A Vingança de Madá (2ª parte)

(continuação)

Má quis se levantar para sair dali e se esconder em algum buraco onde não existissem meios de comunicação de qualquer espécie, mas Paulo a segurou pelo punho suavemente e a fez sentar: “Sou seu parceiro! Mas só posso ajudar se você confiar em mim!”   Dois longos minutos se passaram enquanto Má procurava no tampo da mesa a resposta para o enredo confuso e cheio de vergonha em que sua vida se tornara. “O que você sabe?” conseguiu enfim perguntar.

Um velho de aparência elegante e sacana passou pela mesa e deu um cascudo amigável no ombro de Paulo: “Salve! Biduzão!”

Paulo fez um sinal para o garçom que imediatamente estava ao seu lado: “Água… pode ser mineral com gás?… para os dois!”

“É pra já, Biduzão”!

“Biduzão?”

“É apelido, do apelido…!” a imitou Paulo.

Conseguiu arrancar um sorriso fraco de Má, que já se sentia Madá, e que estava sentada numa boate com um negro, que todos tratavam por Biduzão, enquanto seu plano de matar um infeliz se escoava pelo ralo, e uma gorda maltratava o palco cantando funks com letras de duplo sentido:

“Eu conheço um padeiro. O nome dele é Beludo. Quando eu quero comer cuca. Eu compro a cuca do Beludo. Tem cuca Beludo? Tem cuca Beludo? Vem que tem, vem que tem, vem que tem! Vem que tem, vem que tem, vem que tem!”

Paulo bebeu a água que o garçom trouxe e disse para Má: “Vamos simplificar! Eu demorei um pouco para reconhecer você… até perceber que a diferença básica estava na peruca. Não precisa ficar com vergonha de mim… você não é a primeira que bebe e cai no conto do namorado apaixonado que quer tirar umas fotos íntimas para guardar de recordação. A internet está cheia desse lixo. O que me preocupa agora são as evidências de que sua vinda até aqui não estão voltados para a diversão…”

“Qual são essas evidências? Sr…Biduzão!”

“Não sei ao certo! Mas posso deduzir. Você sistematicamente recusou todas as tentativas de… abordagem. Está à espera de alguém. Não está com uma postura relaxada de quem espera alguém com prazer. Você está tensa. Quem a observa vê em você uma águia pronta para mergulhar sobre uma presa. Quando percebi quem você era  juntei os prováveis motivos para suas atitudes. Não me surpreenderia com um fim rápido para o calhorda que tirou proveito de sua boa fé”

“Muito imaginativo de sua parte…”

Num movimento rápido Paulo tirou a bolsa de Má e a abriu. Três segundos bastam para um especialista fazer um diagnóstico. Devolveu a bolsa antes que ela tivesse tempo de articular um protesto.

“Parece que não estou imaginando coisas.” Disse Paulo.

“Filho da…! Você não tinha esse direito! O que pretende fazer? Me entregar pra polícia?”

Paulo sorriu enquanto pesava a forma de dizer o que tinha em mente. “Eu lhe disse que seria o seu parceiro nessa empreitada, mas você precisava confiar em mim…”

“Não tenho saída!”

“Tem sim! Você se levanta, vai embora, esquece a merda que ia fazer, eu faço de conta que nunca vi você, e o carinha das fotos continua livre como um pássaro.”

“Qual o seu interesse nisso?”

“Você não é a única vítima do cara. Aliás, essa é a nossa sorte! Se algo acontecer a ele há tantas interessadas no… bem estar dele, que as suspeitas dificilmente poderiam ser direcionadas. Esse cara está na minha alça há algum tempo, por encomenda, mas eu não o conheço pessoalmente. Sabemos que é o mesmo porque o idiota deixou inúmeras pistas nas fotos que jogou na internet. Seria cômodo deixar você fazer sua tentativa… mas só você iria se ferrar, e isto não seria justo. Você é inexperiente, passional, mal equipada, o lugar é público, as saídas são poucas, muitas coisas poderiam sair erradas. Eu tenho uma proposta melhor!”

“Faça!”

“Você me aponta o cara! Só! Saímos e pronto. Um pessoal que trata desses assuntos resolve o problema e está tudo acabado. O tempo e a cosmética se encarregam de mudar você e fazer com que as pessoas se esqueçam das fotos. Ocasionalmente vai ter que mentir um pouco e ter cara de pau, mas isso é a vida!

“Tem uma condição!”

Paulo já estava se divertindo com aquela negociação surrealista aos gritos dos espectadores que ao fundo ovacionavam a gorda do funk para que voltasse ao palco: “Suêmi Senta-o-Pau, Suêmi Senta-o-Pau…”

“Qual?”

“Eu tinha um plano… ao lado do banheiro nos fundos tem um depósito de bebidas. Eu ia levar o cara pra lá fingindo querer um amasso. Eu ia abrir uma segunda boca no pescoço dele, bem grande, na altura do gogó. O sangue não seria notado nesse vestido vermelho e com essa iluminação. Eu sairia pela porta da frente, como entrei. Talvez seja um plano arriscado, cheio de possíveis imprevistos, mas meu ódio por esse infeliz é tanto que eu estava cega. A minha vida virou um inferno. Agora você me tira da jogada, bota profissionais no negócio, e me atiça a imaginação com possibilidades de requinte…”

“Estou ficando curioso!”

“Não quero que ele morra! Eu só quero as bolas dele!”

Paulo olhou por um bom tempo o rosto jovem e bonito à sua frente. Com trato e sem toda aquela mágoa que lhe corroia a alma poderia perfeitamente fazer o papel de um anjo em qualquer peça de teatro infantil. Que idade teria? Dezoito? Dezenove? Ele estava surpreso com o pedido e ao mesmo tempo o achava justo. Fino não teria problemas para convencer o Coisa-Torta dessa pequena mudança nos planos. Só teriam que usar máscaras. Má teria as bolas do cara.

“Negócio fechado!” E apertaram as mãos.

Como se apenas isso faltasse para que os planos de Má se concretizassem ela viu que na porta surgiu a caça. Elegante, cheio de charme, sorridente, andar de felino, descendo os degraus com ginga de modelo, um macho com os dias contados.

“Fique ligado. Na saída vou beijar o cara!”

“Certo. Vamos embora.”

Levantados Má percebeu que Paulo era um negro alto, uns quarenta centímetros mais do que ela, tinha um belo porte. E naquele momento sentiu vontade de beber café com leite.

Quando Má caminhou em direção à vítima, loira, esvoaçante, sorridente, só sexo, em “slow motion”, uma pequena lâmpada no cérebro do infeliz fez uma pálida tentativa de reconhecimento, mas antes disso foi afogado por um beijo com a boca, com os braços, com as mãos, com as pernas, que lhe sugou a memória. E aquela visão, assim como veio foi em direção à porta, vermelha, loiríssima, só curvas, só sangue, e ele sem ar, sem pensar, congelado, marcado.

***

“Leia! Experimente estes bolinhos de carne que eu acabei de fritar?”

“Hummm! Gostoso! Tem ovo?!”

“Só os coquinhos do meu ex!”

“Madááá!… sempre debochada!”

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6 Comentários em “A Vingança de Madá (2ª parte)”


  1. HUAHUAHUAHUAHUA!!!

    GEEEEEEENIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAALLL!!!

    Mas eu acabo de ficar com medo do meu parceiro de projeto literário. Por dois motivos: primeiro porque não vou chegar jamais a escrever tão bem; segundo porque senti um cheirinho de psicopatia no ar… 😛

  2. romacof Says:

    Testículos fritos!

  3. Li Says:

    Testículos fritos….são uma delícia !

    rsrsrsrsrsrsrsrsr

  4. Li Says:

    Bom……quando me disseram o que era…eu já tinha comigo,e o pior,gostado!
    rsrsrsrsrrssr


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