejo enorme que, acredito, passa a ser fomentado na alma dos outros 190 milhões de habitantes do país. Excetuando, é claro, as criaturas supra-humanas, quase divinas, que são o busílis (sempre quis usar esta palavra) da notícia.

Há seres em nossa terra que se aposentam recebendo 38 mil reais mensais, acrescidos pelo rosário de abonos adicionais que recebem lindos epítetos jurídicos. Nesta mesma terra em que o teto para aposentadoria é, hoje, R$ 3.416,54.

Eu, mero mortal, me aposentei, após 35 anos de trabalho, com R$ 2.212,98, o que me obriga a continuar trabalhando e pagando impostos. Mas, é claro, eu sou um simples médico, sexagenário, que foi aposentado, compulsoriamente, após um infarto remendado com três safenas. O fato de, nos 35 anos de trabalho (que continuam), ter, inúmeras vezes, a vida de meu semelhante em minhas mãos e sob a minha responsabilidade, e de ter perdido a conta das noites em que não dormi cuidando da saúde dos filhos dos outros, não me faculta nenhum benefício especial. Afinal, esta é a regra do jogo no mundo dos comuns.

Nós, os outros 190 milhões, não reclamamos isonomia. Eu, da minha parte, quero continuar a respeitar as tais regras que, dizem, no país da democracia, valem para todos. Nem me passa pela cabeça que as nobres criaturas privilegiadas tenham seus ganhos reduzidos como resultado de uma reclamação feita por indivíduos desclassificados, pelo senso de justiça, como nós.

O que eu queria! ah! este é o meu desejo! Tem duas partes:

Primeiro: eu queria saber o nome destas pessoas que vivem numa dimensão jurídica tão especial. Sentar perto delas. Sentir o cheiro delas. Eu queria me arrepiar com a emanação eletrostática que certamente estes seres especiais têm. Eu queria ter esta sensação de estar tão próximo do olimpo quanto me fosse permitido, por um breve instante, para poder depois me recolher à minha insignificância humana e recordar, pelo resto dos meus dias, daquele frêmito orgasmático.

Segundo: eu queria olhar nos olhos dos indivíduos que legalizam estes fatos. Respirar o ar que elas respiram. Beber ajoelhado da fonte da sabedoria. Perceber o poder que os cobre como uma toga elegante. Ficar ofuscado pelo brilho sobrenatural de suas mentes. E vomitar com o fedor que suas consciências exalam.

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3 Comentários em “A fórmula do vômito!”

  1. Franci23 Says:

    Cara, até pensei em um terceiro desejo, enviar um homem bomba ao olímpo e explodir alçgum desses seres imortais… Mas notei que sou insignificante demais para isso, e que merda se refaz rápido e sendo assim os tais deuses já estariam refeitos em seus tronos fétidos.

  2. romacof Says:

    Na política, Franci, a imortalidade dos deuses é como a revoada das moscas sobre um prato de merda. Não adianta abanar. Seu braço vai cansar. E quanto ao vômito há um agravante. Que eu omiti no post para não ficar muito nojento. Nós continuamos a perpetuá-los no governo. Nós somos os cães. Nós acabamos comendo o próprio vômito.

  3. Antidemon Says:

    E como diria Homer Simpson…

    “A maquina do capitalismo é movimentada com o sangue do trabalhador”


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