A Vingança de Madá (1ª parte)

Eram 19 horas, o fim do turno de Madalena de Jesus na  padaria. E era sábado. Um sábado especial. O dia da transformação e da vingança. Não queria ver aquele balcão pelas próximas 36 horas. Férias de fim de semana. Jogou o avental com raiva na bolsa e resmungou um “fui” para a colega de canga, que a olhou maliciosamente. A outra era Leia, a pequena serpente.

Jantou um grande sanduíche de pão com mortadela e bebeu todo o suco de laranja da geladeira. Tomou um banho demorado e se jogou nua sobre a cama. Barriga pra cima, braços abertos, pernas abertas, e os olhos bem abertos, redesenhando os nós do forro barato, a mente repassando os próximos passos, à espera da meia noite: a hora da leoa ir à caça.

Chegou a cochilar, mas um pouco depois das onze uma mola automática a fez saltar da cama. “Hora de se vestir.” Madalena odiava o nome. Na padaria a tratavam de Madá. Mas naquela noite em especial era seria Má.

Má borrifou o seu melhor perfume, pintou as unhas de um vermelho intenso, caprichou na maquilagem, usou um batom igualmente vermelho, colocou a peruca loira comprada para a ocasião, entrou em uma calcinha vermelha semi-translúcida quase inexistente, atirou para cima um micro vestido vermelho que como uma pluma deslizou pelos seus braços até se ajustar ao corpo. Por fim calçou um par de sapatos vermelhos com os quais treinara a noite, durante uma semana inteira, para ter certeza que não cairia daqueles andaimes. Deu algumas voltas em frente ao espelho. Observou que os seios escapavam o necessário, e sempre uns centímetros antes da vulgaridade. Notou que as nádegas eram agradáveis e firmes. Sorriu. E considerou que o produto era bom.

Nada de relógio e bijus naquela noite. Levaria uma pequena bolsa vermelha com uma longa alça dourada ao ombro. Dentro um lenço, o dinheiro suficiente para ir e vir de táxi, uma identidade que não era a sua, o batom para eventuais retoques, um espelhinho redondo, e um objeto metálico de uns 15 centímetros de comprimento. O objeto tinha um botão numa das faces. Quando esse botão era pressionado uma lâmina afiada era projetada de dentro do cabo transformando o objeto em uma arma mortal.

Na calçada ficou atenta para o aparecimento de um táxi. Mas em dez segundos um carro cinza encostou ao meio fio. “Carona, gata?”

Aquilo fugia um pouco do plano, mas sempre economizaria o dinheiro já reservado. Debruçou-se na janela. “Vou umas quinze ou dezesseis quadras nessa mesma avenida… agradeceria”.       

“Então entra!”

A viajem foi lenta. O motorista não se decidia se olhava pra frente ou para as pernas de Má. “Encontro?”

“Isso.”

“Ocupada, então?”

“Isso.”

“Pena!”

“É.”

Durante o papo Má tirou o batom da bolsa e fingiu que o usava. “É aqui… é aqui que eu fico! Muito obrigada, tio!”

O motorista estacionou o carro e agarrou com força a coxa esquerda de Má. “Um beijinho seria um bom pagamento!” Má guardou o batom na bolsa, e, enquanto sorria, tirou de lá a lâmina retrátil. Click-Ssipt. A lâmina já estava encostada no pescoço do descuidado.

“Não me custa pintar esse vestido um pouco mais de vermelho!”

O homem retirou a mão da perna de Má e se encolheu contra a porta esquerda. “Mal agradecida!”

“Sou!” E saiu do carro.

Enquanto guardava sua arma na bolsa Má ouviu os pneus do carro cantando em disparada raivosa. Economizara o dinheiro do táxi.

Na porta da boate “Noite de Amor” o leão-de-chácara avaliou a loira que se aproximava ondulante. Parecia conhecida, mas não conseguiu acessá-la em seu curto banco de dados. Era boa. Era problema. Armou sua estampa profissional, pernas um pouco afastadas, bom polígono de sustentação, cara séria e alheia às tentações da vida, com as mãos juntas em frente ao saco, como um jogador na barreira.

A loira chegou a 20 centímetros do seu nariz. O perfume inundou os sentidos do homem e uma gota de suor lhe correu pela nuca desconfortavelmente. A loira se afastou um metro e sorrindo deu duas voltas com os braços abertos, como uma bailarina, com seu pequenino vestidinho vermelho esvoaçando de forma sensual. E ela falou: “Que tal? Você acha que eu consigo manter uns dez meninos lá dentro consumindo um pouco mais do que eles queriam?”

“Tá legal. Vai! Entra logo.” Enquanto Má rebolava para dentro da boate o homem da porta respirou, aliviado, e com o indicador afastou o colarinho na parte de trás do pescoço para que aquela gota incômoda pudesse descer um pouco mais e se misturasse com o suor das costas.

No interior da boate, Má, já incorporada pelo espírito vingador que a levara até ali, farejava em todas as direções em busca de sua vítima. Era ali que ele vinha. Era ali que ele caçava. Era ali que ele iria morrer.

Assim que ela desceu a meia dúzia de degraus da entrada, as antenas hormonais de vários machos captaram a sua presença, o contorno de seu corpo, seus movimentos, as voltas que sua saia dava quando mudava de direção, seu olhar, seu rosto, suas pernas… A penumbra, o som alto, os efeitos das luzes coloridas intermitentes, a fumaça de muitos cigarros, e a dança fracionada pelo efeito estroboscópico dificultavam a procura de Má. Talvez ele estivesse sentado com alguém numa das mesas periféricas, na escuridão total, ou não tivesse chegado, ou não viesse naquela noite. Esse último pensamento deixou Má especialmente frustrada. O plano, a antecipação da realização, não contavam com esse pequeno, mas importante, detalhe. Considerou que deveria se acomodar nas sombras, num ponto fixo de observação, beber um refrigerante, e esperar. Afinal, não poderia sair tudo errado. Era fundamental que o animal viesse para ser abatido.

“Acompanhada?”

“Sim.”

Com esse diálogo curto ela ia rechaçando os eventuais interessados. Não queria ninguém perturbando a sua campana.

Num dado momento o garçom colocou na sua frente um cálice comprido com um coquetel, que não conseguiu identificar, enfeitado com uma cereja. “Eu não pedi isto!” Disse ela ao garçom. “E uma cortesia daquele senhor!” E apontou para um negro sentado duas mesas depois.

O garçom foi embora e Má pensou: “O táxi e a bebida de graça! Estou no lucro.” Bebericou avaliando o teor alcoólico. Era bom.

Enquanto se distraiu colocando a cereja na boca viu que o negro havia sentado ao seu lado e dizia: “A cereja foi a fruta mais vermelha que consegui encontrar e que combinasse com você!”

Má sorriu e respondeu: “Obrigada!” Enquanto observava o interlocutor, pensava: “um negro bonito e forte, um cheiro bom, uma voz agradável, uma boa dicção, um sorriso afável, e começava suas cantadas sem que elas parecessem cantadas.”

“Espero que a bebida não tenha lhe parecido forte demais.”

Sentia-se mais leve, mas amenizou: “Na medida… que eu estava precisando!”

Houve um silêncio de ponderações ocultas. De repente o negro disse: “Paulo… o meu nome!”

“Ah!… Má!”

Paulo riu com vontade e explicou: “Espero que seja um apelido! Não me sentiria confortável sabendo que esse é o seu nome!”

Má também riu e balançou a cabeça: “É apelido do apelido!”  

“Fica melhor… quer beber mais alguma coisa?”

“Água! Tenho que me manter sóbria essa noite!”

“Você vai dirigir?”

“Não! É porque hoje não é dia de beber.”

Um curto silêncio e então Paulo alvejou Má.

“Eu conheço você…!”

A afirmativa a pegou totalmente de surpresa. Aquele homem a conhecia? Como? De onde? Em que circunstâncias? E de repente ficou totalmente sóbria e se lembrou que estava ali para matar alguém e que ela estava falando com uma pessoa que dizia que a conhecia embora ela pudesse jurar que não e que isto atrapalhava e muito a sua saída já planejada… e olhou para o homem que se dizia Paulo sem fôlego e querendo uma explicação.

“… e eu posso lhe ajudar!” Completou Paulo.

(coninua)

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2 Comentários em “A Vingança de Madá (1ª parte)”

  1. Li Says:

    Estou indo ler a segunda parte.

    Estou anunciando …só para que tu não digas…..passaram por aqui,os deseducados,e nem pegadas na areia deixara,rs.


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