Palavrões

A evolução da língua redimiu algumas expressões antes consideradas chulas, ou pelo menos suas expressivas derivações, que precisam ser esclarecidas para que tenham os seus reais valores linguísticos reconhecidos.

Cu. Minha avó materna, uma grande contribuinte no enriquecimento da língua portuguesa, tinha especiais maneiras de usar a palavra cu, de forma que em nenhum momento a palavra fosse associada a ânus ou ganhasse um colorido de baixo calão. Exemplifico: (vejam a riqueza nas sínteses e as possibilidades que se abrem para os usuários inteligentes e imaginativos) “Hoje está um dia cu!” – significa, um dia sombrio, triste, chuvoso, que mais vale ficar entocado em casa comendo bolinhos de chuva. Já “Hoje está um dia do cu!” muda totalmente a feição do dia. Um dia do cu é um dia alegre, ensolarado, que pede um passeio ao ar livre. Um mero “do” antes de cu trouxe felicidade para o dia em questão. Outras expressões, talvez já conhecidas da maioria, embora não citadas pelo Aurélio, incluem: “Vai dar um baita cu de boi!”, refere-se à possível confusão resultante de um problema que ainda não é de conhecimento geral; “Ele tirou o cu da reta!”, significando que alguém conseguiu se livrar de uma situação embaraçosa; ou, a já clássica: “Quem tem cu tem medo!”, aplicável ao silêncio compulsório que alguns indivíduos adotam para não dizerem algo que os comprometerá na certa.

Caralho e Boceta, abertamente proscritas, são duas palavras de uso grosseiro que ganharam, recentemente, verbos derivados de extremo valor retórico. Encaralhar significando enfeitar, arrumar, elevar o padrão, e desbocetar significando estragar, desarrumar, e enfeiar. “A casa estava toda desbocetada quando Maria, como uma fada, começou a volutear, de lá para cá, e a encaralhou toda.” É dito também do resultado do trabalho de um profissional: “Ernesto é um ótimo encaralhador, já Jânio, desajeitado como é, desboceteia tudo em que põe a mão”. Nota-se que em nenhum momento houve conotações de ordem sexual na aplicação dos verbos. Dizer: “Como está encaralhada a sua roupa!” é um elogio. Assim como: “Este seu chapéu está todo desbocetado!” é uma crítica direta ao mau estado do chapéu. A única ressalva que pode ser feita quanto à aplicação dos dois verbos é o porquê de encaralhar ter um sentido positivo e debocetar  um sentido negativo. Embora pareça que há aí um velado machismo é importante esclarecer que a língua evoluiu sem se preocupar com as diferenças sexuais.

Puta-Que-O-Pariu, segundo a minha mãe, é um lugar para onde vão os políticos corruptos, os padres pedófilos, os médicos sacanas, os advogados e os proscritos em geral. Deve ser um lugar rico  pois para lá também são mandados os bancos, os planos de saúde, os serviços de tele-marketing, as repartições públicas, e mais uma infinidade de outros estabelecimentos e serviços que são gerenciados ou onde trabalham indivíduos que agem e se expressam como os primeiros citados. É diferente de “Puta-que-pariu!”, que é uma exclamação de espanto. Veja o exemplo: “O Sena morreu!” – “Puta-que-pariu!”. Notou que há uma grande diferença na conotação e na entonação dadas? Observe sob um ângulo comparativo: “A tia Dagoberta ganhou na mega sena…” – “Puta-que-pariu!” – “…e fugiu pra Europa com o marido da vizinha!” – “Vá pra Puta-Que-O-Pariu!!”. No sentido de lugar a expressão  vem com o conjunto prefixal “vá pra”, e ganha a letra “o” (foneticamente “ô” em “que-o-pariu”) semelhantemente ao que acontece nas mesóclises verbais.

Mamãe acha que Puta-Que-O-Pariu também pode ter o significado de lugar incerto, como quando se pergunta por uma pessoa que não se vê há muito tempo: “Tens visto o Zé?” – “Acho que andou morrendo ou foi pra puta-que-o-pariu”. Neste caso a expressão “vá pra” muda para “foi pra”, perdendo o caráter imperativo afirmativo e sendo utilizado o pretérito perfeito, mais explicativo.

Não podemos nos esquecer que pentelho já foi palavrão até ser popularizado pelo Faustão como um moleque ou um chato. Merda também teve seus maus momentos até ser tornada chique pelo Presidente Lula referindo-se ao estado de pobreza dos assistidos pelo Bolsa Família. Bunda foi glorificada de uma forma artístico-rebolante pelas melancias, filés, morangos, melões e outras especiarias culinárias. Puta e puto foram definitivamente enterradas como palavras feias para não ferir suscetibilidades de além-mar após o acordo ortográfico da língua portuguesa. Até foda está em vias de perder o aspecto sexual graças à expressão: “É foda!” quando você se sente injuriado pelas ações de homens públicos e não pode dar uma resposta honrosa.  Ou até: “Foi foda!” em resposta a uma pergunta corriqueira como: “E então…como foi o teu pedido de aumento?”

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15 Comentários em “Palavrões”

  1. Monica Says:

    Meu avô tinha o hábito de falar ‘bunda’ e minha avó sempre reclamava: “Pedro, pára de falar ‘bunda’ na frente das crianças!”. Ele argumentava que aquilo não era palavrão, bunda todo mundo tem. Minha avó emendava: “É, mas não na boca!” 😀

    • Romacof Says:

      Não deixa de ser uma inteligente crítica da vovó. Um apelo para o bom senso anatômico. Será que adiante apelar para o bom senso fisiológico para quem só diz e só faz merda? 🙂

  2. Jaime Maggi Says:

    Eu que te ensinei sobre a meioria dos palavrões. Além de outras coisas.

  3. Alan Cichela Says:

    Pergunta e Jacu? donde deriva esse termo linguistico de tão culta verborragia?

    Gostaria também de acrescentar as derivações, ligadas ao conjunto de duas ou mais palavras(pra falar a verdade eu me esqueci como se chama isso, mas deve ser derivadas mesmo).

    Fuderoso, que junta o Fuder(foda), com poderoso, ou seja: é um “a fude poderoso”, ou apenas uma maneira chula de falar bem de alguém/algo:
    _ Puxa isso é fuderoso! Querendo dizer que determinada coisa é soberba:
    _ Fuderoso teu novo livro cara! Explicitando o prazer em ter algo, que pode ser também extendido para outros fatores, dependendo da intenção que se aplica, sempre pensando no falar bem.

    Outro termo para ser hablado em boites da vida:
    Gostosuda, onde não couber uma “gostosa” apele por gostosuda, que é a junção do gostosa+boasuda. Uma corruptela para desejos carnais, de ter a donzela despida em um macio retangulo de prazer. Gostosuda é o rabo que se assanha mais que os demais, mas veja bem, não tem nada a ver com o as frutas da vida, que de gostosas nada tem, gostosuda é aquela que supera os adjetivo normais de nossa lingua, e apenas uma criação Joyceana poderia expressar tamanho prazer!

    E é isso

    • Jaime Says:

      Alan. fuderoso é bem interessante. Eu sou do estilo clássico, sem novas derivações (a não ser as que minha vó ensinou do tipo “desencaralhar ou encaralhar e o famoso desbucetar” e suas devidas conjugações verbais). eu sou da velha guarda, EU inclui o palavrão nos diálogos diários lá de casa (também na csa da minha esposa, no trabalho, na curso de arquitetura… ) com uma linguagem simples e objetiva, como o “foda pra caralho” e todas as aplicações do “foder” que deixando de ser verbo expressa quae tudo (o “isso é foda” pode ser bom ou ruim, demasiado grande ou demasiado pequeno, “heaven and hell”, como já diria Dio) assm como o caralho, “longe para caralho e perto pra caralho” “o Universo é grande para caralho ou pequeno pra caralho?”. e se for para chingar aí deve-se usar de criatividade, mesmo sendo do estilo clássico, lembro-me que gretei para um animal na frente de casa após atropelar propositadamente meu cão algo do tipo “pra que ter inveja do tamanho do pau do coitado? só porque o teu não tem a metade do tamanho?” ou quando disse para minha professora que o que irritava ela não eram os meus modos ou minha conduta “e sim o real sentido das palavras que eu usava e a ausência das mesmas na vida dela” (referindo-se ao fato do uso de palavrões por mim, relacionando com a falta de um “homem ou algo do tipo” na vida dela). ou seja, o palavrão faz parte da vida. ele é sério. ele expressa sentimento, resolve problemas de comunicação em que a lingua abitual não está preparada para resolver. o palavrão é o coringa. é a virgula, o ponto de esclamação e o de interrogação. o palavrão é fundamental, e não deve ser dito em vão (como colocar palavrão numa frase apenas para ser cool e dizer uma palavra que ninguém espera, isso errado e prova uma enorme falta de criatividade, como a Pity ou sei lá como é o nome daquela vadia que canta uma música dizendo “pq eu sou foda”, fica clara ali que ela forçou a entrada do palavrão na música para ser diferente, ela só pareceu mais bagaceira do que já é). aliás, falando em mulher, sobre o “gostosuda”, não uso, nem o “gostosa”. assunto em que se discute o “tratamento” dado para uma mulher por ser mais atraente fisicamente ou não, não são muito a minha área, não olho para trás para ver a bunda que passou por mim, não baixo os óculos para visualisar melhor um decote ou as pernas de alguém, nem comento com niguém sobre uma “gostosa”. sexualmente a única mulher que me atrai é a minha, e sobre ela, só falo “comigo” sobre assunto. abraço.

    • romacof Says:

      Obrigado pelos neologismos! Não pensei que um dia a nossa língua pudesse evoluir tanto!

  4. Alan Cichela Says:

    Caro Jaime,

    O palavrão como “palavra” final realmente merece uma valorização, por ser não apenas uma forma de finalizar com clareza qualquer oração, como – bem colocado po você – é um coringa que não só enfrenta qualquer situação como coloca caos na ordem e desembesta o mais babaca. Babaca que por sinal perdeu qualquer conotação perjorativa e pode ser inclusive um cara normal que não revida, um Pau no Cu, sem a intenção do palavrão de tão mal resolvido não merece nem isso é um babaca. Bem voltando: O palavrão é o que salva nossa lingua patria, fodida por todos os lados de ser uma aberração gramatical, o palavrão exala sentimento, mesmo que seja uma Puta de uma frase, nada pode susperar um palavrão no final de uma frase, ele sim é o verdadeiro ponto de exclamação. Tenho como fé que em determinados momentos só um Puta palavrão pode definir e expressar de forma clara a todos que ali estão o que sentimos e queremos transmitir. Bendito coringa que se adequa a qualquer lugar e local com a frequencia de um reza. O que me lembra de outro problema citado pelo amigo: A descrença no uso do palavrão, ora mas como? simples o uso abusivo e fora do sentido por pseudo artistas, citando Pitty, Chorão e afins, que além de não terem nada na porra da cabeça, acham que são cool ao usarem termos que todos dizem ser chulos. Chulos são eles, não tenho nenhum palavrão que expresse a derrocada desse povo senil e besta.

    Bem o gostosuda é usado apenas na intimidade, e fica a seu critério, o coração e a paixão é que medem tal parametro.

    Brincadeiras Joycenas a parte, não me explicaram o Jacu ainda, donde deriva? Nasceu aí?

    Matem minha curiosodade por favor!

    • romacof Says:

      Esta eu deixo para o Jaime e o Theo responderem!

    • Jaime Says:

      Jacú, caro Ser do Norte, é uma ave, e assim como outros animais tem suas designações gramaticais para descrever algumas peculiaridades humanas, o Jacú de mesma forma…

      exemplo:
      boi (masc) – “grande que é um boi / come que é um boi / afoito que é um boi”
      vaca (fem) – puta

      galo (m) – “macho como um galo / gritão como um galo”
      galinha(f) puta

      cão (m) – “feroz como um cão / valente como um cão”
      cadela (f) – puta

      bom, já vimos que a zoologia não tem animais suficientes para a designação suficientemente machista que se quer expressar em uma mulher puta, assim, puto = guri, guri novo, ou brincadeira, se o cara faz uma brincadeira entre amigos “tu é um puto mesmo”. já puta, significa vaca, galinha, cadela e por aí vai.

      e aí está a questão, ninguém conhece Jacú, e não tem como chamar uma mulher de Jacú (não tente Jacua por não soa bem), Jacú é Jacú e pronto. “daí Jacú, tudo certo?” ou “Ei, seu Jacú de merda, vai te foder” “aquele cara é um baita Jacú”, “o novo episódio do Lost é bem Jacú”. e por aí vai. Agora, se vais querer saber da grande semente de trasformar a pobre ave nos anáis (que no chulo ficaria bem de rima com Jacú), aí, bem, aí comeríamos um “ovo”, o o “sal” cai muito mal nas minhas “áftas”… puta que pariu, com essa última só um livro e alguns anos de convivência para explicar. que afudê.

      • Alan Says:

        Rapaz essa resposta foi afudê mesmo.

        Desconheço a ave, mas conheço seu nome, afinal amigos do sul não me deixam esquecer da expressão. Muito boa a eplicação. Mas falta-me a convivência mesmo.

        Foda!

  5. Li Says:

    Creio que “falar” palavrão é desnecessário.
    Tem mulher que gosta de ouvir.

    Jamais escutaria um sujeito que fizesse uso de tais palavras,muito menos namoraria um,rs.

    Sorte minha que nem todos os homens são iguais.

    • romacof Says:

      Lya! No que se refere a mim fico grato por sua simpática grafia salientando “falar”…! No diálogo, concordo, e acho chulo o uso indiscriminado do palavrão. Mas considero o palavrão escrito de um peso na prosa que só pode ser superado pelo grito reflexo de quem levou uma martelada no dedo ou chutou um tijolo. Nesta hora a mais fina dama se esquece da retórica adequada. Nesta hora HÁ a necessidade de cuspir algo que expresse o desabafado e a revolta. Mesmo que a pessoa fique imediatamente corada ali cabe um “puta-que-o” imediatamente engolido pelo recato. É mais forte que a língua e mais rápido que o pensamento. É inevitável!

  6. Li Says:

    Sou enjoada,rs.
    Nunca falei palavrão…por acha-los dispensáveis mesmo.
    Em minha casa também não falavam.

    Tive sorte que os homens pelos quais me interessei também não falavam.

    E quando digo “falar” é falar mesmo,rs.

    Conheço pessoas que o conhecimento da língua se restringe ao uso do palavrão.

    Tenho sorte também porque meus amigos,sabendo que não falo,me respeitam.

    É interessante como isso acontece naturalmente.

    Meu marido falava…..vinte anos depois,acho que ele até fala alguma coisa,mas longe de mim,rs.


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