Simplificações perigosas embora bem intencionadas!

O povo não compreende mais o termo  responsabilidade   quando o assunto é eleger, ou governar, ou parlamentar ou julgar. Responsabilidade fede a algo que se apaga, que se arquiva, e que se esquece. O desencanto e a indiferença já são maiores do que a indignação… bem como os governos gostam!

Em “O Poder do Eleitor”, nos editoriais de Zero Hora de 19/04/2010, na página 12, há uma pérola de simplificação, bem intencionada, bem ao gosto de Condorcet, cujo ápice é a afirmação de que, tendo em vista os recursos tecnológicos que o eleitor tem a sua disposição para fuçar na vida dos candidatos, “o cidadão ganha nova responsabilidade pois perde o direito de alegar desconhecimento do candidato que elege.” Brilhante! Assim avança a humanidade, aumentando a responsabilidade do governante, afinal a democracia não é o governo do povo?

Vou acrescentar alguns dados antes de citar a minha afirmação, igualmente simplificadora e que tem a pretenção de sacudir, ou até destruir (mas isto é utópico) uma estrutura podre para depois poder remontá-la com critérios mais saudáveis, e cuja base pode ser, por ser radical, perfeitamente errônea, pois não pretendo me atribuir a propriedade da verdade.

O número de eleitores no Brasil, segundo os últimos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de novembro de 2009, era de 131.887.788 indivíduos. Este número deve ser maior em 05 de maio de 2010 quando termina o prazo de inscrição. E segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a população brasileira estimada é de 192.802.499 seres humanos. Na página da IDG NOW, também citando dados do IBGE, em artigo de 11/12/2009, somos informados que os brasileiros que acessaram a internet em 2008 representavam 35,8% da população (quem checar o link verá que aqui também fiz uma grosseira simplificação, contra os meus próprios argumentos, não citando a relação entre acesso à internet e o nível de escolaridade e nem o porque de 104 milhões não acessarem a rede de informação). Como há uma defasagem crônica e compreensível entre os dados do IBGE, TSE e outras fontes informativas, que oscilam atualmente em dois anos, e como começamos falando de simplificação, tomo a liberdade de aqui fazer uns arredondamentos simplificativos que facilitem o cálculo que pretendo demonstrar. Digamos que somos 192 milhões de habitantes, e, que destes, 133 milhões estarão habilitados a votar, e que o acesso à internet atualmente é de 40%. Logo, partindo do pressuposto que todos os internautas tomem para si a “nova responsabilidade” (o que já é uma inverdade), teremos 53,2 milhões de pessoas que vão “perder o direito de alegar desconhecimento do candidato que elegem”. Estas pessoas serão responsáveis pelo governo que 138,8 milhões de brasileiros vivos e irresponsáveis, ou ignorantes, ou desinformados, vão receber. Porque, convenhamos, não é possível ter como fonte de informação confiável aquilo que um candidato diz sobre sua própria pessoa. 

Vamos tentar outra simplificação? Não vamos responsabilizar estas 138,8 milhões de almas com a responsabilidade de uma escolha cega: só quem tem acesso à internet sabe e pode votar, e viva George Orwell! Não! Parece elitista demais. Quem sabe outra? e esta me agrada mais: todo mundo pode votar, mas terminamos com o horário eleitoral gratuito na TV, e aquele período passa a ser preenchido por longas ladainhas recitadas por belas figuras de ambos os sexos e todas as cores, com o referido conteúdo da “atual disponibilidade de informações” citada no editorial. Agora sim! Não só os internautas terão acesso à responsabilidade, mas todos os indivíduos que dispõem de uma televisão. Uma das fontes da rede cita a Eletrobrás e nos informa, em 19/04/2010, que enquanto 25% dos lares brasileiros têm um computador a televisão está presente em 97,1% das casas. Em outra simplificação contábil podemos dizer que desta forma a responsabilidade passa dos ombros de 53,2 milhões de brasileiros para as mãos de mais de 129 milhões de compatriotas. Agora o fardo fica mais leve e com sabor de democracia grega nas suas origens (vá ao Google). O resultado seria muito mais fidedigno, ou, como preferem dizer os estatísticos da nobre arte de profetizar ou induzir os resultados eleitorais, representativo. A foto do candidato ficaria em baixo, ao lado da apresentadora que fala a linguagem dos surdos-mudos. Ele, também mudo, nos poupando de todas as inverdades que entopem os nossos ouvidos neste leilão da corrupção futura, em horário nobre. Que beleza!

Mas não vão acontecer: nem a versão Grande Irmão, e nem a versão Candidato Mudinho. Também não vai acontecer a versão Eleitor Consciente aventada no editorial de ZH. Simplesmente porque talvez eu seja um dos raros leitores de editoriais. O texto é longo, o pessoal não gosta de ler, dá trabalho, cansa, a que horas começa a novela? e também tem o fato de que este ano a coisa vai terminar em grenal e o resto “quissisprôda”.  A desinformação é o que grassa na era da informação! O povo não compreende mais o termo responsabilidade quando o assunto é eleger, ou governar, ou parlamentar ou julgar. Responsabilidade fede a algo que se apaga, que se arquiva, e que se esquece. O desencanto e a indiferença já são maiores do que a indignação… bem como os governos gostam!

Citei Condorcet e não dei a minha versão simplificadora, que pode ser chamada pelas expressões alternativas: não-se-tira-leite-de-vaca-morta, ou, não-venda-o-seu-voto, ou, não-seja-um-cúmplice, dependendo do prisma pelo qual se olha a atual política brasileira. Ela também é bem intencionada e, como qualquer opinião lógica individual, pode ter um reflexo irracional na sociedade e gerar o caos: Vote 999 e Confirme!

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6 Comentários em “Simplificações perigosas embora bem intencionadas!”

    • romacof Says:

      Seja bem vindo! É sempre um prazer “brigar” com você. A resposta dei no Pensar Não Dói. Aliás, se pensar bem, votar nulo também não dói e faz pensar.

      Em tempo: Há perguntas nos Três Mosqueteiros.

  1. ( Li ) Says:

    Tu nem imaginas!!!!
    O pior de tudo não são os desinformados…são os BEM INFORMADOS,rs.

    Na minha família eu sou acusada de QUERER saber demais,rs.

    Eles possuem belas memórias seletivas.

    Só lembram do que lhes convém.

    Professores de ensino superior que nunca leram a
    Constituição.

    Porque não lhes interessa,rs.

    Ignorantes de seus próprios direitos.

    Professor tem o direito de ser burro?

  2. ( Li ) Says:

    Tadinhos!!!…..de nós.


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