O tesouro no baú de Deca.

              Atravessei rapidamente a avenida, ziguezagueando e fazendo pausas estratégicas, atento para os espaços deixados pelos carros em suas céleres sinas de transportar agressivos homens ocupado-deprimidos. Minha total concentração era alcançar em segurança a calçada oposta. Naquele momento não percebi que escorregava para uma incursão paralela e me vi junto a uma criança sentada no meio fio da calçada. Vestia o uniforme clássico dos mendigos e carregava um pequeno baú soberbamente decorado ao colo; um objeto incongruente combinado com os trajes e a pele suja do menino. Olhei em volta tentando uma identificação espaço-temporal, às vezes possível pelos traços arquitetônicos do lugar. Uma Veneza sem mar? Uma cúpula circundada por quatro minaretes? Havia um cântico lento e triste de barítonos gregorianos lamentando uma derrota para a morte. Na rua carruagens enegrecidas arrastadas por cavalos esquálidos circulavam lentamente. O sol da manhã dera lugar a uma neblina e era uma tarde abafada. As sombras haviam dançado para o outro lado, e neste momento vi que o pequeno mendigo me olhava com uma olhar de quem tudo sabe, marotamente divertido com minha desorientação!

            Uma ponte ou um guia? Os disfarces eram inúmeros e arrisquei: “Uma moeda por uma explicação!”

            Ele fez uma careta de quem está conversando com o maior idiota do mundo e retrucou quase ríspido: “Por quem me tomas ó forasteiro pleno de empáfia? As aparências enganam em Aqui-seja-lá-onde-for! Aqui sou eu quem dá a moeda e ela é a explicação! Faço uma proposta filosófica simples! Tua única opção é aceitar! Se o teu raciocínio for correto ganharás um tesouro que permitirá que vivas a loucura do lugar De-onde-vim. Com o raciocínio errado perderás o tesouro e abrir-se-á a porta para a loucura do mundo a que denominas O-mundo-real !”

            “Qual é a lógica?” Perguntei. “Se ganho, perco e fico aqui, se perco, ganho o direito de voltar para meu mundo! Você está apenas se aproveitando porque percebeu que perdi minhas referências. Qual são suas intenções, menino?”

            E já não era um menino. Era um velho de barbas e cabelos brancos e desalinhados. As mesmas roupas rotas e sujas. Agora era um mendigo velho.

            “Onde foi parar o menino?” perguntei sobressaltado com a abrupta mudança na aparência do meu interlocutor.

            “Eu era o menino!” Respondeu o velho. “Tua demora perdeu o agora! Estou sentado aqui esperando por uma resposta, e quase morri na espera… mas isto não tem importância, pois sabendo de onde se salta é irrelevante a história. Quando for o momento apropriado serei novamente um menino.”

            “Mas como…?”

            “Esqueça isto homem das perguntas lógicas! Comigo não há o perder ou ganhar. Comigo só há a loucura que vale a pena ser vivida. Tu estás do avesso desde o dia em que foste parido e ainda não acordaste para o fato de que o teu conceito de ganho é uma fantasia irreal, e o teu conceito de perda é o conhecimento total.”

            “Loucuras e mais loucuras! Onde está a sanidade?”

            “Nunca ouvi falar desta insanidade!” E o velho riu até ficar sufocado e com os olhos cheio de lágrimas como se aquilo fosse a maior piada já contada sobre a face do planeta. Sentei ao seu lado no meio fio da calçada a espera que a crise de riso passasse. Aos poucos ele suspirou, enxugou os olhos com a manga do casaco, e me encarou de forma mais sorridente. Aparentemente a gargalhada amaciara sua paciência para comigo.

            “Não existe… tal coisa!” enfim conseguiu dizer. “Assim como não existe a realidade, a verdade, a impossibilidade… e a idade. Pode ser um problema de rima! Mas sobre isto podemos divagar pelo resto de nossas vidas se tu ganhares o nosso pequeno jogo.”

            “Não sei se quero arriscar a viver neste mundo tão… tão!”

            “Deprimente? Este não é o meu estar! Aqui-seja-lá-onde-for é apenas um desvio, uma passagem! As respostas para quase todas as perguntas que teu cérebro lavado pode fazer não estariam aqui, podes ter certeza… aqui até existe gravidade! Preciso me lembrar de anotar mais esta para as rimas!”

            “Então, qual é sua proposta!” arrisquei.

            “Bem!” O velho me olhou dentro dos olhos com o mesmo olhar do menino que eu encontrara no início daquela história, e por um momento percebi que ele era realmente o mesmo indivíduo, só que muito mais velho. “Neste baú eu tenho um tesouro, ou não! Este tesouro pode estar aqui, ou não! Ontem ele esteve aqui, e amanhã ele estará aqui! A pergunta é: como este tesouro poderá ser teu agora, de forma absoluta e inquestionável? Se tu pegares o tesouro ele será teu e ficarás comigo, se tu perderes o tesouro, adios muchacho…”

            Pensei: “… que absurdo! Devo perder para poder voltar para meu mundo; que forma torta de ganhar! A resposta certa é que ontem o tesouro estava aqui e amanhã estará aqui. Hoje pode estar ou não. Logo hoje não há certeza absoluta de que o tesouro esteja no baú. Se eu responder que quero abrir o baú agora tenho 50% de chances de estar certo, ganho o tesouro, e fico preso à charada deste louco. Mas espere! Agora não há forma de afirmar de forma absoluta que o tesouro estará no baú. Metade das chances são de que eu não ganhe o tesouro se optar por abrir o baú agora. Afinal, esta pode ser a opção certa! ou não! Que dilema! A menos que… a menos que eu opte por ver o conteúdo do baú no dia de ontem, que não existe mais, ou no dia de manhã, que ainda não existe. Só aqui e agora há 50% de probabilidade de encontrar o tesouro… então a resposta certa é abrir agora! A errada é abrir em tempos inexistentes, mesmo com a garantia de que nestes tempos o tesouro esteve ou estará aqui, pois eu não estou nestes tempos inexistentes, e portanto não posso interferir em seus momentos temporais. Como meu interesse é errar para abandonar este sonho louco devo escolher qualquer tempo com exceção do agora, para não ganhar o tesouro. O agora é o tempo certo, mas o jogo é de errar…! Vou descartar o ontem porque é ilógico demais, vou optar pelo amanhã, pelo qual, em teoria, poderei esperar, ignorando a premissa do: “como este tesouro poderá ser teu agora?” A palavra chave é: agora !”

            Meu devaneio foi interrompido pela voz rouca de um homem ainda muito mais velho. “Devo me reencarnar para esperar tua resposta ou esta mente brilhante já chegou a uma conclusão?”

            “Cheguei!” – Respondi. “Vou sentar aqui com você e esperar até amanhã, pois o ontem não voltará, o agora não me dá certeza absoluta de que o tesouro está no baú, e você me afirmou que amanhã ele estará aí dentro!”

            Em um instante o velho pareceu carregar toda a infelicidade do mundo. “Meu nome é Deca! Já nos conhecemos.” – A lembrança do nome e as circunstâncias do primeiro encontro eriçaram meu cabelo na nuca. “Tu és uma das raras criaturas a quem foi oferecida a chance de mergulhar no universo e recusou. O que é mais triste é saber que tu não desconheces a resposta verdadeira, mas propositadamente optaste por errar para ter a chance de voltar para o teu inferno. Gosto discutível! Só compreensível quando aplicado aos cegos! Não é possível saltar de um lugar onde se esteve um dia! Não é possível saltar de um lugar em que se estará um dia. Só é possível saltar do aqui e do agora. Todas as outras loucuras são irreais. O passado e o futuro não existem. A única forma de acordar é saltar para o desconhecido, sem questionar, do momento presente. Tu continuarás o teu sonho das convenções estabelecidas como verdades…”

            O velho desapareceu num átimo. A buzina irritada e estridente de um Megane desentorpecia meus sentidos. Saltei para a calçada sob os olhares curiosos dos transeuntes semi-anestesiados pelo calor do verão. O motorista baixou vidro e gritou:

            “Tá a fim de morrer, ô, chapado?”

            Ainda penso nas últimas palavras de Deca: “Tu continuarás o teu sonho das convenções estabelecidas como verdades…”

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21 Comentários em “O tesouro no baú de Deca.”


  1. Confesso que não entendi uma coisa: decidir permanecer ali até amanhã para ter a certeza de ganhar o tesouro parece ser a única maneira garantida de realmente ganhar o tesouro. Então, por que Deca diz “você não desconhece a resposta verdadeira mas propositadamente optou por errar“?

    A impressão que tenho é que devias ter ganhado o tesouro e permanecido com Deca, não somente de hoje para amanhã, mas para sempre, por teres conseguido desvendar a charada…

    • romacof Says:

      “A pergunta é: como este tesouro poderá ser seu agora, de forma absoluta e inquestionável?” Agora, só abrindo o baú agora!. Se o tesouro estiver no baú é seu, se não estiver no baú não há tesouro. Amanhã não é agora para o momento atual. Para o agora o amanhã é uma inexistência. Esperar até amanhã não é a resposta correta pois não será agora.


      • Eu interpretei da seguinte maneira:

        “A pergunta é: como este tesouro poderá ser seu agora, de forma absoluta e inquestionável?”

        “Ser meu” não significa “estar acessível”.

        Adonando-se agora do baú, que poderia conter ou não o tesouro hoje, mas que certamente conteria o tesouro amanhã, e mantendo-se na posse do baú até amanhã, quando ele certamente conteria o tesouro, garantiria agora a posse do tesouro, que entretanto só estaria disponível amanhã.

        Como a questão era “ser meu” e não “poder usar”…

        Consegui me fazer entender?

        • romacof Says:

          “Adonar-se” do baú mata a magia! Politiza a fábula! Dá ensejo a uma CPI. Torna o mundo paralelo um mundo confluente. Quem matou Deca? Quem coloca o tesouro no baú amanhã se Deca não estiver vivo e capaz de fazê-lo?

  2. Franci23 Says:

    Legal o texto ou o conto ou mesmo a realidade…

  3. Monica Says:

    Gostei!
    Posso resolver o enigma usando universos paralelos? 🙂 Seria uma mãozinha e tanto…
    Falando em universos paralelos: Arthur, seu blog continua abduzido numa outra relação tempo/espaço que eu desconheço? Não consigo acessá-lo mais, ainda está dando pepinos? 😦

  4. camargo Says:

    deca é o seu tao? ou o baú é o seu tao? Quanto tempo demoramos para entender qual é o melhor caminho? Esse tempo que passa por nos…

  5. camargo Says:

    caro Romacof… dá uma olhada na discussão minha e do Arthur na postagem “Resolvido o problema com os comentários” no Pensar não dói. Dá tua opinião sábia.

  6. Alan Cichela Says:

    Olá Romacof!

    confesso, que nada li, mas alguma coisa me chamou a atenção. Não sei bem ao certo. Não sei mesmo. Mas alguma coisa me diz que certas lembranças de tempos imemoriais (escrevi certo?), retornam a baila e se transformam em algo mais que concreto. Nunca fui a guerra, mas parece-me que o silêncio que presenciamos e os olhares trocados, são cheios de medo e confusão por estarmos em pé, na frente do campo de batalha.

    Um abraço do amigo

  7. ( Li ) Says:

    Gustí….rsrsrsrs.


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